Ruy Fausto: o filósofo e seus fantasmas

Por Pedro Paulo Pimenta, professor associado do Departamento de Filosofia da FFLCH/USP

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Pedro Paulo Pimenta – Foto: Arquivo pessoal
Em uma das últimas vezes que encontrei Ruy Fausto foi por acaso, ele passava diante do prédio em que moro, no bairro da Consolação em São Paulo. Perguntei-lhe o que fazia por ali; chegara de Paris? Quanto tempo ficaria no Brasil? Coisas corriqueiras. Fomos caminhando um pouco, eu levando minha filha à escola, ele com uma mochila nas costas, o passo rápido, a fala animada. Repentinamente, paramos em uma das esquinas da Praça Buenos Aires, na Avenida Angélica com a Rua Piauí. Fitou-me por um instante, e depois lançou o olhar ao redor, dizendo “sabe, Pimenta, estou à procura de uns fantasmas”. Referia-se à sua infância e juventude, passadas em um casarão na Avenida Angélica. Um grande filósofo brasileiro caçando fantasmas em plena luz do dia.

Ruy Fausto faleceu em 1º de maio de 2020, em seu apartamento em Paris, junto ao piano que tocava com habilidade e prazer (gêneros de predileção: o ragtime, o jazz e o samba). Estivera no Brasil há pouco, com o intuito de lançar o primeiro número da revista Rosa, que concebera como sucedâneo de outra publicação, Fevereiro, e que faria parte, tal como esta última, de seu esforço de contribuição para a revisão dos fundamentos teóricos da prática política dita “de esquerda”.

O lançamento, abortado, estava previsto para acontecer em uma livraria na Avenida São Luís, no que se tornaria o primeiro sábado do atual período de isolamento. Ruy planejava ainda, para logo, a publicação de um novo livro de reflexão teórica, sobre Marx, e dedicava-se, entre outras coisas, a absorver, em ritmo intenso, as últimas novidades estrangeiras e nacionais no terreno dos infindáveis debates econômicos que, para o bem e para o mal, definem a vida pública do século XXI. Tinha 85 anos, mas estava sempre longe de se dar por satisfeito com o que fizera.

E não fez pouco. Por um período longo, digamos, entre 1964 e 2004, o nome de Ruy Fausto era conhecido principalmente nos meios acadêmicos brasileiros e franceses. Construíra uma reputação sólida com base em um ciclo de estudos sobre a dimensão filosófica do pensamento de Marx, tal como se encontra expresso no Capital e nos Manuscritos econômico-filosóficos, sem esquecer os textos correlatos a esses.

Professor de filosofia, Ruy Fausto a praticava com destreza e rigor, aliando à explicação de textos – sem a qual toda cogitação se arrisca no devaneio – uma interpretação original que não hesitava em se afirmar em um duro embate com outras vozes contemporâneas (Althusser, Castoriadis etc.), questionadas por uma leitura que as perpassa por dentro, questionando-as de maneira imanente. Quem quer que se aventure na leitura dos três tomos de Marx: lógica e política – editados e reeditados, integral ou parcialmente, em português e em francês, a partir de 1983 – terá alguma dificuldade para se ambientar ao clima especulativo que os define. Mas o esforço inicial é mais do que recompensado pelo gosto que se adquire ao acompanhar os meandros do raciocínio desse dialético formidável.

O interesse por Marx vinha desde os tempos da Faculdade de Filosofia da Rua Maria Antonia, na qual ingressou como estudante em 1960, instituição da qual se tornou professor em 1967. Mas é preciso lembrar que, na mesma casa da Avenida Angélica, ouvira, na convivência familiar, “as primeiras conversas sobre o socialismo”. E, como militante de grupos de esquerda, e editor da revista Teoria e Prática (publicada entre 1964 e 1968), não hesitara em intervir, na prática e na teoria, em debates com implicações políticas claras.

Com o AI-5, exilou-se no Chile, de onde partiu em 1973. Na França, tornou-se professor da Universidade de Paris 8 e defendeu, em 1981, o que à época se chamava de “doutorado de Estado”. Não admira encontrar em suas páginas acirrados debates com a tradição francesa, fortemente presente na cultura filosófica uspiana, mas também com interlocutores brasileiros, em alguma medida ligados à singular tradição marxista (de forte viés democrático, diga-se de passagem), que se desenvolveu e prosperou na universidade brasileira.

A partir da segunda metade dos anos 2000, o nome de Ruy Fausto começou a aparecer com cada vez mais frequência nas páginas da imprensa, com artigos, entrevistas e notícias de publicação de livros de outro gênero. Com A esquerda difícil (2007), a imagem consolidada do filósofo e acadêmico “marxista” teve que ser revista. Pois, o que despontava agora era o contundente crítico de certa linha teórico-política, que marcou profundamente a esquerda do século XX, e que remete, na genealogia de Ruy Fausto, aos bolcheviques – com a teoria leninista do partido como vanguarda revolucionária do proletariado.

Surpreendeu a muitos encontrar, em A esquerda difícil e outros livros posteriores, mais que uma crítica, a ideia de que toda essa tradição deveria ser simplesmente “rechaçada”, como ele me disse uma vez. As controvérsias, às quais Ruy Fausto nunca fora estranho, multiplicaram-se, à medida que aumentava o seu prestígio junto aos círculos ditos “liberais”.

Mas essa reviravolta há de ter parecido surpreendente apenas para aqueles que não deram atenção a um traço da política de Ruy para o qual Paulo Arantes, um de seus interlocutores-adversários, chama a atenção, em Um departamento francês de ultramar (1994). Pois, desde os anos 60, Ruy Fausto nunca fora marxista ortodoxo nem fechara com a linha comunista estrita, permanecendo alheio ao dogmatismo dos partidos e buscando, por meio da reflexão teórica, por brechas de intervenção política originais – no melhor espírito, portanto, da tradição revolucionária do século XIX.

Ocorre que o bolchevismo não foi o único fruto dessa tradição, que ramificou também na social-democracia, termo um pouco gasto em nossos dias, mas que exprime, originalmente, um modo bastante radical de se fazer política. É da recuperação desse radicalismo que se trata nas desavenças de Ruy Fausto com o dogmatismo revolucionário (a revista Fevereiro evocava a revolução levada a cabo pela social-democracia russa, derrotada pela Revolução de Outubro).

Procurei descrever em linhas muito gerais alguns marcos temáticos do trabalho de Ruy Fausto. O legado que ele nos deixou está longe de ter sido esgotado. Não mencionei a falta que ele fará àqueles que tiveram a oportunidade de desfrutar de sua companhia genial, de conviver com sua personalidade divertida, de testemunhar seu caráter generoso.

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