Razões da Copa do Mundo

Katia Rubio é professora da Escola de Educação Física e Esporte da USP e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Conta a história que o esporte contemporâneo é um produto da sociedade industrial inglesa do século XIX e, por essa razão, a estrutura institucional que temos no presente está diretamente relacionada à cultura britânica. Federações e regras foram inventadas para unificar e centralizar ações, tendo como referência os players da ilha. Naquele momento o império britânico dominava o mundo, do ponto de vista econômico, que junto com seus produtos manufaturados exportava também cultura, incluindo o esporte, que para sair da Inglaterra e poder ser praticado em qualquer parte do mundo, precisava de regras. E aí reside o poder da instituição que as universaliza e controla.

O futebol é um desses casos. Institucionalizado na Inglaterra por meio da Associação de Futebol, em 1863, teve sua organização internacional estruturada com a fundação Fifa, no ano de 1904, em Paris, cujos países signatários foram Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Espanha, Suécia e Suíça, dez anos depois da criação do Comitê Olímpico Internacional (COI), que naquele momento buscava congregar todas as modalidades esportivas num grande festival quadrienal chamado Jogos Olímpicos. Embora a família olímpica desejasse parecer aos olhos do público uma unidade homogênea, ela carregava em seu interior as intrigas e diferenças que marcam uma sociedade estratificada e classista. O futebol era visto como uma modalidade popular praticada por operários das inúmeras fábricas na Grã-Bretanha, nas poucas horas livres que restavam das exaustivas jornadas de trabalho semanais. Apesar disso, algumas escolas aristocráticas permitiam o futebol entre os estudantes, que tinham no rúgbi, no críquete ou no tênis modalidades consideradas mais apropriadas a quem estudava nessas instituições.

Ausente do programa olímpico em 1896, por não demonstrar interesse entre aqueles que poderiam competir, o futebol foi incluído como modalidade de exibição nos Jogos de 1900 e 1904, sendo que dessa última participaram apenas estudantes universitários.

Ainda que nada recebessem para jogar, os operários/jogadores eram considerados profissionais, adjetivo empregado para contrastar com os atletas amadores, ou seja, aqueles que praticavam o esporte por amor, e que defendiam a prática hedonista e descompromissada possível apenas aos que podiam se dedicar ao esporte sem qualquer outra intenção senão o prazer pelo esforço. Era considerado amador todo atleta que jamais tivesse recebido prêmio em dinheiro por um resultado alcançado em competição ou competido com profissionais, e que não tivesse recebido algum ganho em dinheiro para exercer a função de professor ou monitor de atividades físicas, fossem elas competitivas ou não. Ou seja, a afirmação do amadorismo buscava distanciar do cenário olímpico a corrupção gerada pelas tentações do capitalismo de promover o lucro com a habilidade do atleta.

E assim, desde a primeira edição olímpica realizada em 1896, foi colocada à prova a capacidade de diálogo e entendimento entre atletas e instituições. Enquanto os atletas desejavam competir, as instituições, por meio de seus dirigentes, pretendiam defender não apenas sua compreensão sobre o esporte, mas manter o poder das organizações que já dominavam as competições. Nessa mesma época o futebol alcançou popularidade e se multiplicou rapidamente, também no continente europeu, desvinculando-se da identidade operária original, estimulando a criação de muitos clubes, vários deles ainda ativos. Naquele momento da história essa popularização parecia ameaçar a posição aristocrática alcançada pelo esporte, colocando em risco a imagem de exclusividade consolidada.
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Algumas escolas aristocráticas [da Grã-Bretanha] permitiam o futebol entre os estudantes, que tinham no rúgbi, no críquete ou no tênis modalidades consideradas mais apropriadas a quem estudava nessas instituições.

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Ao longo das décadas de 1910 e 1920, mesmo com uma Grande Guerra a devastar a Europa, um poderoso embate envolvendo o entendimento do que era amadorismo e profissionalismo dominou as assembleias e reuniões do COI. A aristocracia dominante não admitia que membros das classes trabalhadoras pudessem se misturar ao seleto grupo olímpico e para tanto criou regras rígidas que levaram o futebol a um impasse.

Quando incluído no programa olímpico nos Jogos de Londres, em 1908, o futebol já era organizado pela Fifa, que estabeleceu as condições para que essa competição ocorresse, controlando não apenas as regras, mas também toda a gestão dos jogos, como a indicação de árbitros e auxiliares. Nesse momento, cada federação definia seu conceito de atleta amador. Ali tinha início a maior demonstração de força do universo do esporte, muito embora ninguém tivesse ideia do que resultaria desse impasse. A competição destinava-se apenas e tão somente a amadores, que não recebiam qualquer remuneração, que não fossem registrados como profissionais, muito embora pudessem ter reembolso de despesas para o pagamento de viagens e hospedagens. Também se considerava remuneração despesas de treinamento pagas pelas entidades representadas pelos atletas.

A permanência do futebol no programa olímpico foi cercada de tensão até o final da década de 1920. Os jogos lotavam estádios, como poucas outras competições, dando à Fifa a tranquilidade para negociar com o COI quem seriam seus atletas em campo. Considerado popular e inclusivo, permitia que seleções nacionais fossem formadas por extratos sociais distintos da aristocracia predominante até então nas outras modalidades olímpicas. O ponto culminante da tensão ocorreu quando, no congresso de Praga de 1925, diante de uma nova discussão para definir quem seriam os atletas amadores, ficou determinado que o reembolso de salários perdidos por causa das competições seria considerado ganho indireto e, portanto, caracterizaria ganho financeiro para a prática do esporte. Essa decisão afetava diretamente muitos jogadores/trabalhadores de diferentes seleções nacionais. Diante da postura da Fifa em defender seus jogadores, a Associação Olímpica Britânica formalizou um protesto pelo descumprimento de uma regra estrutural do movimento olímpico, exigindo assim que o futebol fosse excluído dos Jogos de Amsterdã, em 1928. A exclusão não ocorreu nessa edição, porém concretizou-se em 1932.

Ciente do poder de mobilização que o futebol já desenvolvera ao longo das últimas décadas, o então presidente da Fifa, Jules Rimet, resolveu organizar um campeonato mundial de futebol. Para ele era evidente que o futebol já não dependia do COI, nem dos Jogos Olímpicos, para promover a competição que os atletas – amadores ou não no entendimento do COI – desejavam ter, dando ao público o espetáculo que ele queria receber. A partir desse momento teve início o espetáculo esportivo capaz de rivalizar com os Jogos Olímpicos. A primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai, em 1930, deslocou a atenção do mundo esportivo da Europa e da América do Norte, e inaugurou uma nova lógica para o esporte, que se concretizaria na década de 1980. No campo do complexo jogo do esporte, perdeu a hipocrisia e venceu o pragmatismo.

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