Reminiscências de Ernst Wolfgang Hamburger

Moysés Nussenzveig é Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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Foto: Arquivo pessoal
Ernesto (como eu sempre o chamava) e eu nos conhecemos em 1948, como colegas da 1ª série no então denominado “curso científico” do Colégio Estadual Presidente Roosevelt. Logo nos tornamos melhores amigos.

Estudávamos juntos, muitas vezes em sua casa da rua Groenlândia. Havia no colégio uma sala que vivia trancada. Um dia conseguimos a chave e ao entrar nos deparamos com muitos armários envidraçados, com prateleiras onde se encontravam numerosos aparelhos, desde pequeno até grande porte, sem qualquer rótulo ou explicação de para que serviam. Era óbvio que não tinham sido usados desde havia muito tempo.

Tratava-se, como soubemos depois, de uma coleção de instrumentos para demonstrações em aulas de laboratório de física, que havia sido adquirida na Europa na época em que existira o ‘pré-universitário’, um curso preparatório para o vestibular.

Conseguimos decifrar para que servia cada um deles, com a ajuda do “Traité de Physique” de Adolphe Ganot e Charles Maneuvrier, edição da Hachette datada do princípio do século 20, com muitas gravuras em estilo Gustave Doré. A coleção era muito completa, incluindo desde um pêndulo reversível até ampolas de Crookes para produzir raios catódicos e observar sua deflexão por campos magnéticos. Havia uma bobina de Ruhmkorff para produzir alta tensão alternada e até mesmo um excitador e detector para reproduzir experimentos de Hertz.

Colocamos todos em funcionamento e fizemos demonstrações para nossos colegas de classe. Aprendemos muito de física e nos divertimos à beça com essa aventura. É possível que tenha influenciado Ernesto para criar anos depois no IFUSP o laboratório de demonstrações que hoje leva seu nome.

Um de nossos professores era Mário Schenberg. No curso de 3º ano de Mecânica Analítica, cobriu em poucas aulas o conteúdo do livro A Treatise on the Analytical Dynamics of Particles and Rigid Bodies, de Edmund Taylor Whittaker, cujo nível já seria avançado mesmo para pós-graduação.

Estudamos juntos para o vestibular, usando uma apostila de física de Roberto Salmeron, redigida quando ele lecionava num cursinho para vestibular. Lembro-me de que preparávamos fichas no verso de cédulas de propaganda eleitoral distribuídas gratuitamente.

Ernesto prestou o vestibular para a física da USP. Eu tinha ganho uma bolsa do governo francês para um ano em universidade francesa e passei esse ano na Sorbonne. Ernesto ganhou uma das primeiras bolsas de iniciação científica do CNPq, para trabalhar no Laboratório do Acelerador Van de Graaff, que estava sendo montado pelo Professor Oscar Sala.

Quando voltei da França, fui aceito diretamente no 2º ano da física como paraquedista, sem vestibular, e juntei-me a Ernesto no Laboratório do Van de Graaff. Em nossa turma de 12 alunos, estava Amélia Fausto Império, com quem Ernesto depois se casou. No Van de Graaff, contribuíram para nosso aprendizado experimental dois físicos americanos, Philip Bartlett Smith (Phil) e John R. Cameron.

Com Phil, Ernesto, Amélia e seu irmão Flávio, fomos nas férias para Itatiaia como aprendizes de alpinismo. Também organizamos um minigrupo de teatro em que interpretávamos peças: entre outras Cyrano de Bergerac.

Um de nossos professores era Mário Schenberg. No curso de 3º ano de Mecânica Analítica, cobriu em poucas aulas o conteúdo do livro A Treatise on the Analytical Dynamics of Particles and Rigid Bodies, de Edmund Taylor Whittaker, cujo nível já seria avançado mesmo para pós-graduação. Depois, como costumava fazer, passou a tratar de tópicos relacionados com a pesquisa em que estava trabalhando naquele momento.

Fomos brindados assim com um curso sobre o Problema de Pfaff. O nome se refere ao matemático alemão Johann Friedrich Pfaff. Schenberg estava usando “pfaffianos” em pesquisas sobre mecânica estatística; hoje em dia, poucos sabem o que são. O principal e talvez único livro de referência é o tratado Leçons sur le Problème de Pfaff, de Edouard Goursat (Hermann, Paris, 1922), cujo único exemplar na USP pertencia a Mario Schenberg.

Como estudar para o exame oral no final do curso? Recrutamos Amélia para, com a cara e a coragem, ir pedi-lo emprestado a Schenberg, notoriamente cioso de seus livros. Ela conseguiu! Estudamos juntos por alguns dias e passamos no exame.  Uma vez registrada a nota de aprovação…

Para devolvê-lo, fizemos uma molecagem. O livro viera cuidadosamente encapado com papel craft. Naquela época, a Faculdade ficava na rua Maria Antonia, e havia um boteco na esquina. Com uma nova folha de papel craft, colocamos mais uma sobrecapa no livro, fomos ao boteco e pedimos um sanduiche de mortadela. Esfregamos uma fatia de mortadela na nova sobrecapa, até ficar bem engordurada.

Amélia foi novamente incumbida da devolução. Ela contou que Schenberg empalideceu, mas acabou percebendo, com um sorriso amarelo, que por baixo da sobrecapa seu livro estava intacto. Anos depois, Amélia tornou-se a curadora do acervo de Mário Schenberg na USP.

Depois do bacharelado (nem Ernesto nem eu optamos pela licenciatura), nossos caminhos se bifurcaram. Ernesto continuou como experimental e eu me tornei físico teórico. Depois de uma passagem pelo CBPF, acabei migrando para os Estados Unidos em 1963. A ditadura militar nos levou a lá permanecer por doze anos.

Em 1966, Ernesto e família foram para Pittsburgh, também após intervenção militar na USP. Fomos visitá-los com nossa família no Natal daquele ano. Eles tinham alugado uma casa enorme, mas que estava superlotada, porque vários outros brasileiros haviam vindo visitá-los.

Durante a noite, ouvimos um estrondo. Era nosso filho Roberto que, à força de pular em seu berço, havia acabado por demoli-lo! Nosso filho de três meses, Paulo (atual professor do IFUSP), dormia numa gaveta.

Rememorar essas aventuras conjuntas de nossas duas famílias, que eram como uma grande família única, serve um pouco de consolo para a perda de meu inesquecível amigo Ernesto, à memória de quem dedico este relato.

 

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