São Paulo – rua nossa de cada dia

Anderson Borges Costa, bacharel e mestre em Letras pela FFLCH, relembra formação da cidade

Por - Editorias: Artigos
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Anderson Borges Costa é bacharel e mestre em Letras pela FFLCH da USP e autor de "O livro que não escrevia" - Foto: Divulgação
Anderson Borges Costa é bacharel e mestre em Letras pela FFLCH da USP e autor de O livro que não escrevi – Foto: Divulgação

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No dia 25 de janeiro de 1554, os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta fundaram o colégio que seria o centro de educação e formação dos indígenas para se adequarem ao modo de vida dos jesuítas. Colocado desta forma, o nascimento da maior cidade do Brasil carrega a simpática ideia de que a capital paulista surge de mãos dadas com a sapiência e a erudição, já que seu marco inicial, o Pátio do Colégio, é uma escola.

No entanto, o sítio arqueológico onde foi levantada a primeira construção na cidade assinala também a gênese de um espaço enorme no qual a cultura, a arquitetura e a habitação travam violentas batalhas diárias para se afirmarem e se firmarem, cimentando rígidas cicatrizes em seu corpo urbano deformado. Este corpo urbano mal-alimentado completa agora 463 anos. A festa é comemorada com um bolo antropofágico em que peles vermelhas, brancas, negras e amarelas acendem e apagam as centenas de velinhas que o enfei(t)am.

O bolo de aniversário deste ano será servido, mais uma vez, com gosto de estragado, com prazo de validade vencido, para vencidos e para vencedores. No dia de sua fundação, em janeiro de 1554, havia muito mais indígenas do que europeus na região que hoje forra a urbi et orbi paulistanas. Agora, quase cinco séculos depois, vemos que o bolo não é capaz de alimentar a todos os pelos e peles de sua epiderme rústica. A cidade, ironicamente ainda não formada, caminha com passos descalços sobre uma constante má-formação, que a transforma em uma anomalia urbana. E, neste movimento deformado, pelejam peles de povos indígenas e não-indígenas em lutas e lutos seculares.

Os números mostram que, dentro ou fora do Pátio do Colégio, os índios continuam bebendo da água do ribeirão Anhangabaú. E os goles sorvidos pelos primitivos povos paulistanos são acompanhados por suculentas mordidas em carne humana, em rituais antropofágicos movidos pela crença de que, ao devorarem a carne do inimigo, estariam incorporando também a sua sabedoria, valentia e erudição. A refeição, da qual o Bispo Sardinha foi apenas a entrada, continua sendo servida neste ano no aniversário de São Paulo, mas o conteúdo das panelas e dos caldeirões humanos é hoje disputado por mais bocas, e o revezamento entre comida e comedor vem pautando os tijolos e os prédios levantados nas ruas da megalópole em que se transformou nossa cidade. No Pátio do Colégio, o cristianismo era o conteúdo da grade curricular, mas os índios não tiravam o olho do corpo de Cristo e outros corpos que poderiam ser consumidos na hora da merenda.

No dia 25 de janeiro de 1554, os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta fundaram o colégio que seria o centro de educação e formação dos indígenas para se adequarem ao modo de vida dos jesuítas.

Foi justamente a ideia da formação de uma das mais ricas e desiguais cidades do mundo que, em diálogo constante com a antropofagia cultural cunhada pelo escritor Oswald de Andrade, eu escrevi o romance Rua Direita (editora Chiado, 2013). E, como em janeiro se comemoram o aniversário da cidade de São Paulo e o aniversário da Universidade de São Paulo, vale a pena tragar com os olhos a contribuição que Rua Direita pode oferecer nesta comemoração.

O enredo de Rua Direita pode ser resumido da seguinte maneira: o romance se passa em um dia qualquer (talvez algumas horas) na vida de um homem na Rua Direita, no centro da cidade de São Paulo. Ele é anônimo, portanto, é cada um de nós, tem fome e busca se alimentar. Durante sua busca, o protagonista vê desfilar pela rua, de forma desordenada como a arquitetura da cidade de São Paulo, várias manifestações e aspectos da cultura brasileira, como o carnaval, o futebol e as injustiças sociais. A fome do personagem principal é uma referência à fome da (eterna) fase de (de)formação em que se encontra a cidade de São Paulo e, portanto, em que nos encontramos todos os que nela vivemos, amarrados por uma teia na qual estamos pendurados há séculos.  A narrativa está amarrada por uma cachoeira de citações e referências literárias, musicais, cinematográficas, artísticas e históricas, construindo uma espécie de teia sobre a qual se tece o enredo.

Quer degustar um pouquinho do Rua Direita? Abra a boca e feche os olhos: Desejava a defenestração da fome. Bebia aquele desejo. Pensou em Deus, pensou no Diabo, mas viu apenas a terra do sol. Entrou em transe. Levantou-se para ir à janela. Tropeçou em uma rocha apoiada na cama e caiu sentado. Ouviu batidas na porta.”

Foi justamente a ideia da formação de uma das mais ricas e desiguais cidades do mundo que, em diálogo constante com a antropofagia cultural cunhada pelo escritor Oswald de Andrade, eu escrevi o romance Rua Direita.

Perceba que a construção da cidade de São Paulo neste romance dialoga com a ideia de uma cidade fundada dentro de um colégio, com alunos famintos, através de uma arquitetura errante e sem memória. A Rua Direita é colada ao Pátio do Colégio, é colada à fundação da cidade aniversariante. É uma rua curta, menos de 300 metros: começa na Praça da Sé e termina na Praça do Patriarca. Recebeu o nome de “Direita” (tradição portuguesa), pois a rua estava à direita da Igreja da Misericórdia. É, portanto, uma rua que dialoga com os jesuítas. É uma rua diferente; por ela não passam carros, apenas pedestres.

No entanto, por ser diferente, fora do padrão, é uma metáfora para a cidade e para o Brasil: pela Rua Direita, passam os mais variados estratos sociais da cidade – executivos de grandes empresas e grandes bancos sediados no centro, pessoas da classe média, comerciantes de lojas e restaurantes e gente pobre, gente muito pobre, inclusive gente sem-teto, que usa a Rua Direita como dormitório. A maior cidade do Brasil é conhecida por ser uma cidade verticalizada, e o primeiro arranha-céu de São Paulo (o edifício Guinle) foi inaugurado em 1913 na… Rua Direita.

A Rua Direita e o romance Rua Direita são ecos do big-bang social que representou a fundação do colégio em 1554. Ecos que entoam em páginas, em ruas, bairros e esquinas de São Paulo: a maior e mais urbana aldeia indígena do mundo. E você, leitor, participando como alimento ou como convidado de mais uma festa da cidade faminta, cante com índios, jesuítas, japoneses, árabes, judeus, haitianos, europeus e latinos de São Paulo: “Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas…”.

 

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