Sobre a importância da História das Ciências

Ivã Gurgel é professor do Instituto de Física (IF) da USP

Por - Editorias: Artigos
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Ivã Gurgel – Foto: Arquivo pessoal
Nos dias 13 e 14 de novembro o Centro Interunidades de História da Ciência (CHC), em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEA), realizará o Simpósio USP de História da Ciência e da Tecnologia: Construindo Diálogos Interdisciplinares. O evento busca reunir pesquisadores interessados em História das Ciências que trabalham em diferentes unidades da USP para compartilhar seus trabalhos e suas reflexões. Neste momento, então, pode ser válido questionar: Qual a importância da História das Ciências para o conjunto da Universidade?

As diferentes áreas do conhecimento adquiriram, ao longo dos anos, características muito próprias. Cada disciplina carrega em si uma epistemologia, que se manifesta em suas formas de interpretar o mundo, na linguagem desenvolvida para a descrição de seus fenômenos e nas diferentes técnicas de investigação e transformação da realidade. Com isso se formam as diferentes especialidades, que se definem não apenas pela construção de um objeto de estudo específico, mas por suas formas de pensá-lo e torná-lo inteligível.

A grande especialização das ciências faz com que seus experts dediquem anos de formação para a atuação em uma determinada área. O reconhecimento pelos pares está relacionado à produção de trabalhos que demonstrem um grande domínio das metodologias utilizadas para a construção do conhecimento. Esta necessidade se transfere à formação de estudantes de graduação e pós-graduação, que acabam por privilegiar a aprendizagem de aspectos técnicos de sua área ao longo de sua educação.

O aprofundamento em problemas muito específicos de um campo é, provavelmente, uma necessidade inevitável. A obtenção de qualquer resultado novo exige o mergulho especializado. Contudo, pode-se perguntar se a formação de pesquisadores deve se limitar às habilidades necessárias a esse mergulho. Questionando-se de outra maneira, qual seria o papel de uma formação cultural mais ampla em um contexto universitário?

Nos dias 13 e 14 de novembro o Centro Interunidades de História da Ciência (CHC), em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEA), realizará o Simpósio USP de História da Ciência e da Tecnologia: Construindo Diálogos Interdisciplinares.

Embora alguns cursos mantenham a preocupação de desenvolver uma formação geral e de caráter humanista, esta não é uma realidade comum. Raramente cursos das áreas de saúde, engenharias, ciências naturais e outras contam com alguma disciplina de humanidades. A maior parte das graduações não conta com disciplinas voltadas à História das Ciências ou que discutam o fazer científico. Breves relatos históricos são, eventualmente, realizados durante a introdução de um tema, mas raramente estas situações vão além de uma narrativa anedótica.

Não é raro encontrarmos produções bibliográficas que reduzem a História das Ciências a um relato mítico que transforma cientistas em heróis. Este tipo de escrita, de caráter hagiográfico, muitas vezes cumpre a função de consolidar realizações que trazem legitimidade a uma área de pesquisa, como se para existir a mesma necessitasse de um “mito fundador”. Embora esta forma de narrar episódios cumpra um papel, ela elimina o que talvez seja o principal objetivo de um estudo histórico: a análise crítica das origens e do desenvolvimento de um “processo” delimitado por condições sociais.

A vivência de um paradigma faz com que se naturalizem os conceitos, os procedimentos e mesmo os objetivos de um trabalho de pesquisa. Nos relacionamos com a nossa cultura como se ela fosse a própria natureza e, assim, não pudesse ser diferente. Contudo, quando se coloca algo em uma perspectiva histórica, o que antes era dado passa a ser construído, fruto de escolhas e embates que fizeram com que alguns caminhos se realizassem e outros fossem descartados.

A história dos acertos e dos erros das ciências caminha muito próxima. Isso não implica negar a legitimidade de alguns saberes, mas sim reconhecer as sutilezas da prática científica. O conhecimento envolve limites de validade impostos pelo seu próprio processo de construção, o que faz com que modelos e teorias precisem ser ao longo do tempo retificados.

Não é raro encontrarmos produções bibliográficas que reduzem a História das Ciências a um relato mítico que transforma cientistas em heróis.

Vale destacar que ao longo das últimas décadas a História das Ciências deixou de ser apenas a história das ideias científicas, mas também passou a considerar as práticas, os instrumentos, os modos de publicação, as instituições, as políticas e outras dimensões do fazer científico. Estes elementos nos permitem revelar as dinâmicas internas da ciência, que demonstram que a mesma é fruto de um microcosmo social. A validação de um trabalho de pesquisa não se encerra em uma medida, mas na negociação de significados com os pares.

Além disso, a ciência é parte da sociedade, influenciando e sendo influenciada por ela. Contextos e necessidades externas à ciência influenciam seu desenvolvimento, deixando com maior clareza a marca de seu período histórico. Por outro lado, não apenas produtos da ciência afetam e transformam as sociedades, como muitas de suas ideias alimentam novas mentalidades e estimulam diferentes tipos de criação.

Reconhecer a ciência como o fazer de uma comunidade com condicionantes sociais muitas vezes revela possíveis desvios de um ethos científico postulado a priori. Sua história revela decisões motivadas por razões muito distantes da lógica. Mais que isso, muitas vezes somos obrigados a reconhecer que na prática científica se manifestam as dimensões mais sombrias dos seres humanos. Trabalhos de enorme potencial foram impedidos por avaliações pautadas em preconceitos de raça, gênero, religião e possivelmente outros.

Revelar a ciência como ela é muitas vezes pode parecer uma maneira de simplesmente desqualificar um saber sistematizado. No entanto, o melhor talvez seja olhar pela perspectiva contrária. De certa forma, demonstrar quão complexo, desafiador e conflitante pode ser o desenvolvimento científico talvez seja a melhor forma de colocar poesia nesta área. Se a ciência fosse apenas acertos, não haveria por que se aventurar. Contudo, se aventura envolve correr risco, evitar posturas ingênuas é a melhor estratégia de segurança que podemos ter.

A dimensão humana das ciências muitas vezes pode ser percebida em seu cotidiano. Contudo, como argumentamos anteriormente, em geral é muito difícil criar algum distanciamento quando estamos imersos em um processo. Assim, a defesa aqui feita da história implica a valorização de um olhar reflexivo. Somente uma perspectiva temporal nos permite reconhecer um processo que ocorre em etapas ou em ciclos que faz com que acontecimentos pontuais possam ser ponderados, evitando-se fatalismos induzidos pelo momento.

Estas breves considerações ocorrem em um momento em que a Ciência e as universidades vivem um momento de grande crise. Assim, para além da validade de qualquer das proposições aqui expostas, fica um convite para uma reflexão sobre qual processo estamos vivendo. Um olhar histórico sobre como as ciências se desenvolveram pode mostrar que os valores que estamos perdendo não são apenas os financeiros.

 

 

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