Sexualização e política dos corpos na Copa da Rússia

Wagner Xavier de Camargo e Luiz Henrique de Toledo são pesquisadores do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens) da USP

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Wagner de Camargo. Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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Luiz Henrique de Toledo. Foto: Francisco Emolo / USP Imagens

No dia do primeiro jogo da seleção brasileira, na Copa do Mundo de Futebol masculino na Rússia, um grupo de turistas brasileiros convidou uma garota russa para confraternizar com eles a torcida pelo Brasil. Dos gritos de “Brasil, Brasil”, logo iniciaram em coro outra expressão, para eles entre engraçada e irônica, a da “boceta rosa”. Entre risos sarcásticos e pulos efusivos, os machos-alfa continuaram a pronunciar tal frase incitando que a garota russa a repetisse. Em tempos de fibra ótica e internet ultraveloz, o episódio gravado caiu nas redes sociais.

Ultrajante, porém longe de ser inédita, a conduta destes profissionais liberais (ao menos um deles identificado como sendo engenheiro) e agentes do estado (funcionário público, polícia militar) impuseram a dinâmica da humilhação à jovem russa induzida na armadilha do congraçamento entre povos, de resto algo propalado pelo modelo exclusivista, elitista e misógino do padrão FIFA em Copas do Mundo.

A repercussão foi ampla e virulenta nas redes sociais e mesmo na TV, no Brasil e no exterior; houve condenação coletiva dos atos, considerados aviltantes. Se outrora passariam incólumes, inclusive para suas próprias mães e irmãs, dessa vez não foi bem assim. Em tempos de recrudescimento de ânimos e de guerras sexuais (como as travadas entre grupos não-heteronormativos e religiosos), a “ingênua brincadeira” foi, inclusive, alvo de representação jurídica contra esses indivíduos.

A dinâmica da festa em solo estrangeiro longínquo está longe de ser popular, daí o conjunto de fãs pelo selecionado abrigar em sua ampla maioria  torcedores de alguma posse, identificados como brancos de classe média a realizar o sonho de ver uma Copa do Mundo. A quebra das regras da sociabilidade fora dos círculos familiares, do trabalho, do cotidiano, a distância do próprio país, enfim, carregam alguma excitação novidadeira que nutriu as desculpas e justificativas da parte dos envolvidos, que trataram o assunto como se fosse algo justificável e levemente condenável. Mas há nessas justificativas um tanto infames uma profunda despolitização de seus corpos, dos corpos de suas vítimas, dos corpos torcedores, ademais, despolitização da Copa como locus de embates figurados entre nações, grupos étnicos, bem como enfrentamento das subjetividades.

Do ponto de vista desses torcedores e de tantos outros que seguem minimizando o ocorrido, a tese é que foram vítimas da excepcionalidade que acomete todos homens de bem, ciosos da moralidade normativa (ou heteronormativa). E apanhados numa espécie de arapuca onde corpos, cheiros e fenótipos exóticos inebriantes (“bocetinhas rosas” metonimizando jovens russas) ditaram as rédeas da condução juvenizada da experimentação de uma sexualidade já deixada para trás e recalcada pela seriedade da vida, ingressaram numa espécie de regressão psíquica, passageira e inocente, passível de perdão porque abrigada tanto no inconsciente capcioso quanto nos corpos desejantes reprimidos. Portanto, pouco ou nada teria o caso a ver com o domínio político de gestão da pessoa, sobretudo no trato como outras, das posses e vontades conscientes. Numa expressão, uma brincadeira de mau gosto.
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A repercussão foi ampla e virulenta nas redes sociais e mesmo na TV, no Brasil e no exterior; houve condenação coletiva dos atos, considerados aviltante

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Porém, é preciso lembrar que ao menos desde a Copa passada, realizada no Brasil, já houvera relatos de torcedores brasileiros, presentes nas baladas pós-jogos no bairro da Vila Madalena em São Paulo, que igualmente expuseram estrangeiros a semelhantes “pegadinhas” em nome da jocosidade acobertada pela recíproca da ignorância entre idiomas. Torcedores orientais, igualmente jovens e sorridentes repetindo a expressão “eu sou viado” pipocaram aqui e ali sem a repercussão que o caso da jovem russa alcançou, agora quatro anos depois.

De bom, talvez, fica como lição a propagação veloz (viralização) das incontáveis vozes indignadas nas redes sociais. De ruim, certamente, o avanço apenas relativo e restrito da crítica, uma vez que a repercussão da famigerada “pegadinha” se manteve segura dentro do ambiente heteronormativo da cultura misógina, não se eximindo da interpretação conservadora, tais como aquela que ainda concebe o episódio como mais um confronto entre homens abutres e uma infensa e bela jovem. Inclusive parece que é dentro dessa chave escamoteadora que a desculpa dos homens também se orientou, ou seja, reconhecendo o mau gosto da piada, porém, mantendo intocáveis as raízes da própria misoginia.

Outros casos nessa mesma Copa da Rússia espocaram e vieram à tona, tendo como vítimas crianças ou adolescentes e o efeito da hierarquia moralizante (porém sempre conservadora) se repetiu, quer dizer, não se faz isso com a inocência. Foi possível ainda ler nos comentários de internautas que ninguém faria isso com homens fortes, mais musculosos ou masculinizados, porque seriam passíveis de uma retaliação física.

Mas todos esses fatos estão longe, porque muito próximos também, de ocorrerem tão somente em função da aparente (e não menos preconceituosa) vulnerabilidade das vítimas, sobretudo porque repisam intocadas estruturas narrativas sobre a sexualidade, que merecem alguma atenção. Voltaremos a elas logo adiante.

Ao menos dois casos aproximados e já muito explorados se destacaram na Copa realizada no Brasil: o famoso “Dilma, vai tomar no cu”, desferido pelo coro das frações de classe endinheirada confinadas nas arquibancadas do estádio corinthiano na ocasião da abertura da Copa, e o “puto”, expressado pelos torcedores mexicanos na reposição da bola pelo goleiro adversário, que rapidamente se transformou num hit (viaaaadoooo!) pelas arquibancadas brasileiras já há quatro anos. A FIFA ameaçou mais uma vez agora, assim como tentara no Brasil, mas sem resultados, punir semelhante má conduta torcedora coletiva em relação aos cantos e gritos que explicitam preconceito; afinal, seria ela a legislar sobre a sociabilidade dentro dos estádios! Porém, silenciou-se até o momento em relação a casos como o da jovem russa, talvez porque o fato não tenha ocorrido dentro dos limites territoriais de suas higienizantes fanfests.

De todo modo um silêncio condenável porque pouco sensível ao fato de que uma Copa acaba espraiando em muito os seus territórios ou os territórios de uma dada sociabilidade torcedora, que ela mesma inventa e patrocina. Se a FIFA conseguiu afastar os torcedores reconhecidamente mais violentos dessa Copa muito por conta da política de encargos imposta aos países que se submetem à realização desses megaeventos (excluindo ou minimizando a presença de torcedores hooligans), não se deve desconsiderar que muito da sociabilidade popular também acabou higienizada dentro desse processo.

Não devemos desconsiderar totalmente o fato de que a misoginia à brasileira protagonizada tanto no Brasil quanto na Rússia, pode ter sim uma proximidade (ou ao menos um apelo indutor) a valores arraigados de classe apregoados na elitização do espetáculo promovido pela FIFA. Até a suposição da parte dos homens de que estariam impunes e o espanto e surpresa cínica anunciados na justificativa de que se tratava apenas de “brincadeirinhas de mau gosto” colocam sob suspeita toda a ambientação promovida e patrocinada pela FIFA.
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O caso da jovem russa não cessa de produzir desdobramentos funestos também no interior da própria cultura misógina russa, expondo as chagas do conservadorismo político e comportamental de um país que ainda mal digeriu o seu ocaso como superpotência

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O espraiamento de outras formas de violência política, sobretudo essas que gravitam em torno dos “criativos” enfrentamentos de gênero que, certamente, se expandem em profusão (mas que apenas uma fração acaba alcançando as redes sociais) seguem, ao menos desde a Copa de Futebol masculino do Brasil, minimizados pela entidade. O problema, no entanto, é que obviamente isso tem a ver com o modo como a própria FIFA induz e reafirma a sociabilidade heteronormativa no propalado bordão generalista de que uma Copa seria o exercício do congraçamento entre “povos”, numa concepção conservadora, portanto excludente, de política esportiva.

Nesse sentido, interessante a obsessão de nossos conterrâneos com tal (hetero)sexualidade. Não resolve apenas agrupá-la, talvez, sob a fatura de “sexistas, machistas e misóginos”. Há algo enigmático na latente sexualização dos corpos e de suas línguas. Sexualiza-se o outro para justificar um estereótipo. Verbaliza-se (sobre) o sexo a fim de escamotear a má compreensão que se tem da amplitude do mesmo. No fim das contas, só a heteronormatividade instituída rege incólume: pênis encontram vaginas dentro de regras instituídas. No futebol e nos esportes a exceção é torta, aberrante: lésbicas, gays, pessoas transgênero, orgias sexuais e/com travestis não existem. Aos aberrantes, a invisibilidade – ou a inexistência, em se tratando de Vladmir Putin.

Tanto a “boceta rosa” quanto o “dar para o Neymar”, frases utilizadas nessas ocasiões, fazem referências a dois órgãos sexuais que institucionalizam o sexo no corpo. Vagina e ânus são dois lugares que o simbolismo comum remete ao prazer e à repugnação, respectivamente. Não se considera a inversão desta simbologia. Ora, vagina e ânus são órgãos, igualmente, excretores. E ambos podem ser canais de prazer, dependendo de que perspectiva sexual sejam tratados.

Em que pese a vagina estar elevada a órgão máximo vangloriado pelos machos heterossexuais brasileiros nos bastidores da Copa da Rússia, o ânus (e por extensão as nádegas, bunda e seu envoltório) é o que exerce maior exaltação em suas considerações. Não da mesma monta, nem no mesmo sentido, porém sob uma pragmática histérica. Homem que é homem não se deixa tocar no traseiro; aliás, não deixa o amigo se aproximar muito dessa área, mesmo num encontrão do futebol de várzea do fim de semana. Homem macho-alfa penetra “bocetas rosas”, nunca deixa ser penetrado, principalmente por Neymares.

O caso da jovem russa não cessa de produzir desdobramentos funestos também no interior da própria cultura misógina russa, expondo as chagas do conservadorismo político e comportamental de um país que ainda mal digeriu o seu ocaso como superpotência. Grupos extremistas nacionalistas condenaram a jovem porque ela teria submetido a virilidade russa e a “verdadeira” mulher eslava aos caprichos de estrangeiros ruidosos e inferiores. E nesse misto de interpretações cruzadas em que concepções de nação e de gênero se misturam num moralismo perverso, a Copa russa de futebol masculino vai passar, como passaram tantas outras. O que não devemos deixar passar é o que aprendemos com ela a partir dessas ações constrangedoras de torcedores brasileiros.

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