Skavurska! Ou a euforia midiática em torno da Copa

José Carlos Marques é membro do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas) do Departamento de História da USP

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José Carlos Marques – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

É provável que o telespectador brasileiro se tenha deparado nas últimas semanas com o bordão Skavurska, mote de campanha publicitária divulgada por uma operadora de TV por assinatura e de banda larga de internet. A expressão aparentemente indecifrável para os falantes de português é proferida por um indivíduo que porta um traje militar hipoteticamente relacionado ao exército russo. Trata-se do “coronel Boris Tutchenko”, personagem presente em comerciais da empresa de 2007 a 2010 (quando ainda não se tinha a notícia de que a Rússia seria a sede da Copa do Mundo de 2018).

Ao que tudo indica, o próprio termo sequer existe na língua russa. Foi criado pela publicidade brasileira para vender os serviços de uma companhia que estimulava o consumidor a “sair da Sibéria” e a assinar um novo plano de serviços mais completo – tudo isso em meio a uma melodia que nos fazia acreditar que se tratava de alguma marcha militar herdada dos soviéticos. Pertencente ao conglomerado Globo, a tal empresa ressuscitou agora, às vésperas do Mundial Fifa, tanto o Boris Tutchenko como a interjeição inusitada: Skavurska!

De forma geral, os meios de comunicação televisivos e o mercado de anunciantes brasileiro têm-se esforçado nos últimos dias para recriar o já conhecido clima de euforia em torno da Seleção Brasileira – daí não surpreender o fato de sermos bombardeados com um grito de exortação como o Skavurska. É como se tivéssemos que nos transportar obrigatoriamente para o ambiente de comemoração que, segundo certo olhar, daria uma nota distintiva ao ethos brasileiro, especialmente durante uma Copa do Mundo.

Nesse processo de bombardeio executado pelo bordão militar, as televisões nos dão a conhecer a trajetória de vida e os aspectos familiares de todos os jogadores brasileiros – além do técnico Tite. Suas histórias são contadas e recontadas sempre em tom épico, valorizando invariavelmente o dom natural e o processo de superação de cada um deles. É sintomático que essas mesmas emissoras de TV nunca tenham feito algo semelhante para nos mostrar os feitos e as origens dos homens que têm comandado a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) nas últimas três décadas, todos eles envoltos com denúncias inefáveis de corrupção.

Em outro procedimento de anestesia coletiva, a Seleção Brasileira é cantada e decantada em verso e prosa por locutores e comentaristas esportivos. Se há menos de dois anos corríamos o risco de ficar de fora desta Copa (é só lembrar do desgaste e da campanha pífia do técnico Dunga à frente do “escrete canarinho”), passamos agora à condição de franco-favoritos, ainda mais na sequência da boa recuperação do astro Neymar Jr. e do aparente acerto tático e técnico mostrado pelo escrete nos últimos amistosos antes do Mundial.

O mercado publicitário, por sua vez, ainda que com menos marcas do que em épocas passadas, passou a desferir um ataque feroz na busca do congraçamento da torcida brasileira em torno do alarido da festa tropical. E para cumprir tal vaticínio de que o hexacampeonato não é miragem, recebemos uma infinidade de comerciais com gente festejando nas ruas, ou gritando em meio a copos de bebida, ou comemorando as vitórias virtuais ao lado de bandeiras verde-amarelas.

De forma geral, os meios de comunicação televisivos e o mercado de anunciantes brasileiro têm-se esforçado nos últimos dias para recriar o já conhecido clima de euforia em torno da Seleção Brasileira – daí não surpreender o fato de sermos bombardeados com um grito de exortação como o Skavurska.

Nesta terra das maravilhas a que assistimos nas telas de televisão, podemos nos perguntar se as emissoras e os anunciantes combinaram tudo isso com os russos*. Pesquisa publicada pelo Instituto Datafolha dois dias antes do início da Copa de 2018, entretanto, dava conta de que 53% dos brasileiros afirmavam não ter o menor interesse pelo Mundial – a pior marca da história desde que o instituto passou a fazer tal aferição, por ocasião da Copa de 1994. Antes disso, em abril deste ano, o mesmo Datafolha apontava que 41% dos brasileiros não se interessavam por futebol, contra os 31% de enquete semelhante realizada em 2010.

O que terá acontecido com o chamado “País do Futebol”? O sociólogo Ronaldo Helal (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) vem apontando há anos que, se somos a Pátria em Chuteiras – como defendia Nelson Rodrigues –, nossas chuteiras estariam cada vez menores, ou menos brilhantes, diria eu. O fato de as Copas do Mundo coincidirem no Brasil (desde 1994) com as eleições presidenciais e estaduais tem trazido componentes políticos imprevisíveis. Neste ano, por exemplo, as forças que lutaram contra o impeachment de Dilma Rousseff demonizaram a camisa amarela da Seleção Brasileira, relacionando-a com as manifestações “coxinhas” que pediram o fim da presidência da petista e nas quais proliferaram as tais camisas com o símbolo da CBF. Não à toa, a versão azul do segundo uniforme da Seleção apareceu com força nas vendas de ambulantes, ou então surgiram outras versões de camisas verde-amarelas, algumas bem originais, como a que traz o grito de “gol” criando uma sinergia com a palavra “golpe”.

As prisões de políticos e empresários por conta da operação Lava Jato; a intervenção federal no Rio de Janeiro no início do ano; o assassinato não resolvido da vereadora carioca Marielle Franco; as suspeitas em torno de Michel Temer e de outros nomes do governo federal; a crise econômica e política atual; a paralisação dos caminhoneiros no último mês de maio; a violência urbana que salta aos olhos nos grandes centros; e até a ressaca dos 7 x 1 diante da Alemanha em 2014 – tudo isto compôs um cenário de alta instabilidade e turbulência social, o que provocou uma atmosfera pouco afeita a se acompanhar a Copa da Rússia de maneira inocente.

Por outro lado, nunca é demais lembrar que assim que o Mundial do Brasil começou em 2014, o bordão Não vai ter Copa cedeu espaço para as festas nas ruas e nos estádios, naquilo que a comunicação social quis retratar como um congraçamento fraterno entre os povos. Isto traz à memória um episódio da Copa do Chile de 1962, quando o Brasil levou o bicampeonato e o jornal Última Hora estampou em sua capa do dia 18 de junho (um dia após a decisão contra a então Checoslováquia) as seguintes manchetes: “Taça do Mundo é nossa mais 4 anos” e “Povo canta a vitória final nos 4 cantos do país: mesmo sem arroz e feijão, o Brasil é Bicampeão!”.

Em 2018, cabe perguntarmo-nos se a sociedade brasileira estaria disposta a abrir mão do arroz e do feijão no prato em troca de um novo título mundial. O hexacampeonato na Rússia seria capaz de nos fazer esquecer, ainda que por algumas horas, as mazelas cotidianas que nos cercam? A princípio, não. Nem poderia ser assim. Mas tudo é possível se Neymar Jr., Gabriel Jesus & cia. começarem a introjetar o vírus do hexa no público brasileiro. Nada parece estar combinado – nem com os russos, nem com os brasileiros. Talvez seja necessário decifrarmos logo o significado do tal Skavurska.

* Uma das narrativas que envolve a carreira do jogador Garrincha indica que o craque brasileiro, após ouvir as complicadas instruções dadas pelo técnico Vicente Feola na Copa de 1958, antes da partida Brasil x União Soviética, teria perguntado ao treinador: “Tá legal, seu Feola… mas o senhor já combinou tudo isso com os russos?”.

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