Sobre anticorpos neutralizantes e a CoronaVac

Por Daniel Y. Bargieri e Silvia B. Boscardin, professores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e pesquisadores do Núcleo de Pesquisas em Vacinas da USP

Daniel Y. Bargieri – Foto: Arquivo pessoal

 

Silvia Boscardin – Foto: Arquivo pessoal
No primeiro dia de março, foi publicado um trabalho mostrando que soros de pacientes recuperados da covid-19, ou de voluntários vacinados com a CoronaVac, perdem capacidade de neutralizar a variante de Manaus do sars-cov-2.No mesmo dia, uma matéria no jornal O Estado de S. Paulo foi publicada com o título “Variante de Manaus pode escapar dos anticorpos produzidos pela CoronaVac, sugere estudo”.

A vigilância para detecção precoce de variantes do vírus é muito importante. Da mesma maneira, a ciência está atenta para a possibilidade de as novas  variantes escaparem da resposta imunológica, tanto em pacientes recuperados quanto em pessoas vacinadas.

O principal teste adotado para verificar este possível escape mede o quanto é necessário de uma amostra de plasma para neutralizar a entrada do vírus em células de laboratório. Neste experimento, o único jeito do vírus se dar mal é se houver no plasma testado anticorpos neutralizantes que, como diz o nome, neutralizam o vírus. Esse teste é especialmente importante no caso das vacinas da Pfizer, Moderna e AstraZeneca, que são baseadas na proteína Spike do vírus e induzem altos níveis de anticorpos neutralizantes contra ela. É por isso que modificações na proteína Spike são preocupantes, pois os anticorpos gerados por essas vacinas podem deixar de se ligar às Spikes variantes, reduzindo a eficácia da vacina.

Entretanto, a resposta imunológica não consiste apenas de anticorpos neutralizantes. Infecções naturais e vacinas estimulam respostas imunológicas multifatoriais. Simplificando, além de anticorpos neutralizantes, são gerados anticorpos não neutralizantes que agem de maneira diferente, células T CD4 e células T CD8. Portanto, mesmo que a proteína Spike das variantes mude e os anticorpos neutralizantes gerados pelas vacinas da Pfizer, Moderna ou AstraZeneca passem a ser menos potentes (como mostrado aqui e aqui), ainda podem restar outros tipos de resposta para proteger a pessoa vacinada.

Esses outros tipos de resposta foram investigados em outro trabalho também publicado em primeiro de março. Nele, os pesquisadores mostraram que as mutações observadas na proteína Spike das principais variantes do vírus têm pouco impacto sobre a resposta de células T CD4 e T CD8 induzida pelas vacinas da Pfizer e da Moderna. Em outras palavras, parte da resposta induzida por estas vacinas continua igualmente ativa contra as variantes testadas. É claro que com menor atividade de anticorpos neutralizantes a resposta global deve piorar, pois o sistema imunológico é como uma orquestra, mas já há várias evidências, como mostrado neste outro trabalho também de primeiro de março, mostrando que a resposta imunológica celular é eficaz e importante no controle da doença.

E a CoronaVac, como fica nessa história?

A CoronaVac é bastante diferente das outras vacinas. Ao invés de usar apenas a proteína Spike, ela usa o vírus inteiro. Isso significa que ela induz resposta imunológica contra a Spike e também contra as outras 25 proteínas do vírus. Não vem ao caso, aqui, discutir se isso é melhor ou pior. O importante é entender que são vacinas diferentes e, portanto, estimularão o sistema imunológico de maneiras diferentes. A CoronaVac, ao contrário das outras aqui mencionadas, induz baixos níveis de anticorpos em geral, e baixos níveis de anticorpos neutralizantes. Ou seja, naquele experimento em que o vírus é colocado para infectar células de laboratório, o plasma de pessoas vacinadas com a CoronaVac frequentemente não consegue neutralizar o vírus. Entretanto, como sabemos, ela é eficaz em prevenir a covid-19. Portanto, a conclusão lógica é que a proteção conferida pela CoronaVac provavelmente não é mediada em grande parte por anticorpos neutralizantes. E tudo bem ser assim. Muitas vacinas que tomamos não devem ter esse tipo de anticorpo como principal mecanismo de proteção. O sistema imunológico, repito, é uma orquestra complexa.

Como a indução de anticorpos neutralizantes não parece ser marcante na CoronaVac (como mostra esse trabalho), a verificação de neutralização do vírus e suas variantes usando aquele experimento com plasma de vacinados passa a ter menor importância. Obviamente, esse tipo de vigilância não é inútil. Afinal, quanto mais informação tivermos do inimigo, melhor. Também não está errado dizer que o estudo mencionado no primeiro parágrafo deste texto sugere escape dos anticorpos da CoronaVac pela variante de Manaus. Só é importante ter em contexto que isso ocorre nas condições experimentais específicas de medição de atividade de anticorpos neutralizantes, que são escassos nesse caso. Tão escassos, que o próprio vírus sem as mutações também não é muito bem neutralizado. Ou seja, os anticorpos induzidos pela CoronaVac, neste experimento específico, têm desempenho pior contra a variante de Manaus, mas já eram bem ruins contra o vírus original.

Teremos que esperar para ver qual será o impacto disso na realidade. Neutralização por anticorpos não parece ser o mecanismo mais importante na proteção induzida pela CoronaVac. Portanto, achamos que a diminuição da neutralização do vírus em laboratório terá pouco impacto real, mas isso ainda precisa ser demonstrado. A mensagem principal que queremos deixar, no entanto, é que não vale a pena perder o sono ainda.

Mais importante ainda, continue acreditando nas vacinas. Há muito mais evidências de que elas funcionam do que sugestões que elas possam falhar.


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