Revisão de falas? (5)

Mario Fanucchi é professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Por - Editorias: Artigos
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Mario Fanucchi – Cecília Bastos/USP Imagens

 

Passado o primeiro mês desta série de artigos, é hora de fazer um balanço do que foi aqui exposto por este que se declarou um defensor da nossa “pobre rica língua portuguesa”. O que é um defensor? Alguém que acredita em uma ideia, passa a analisá-la mentalmente, até conscientizar-se de que precisa dividi-la com alguém. Resultado: arrisca-se a sofrer uma rejeição instantânea… ou a ser um pregador no deserto. Devemos, porém, considerar uma terceira alternativa: a existência daqueles que se dispõem a examinar uma ideia, por mais estranha que pareça. É nesse diminuto coeficiente que estou apostando na pregação em favor da Revisão das Falas.

Pois bem… Penso já haver definido, com toda a clareza, a necessidade de falar corretamente o nosso idioma, da mesma forma como escrevemos, isto é, respeitando as regras gramaticais, zelando pela eufonia, pelo vocabulário, pela clareza e tudo aquilo que, em última análise, passa pelo crivo do Revisor de Textos. Ele é o verdadeiro finalizador de uma das formas de comunicação nascidas em momentos mágicos da criatividade humana. Fala e escrita – escrita e fala – cada uma a seu tempo.  Mas com igual importância. Então, por que privilegiar os caracteres quando se procura registrar e transmitir as palavras? Resposta: a revisão impede o erro, o descuido, no documento escrito, mas o mesmo não acontece numa fala. Daí a necessidade de se adotar uma alternativa: a revisão nas falas a posteriori, a Pós-Revisão (nome  provisório por mim preconizado em capítulo anterior). O efeito desse novo tipo de revisão não é instantâneo, mas se tornará efetivo se determinado erro não se repetir por omissão da fonte da informação ou da notícia. Uma vez adotada a obrigação de revisar as falas, o ouvinte ou telespectador adquirirá maior confiança nos profissionais de comunicação. A partir do novo conceito – isto é, repito, a difusão de  notícias e informações com a mesma correção exigida nos textos – a iniciativa será também de grande ajuda num sentido mais amplo: o ouvinte, intuitivamente, passará a fiscalizar (ou revisar mentalmente) as palavras lidas ou pronunciadas de improviso pelos locutores, apresentadores, repórteres – enfim, por quem tem voz nos meios eletrônicos.  E, como resultado adicional, se acostumará a também zelar pelo nosso idioma, com os ganhos reiterados, nos primeiros capítulos, como justificativa para o projeto.

Um sonho? Uma fantasia? Motivação – este é o segredo. A implantação da Pós-Revisão terá de se apoiar na convicção de que precisamos melhorar, de modo geral, o aprendizado de português. E, finalmente, decidir se o projeto tem chance de ser um elemento auxiliar nesse esforço.

Então, qual a razão da interrogação, justamente no título: Revisão de falas? “Perguntar não ofende”, diria a sabedoria popular, com a qual concordo. Porque estamos diante de um tema que exigirá muita discussão, com as características habituais dos assuntos polêmicos. E, claro, tudo deverá começar com uma autoconsulta entre profissionais do radiojornalismo e do telejornalismo. Caso eu já contasse com a ajuda do responsável pelo Planejamento (que, como sabem, está gozando férias), eu pediria que ele formulasse um questionário capaz de estabelecer os porquês, quantos e comos da questão. Auscultados os editores, chefes de setores e, naturalmente, os revisores de textos, o capítulo seguinte iria mexer com a Administração… Parada dura pela frente? Realidade, meus caros…Sempre foi assim e continuará a sê-lo.

Resumindo a ópera, teríamos dado apenas os primeiros passos para dimensionar a tarefa. Haverá, com certeza, dificuldades para pesquisar, organizar e tirar conclusões sobre cada aspecto do problema. E novas questões irão surgindo, impondo reflexões para aperfeiçoamento da metodologia, bem como… Ei! Vamos parar por aí, sob pena de nos deixarmos vencer pelo desânimo. No momento, o nosso foco é tão somente levar a ideia adiante, ouvir as pessoas, sempre que possível e estimulá-las a sermos, nós todos, mentalmente pelo menos, revisores voluntários do que se ouve, dia e noite, no rádio e na tevê. Porque os atentados à língua continuam acontecendo impunemente e urge interrompê-los.

Aí vão dois flagrantes, para dar uma ideia da problemática que, em última análise, devemos enfrentar:

Exemplo 1 (entrevista no rádio, diretamente de um local de vacinação): “A gente fez isso… a gente fez aquilo”… a gente fez aquilo outro – a funcionária usa a expressão “a gente” sem dar a menor ideia de quantas são as pessoas e quais as funções que exercem – tudo muito vago, a demonstrar sua incapacidade de informar. Eis que o repórter (na circunstância, um voluntário inesperado da Revisão de Falas) acode:

– Daqui a pouco, mais detalhes sobre as últimas ações da Secretaria da Saúde.

Exemplo 2 (desta vez na televisão): Entrevistado, empolgado com a própria argumentação, pergunta ao apresentador:

–Na sua opinião, já não é hora de todo mundo sentar na mesa e discutir o problema?!

Comentário: “Sim, cavalheiro. Mas que a mesa seja bem resistente”.

Nota de última hora:  Acabo de receber, de uma colaboradora voluntária, a  informação de que um apresentador de telejornal referiu-se à capital da Paraíba como “João Pessoas”. O lapso do jornalista e sua presença de espírito ao corrigir-se  podem ser citados como um ato de pós-revisão instantânea…

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