Raduan Nassar e o hino do Botafogo

Jurandir Renovato – SCS

Por - Editorias: Artigos
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Jurandir Renovato é editor executivo da Revista USP, contista e crítico literário – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Em 2011, a Universidade de Quintana Roo, no México, financiou uma pesquisa na qual perguntava a um grupo de escritores, críticos e jornalistas tupiniquins (em que, modestamente, fiz parte) quais os três melhores romances brasileiros dos últimos vinte anos.

A ideia era estabelecer uma lista de títulos contemporâneos para serem eventualmente traduzidos e publicados por uma editora mexicana. Uma forma de divulgar e atualizar a literatura brasileira naquele país.

Algum tempo depois eu recebi um relatório onde se indicavam os livros mais votados e, para minha surpresa, entre eles constava um que não se enquadrava no perfil da pesquisa, já que havia sido publicado, naquele momento, há quase quarenta anos. Tratava-se do romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar.

Pois bem, ato falho ou não, a inclusão de um livro tão anterior ao período em que a pesquisa abrangia aparentemente só podia revelar uma coisa: a atualidade (ou atemporalidade) do estupendo romance do escritor filho de imigrantes libaneses.

Mas claro que não era só isso. Significava, também, que, de alguma maneira, aqueles que votaram no livro de 1975 não se sentiam muito confortáveis diante da produção literária brasileira mais recente. Como se não houvesse opções nos dias atuais.

Desse modo, menos que uma homenagem ao romance (que de fato também o era), o voto representava uma crítica a tudo que vem sendo escrito no Brasil após Lavoura arcaica.

Eu lembrei desse episódio agora por ocasião da entrega do Prêmio Camões a Raduan Nassar, em cerimônia na cidade de Lisboa no mês passado. O Prêmio Camões foi instituído em 1988, num esforço conjunto dos governos de Portugal e Brasil, sendo, portanto, o maior prêmio literário da língua portuguesa.

Pois bem, ato falho ou não, a inclusão de um livro tão anterior ao período em que a pesquisa abrangia aparentemente só podia revelar uma coisa: a atualidade (ou atemporalidade) do estupendo romance do escritor filho de imigrantes libaneses”

É conferido não a um livro específico (como, digamos, o Booker Prize ou o nosso Jabuti), mas ao conjunto da obra, à maneira do Nobel. Já foram agraciados com ele doze autores portugueses, doze brasileiros, dois angolanos, dois moçambicanos e um cabo-verdiano.

Raduan faz parte agora de um seleto grupo que inclui gente do calibre de Miguel Torga, João Cabral de Melo Neto, Pepetela, Jorge Amado e José Saramago.

Resta saber se ele se sente à vontade no meio de tanta celebridade. Como se sabe, Raduan parou de escrever há muito tempo e sempre foi avesso a entrevistas ou, mesmo, a aparecer em público.

Depois de Lavoura arcaica, como ele mesmo confessou, em zombeteira comparação à criação artística, foi criar galinhas em seu sítio no interior de São Paulo e, desde então, não escreveu mais nada.

A novela Um copo de cólera, publicada três anos depois, em 1978, foi composta muito antes do seu livro mais famoso; e a exígua coletânea de contos Menina a caminho, de 1994, é ainda mais antiga, do início da década de 60. Pode-se dizer, então, que a obra de Raduan Nassar começa e termina com Lavoura arcaica.

É inquestionável a grandeza desse pequeno livro, cuja luminosidade artística, poderosa e única – a um só tempo profana e bíblica –, desde cedo despertou o interesse e a admiração da crítica e, aos poucos, principalmente após sua adaptação para o cinema, em 2001, também do grande público (se é que se pode usar o adjetivo “grande” quando se trata do universo leitor brasileiro).

Enfim, a expressividade avassaladora de seu texto mantém-se ainda firme e absolutamente intransferível, ou alguém vai dizer que a acanhada masturbação de Selton Mello no início do filme de Luiz Fernando Carvalho pode se comparar, sequer minimamente, à força poética de “nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero”?

Mas não é sobre isso que se trata aqui, sobre a qualidade indiscutível da obra de Raduan. Um prêmio conferido a um escritor (ou ex-escritor?) que assumidamente deixou de escrever há quarenta anos e, pior, ao conjunto de sua obra, composta praticamente de um único livro, é algo, para dizer o mínimo, extraordinário.

Raduan faz parte agora de um seleto grupo que inclui gente do calibre de Miguel Torga, João Cabral de Melo Neto, Pepetela, Jorge Amado e José Saramago”

E antes que se pense que Raduan tenha ido até Lisboa por vaidade ou ganância (já que o prêmio vem acompanhado de um polpudo cheque em euros), é bom lembrar que i) Raduan sempre se lixou para a fama e ii) seu notório desapego o fez recentemente doar seu sítio, o mesmo pelo qual abandonou a literatura, à Universidade Federal de São Carlos e aos trabalhadores da região – e não seria nada  improvável que os 100 mil euros do prêmio tivessem agora destino semelhante.

Quanto às motivações que levaram à escolha de seu nome, certamente foram políticas. O último brasileiro a ter recebido o prêmio foi o historiador e diplomata Alberto da Costa e Silva, em 2014, e como, via de regra, sempre houve alternância entre portugueses e brasileiros, agora, sendo a vez do Brasil, era necessário encontrar um nome.

Mas quem? Ora, será que o Brasil não possui bons escritores em atividade e com obra qualificada? Pelo menos na opinião dos que organizam o prêmio, parece que não.

E mais uma vez, o que deveria ser a homenagem a uma grande obra, indiretamente se transforma em crítica à produção brasileira atual ou a sua escassez.

Isso me fez lembrar da história do hino do Botafogo. Como se sabe, a maior parte dos hinos dos clubes de futebol cariocas foi composta por Lamartine Babo. Quando foi a vez do Botafogo, o compositor, não se sabe se consciente ou inconscientemente, cometeu uma gafe logo nos primeiros versos: “Botafogo, Botafogo/Campeão de 1910”.

De fato o Botafogo tinha sido mesmo campeão naquele ano, mas só naquele ano, e um hino composto praticamente na década de 50 mais criticava do que homenageava a lembrança do longínquo título. Por isso ele teve de mudar os versos para “Botafogo, Botafogo/Campeão desde 1910”.

Voltando ao âmbito da literatura brasileira, parece que ela, pelo menos na visão de alguns, também continua emperrada há quarenta anos.

 

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