Qual o lugar do esporte no Brasil?

Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Em um texto de 1997 o professor Victor Andrade de Melo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, questionou por que devemos estudar história da educação física/esportes nos cursos de graduação[1]. Claro está que, retirando assim a educação física de um campo estritamente biológico, a pergunta promove uma reflexão sobre a necessidade de entendimento dos contextos sociais em que a área é produzida. Naquele artigo, Melo aponta que há mais de 20 anos, com raras exceções, a disciplina de história se ocupava de conteúdos chamados “clássicos” relacionados a nomes e fatos considerados relevantes, de períodos consagrados da História Geral (Grécia Antiga, Roma, Idade Média etc.), a partir de uma ausente, confusa ou não consciente compreensão historiográfica. A preocupação central do autor era sobre a subvalorização de uma disciplina fundamental para a compreensão daquilo que hoje é a educação física e o esporte no País. Duas décadas atrás, o autor concluía que o estudo da história poderia contribuir efetivamente por permitir interpretações dos processos e caminhos da EF/Esporte no decorrer do tempo, proporcionando assim um melhor entendimento das questões contemporâneas, quiçá contribuindo para projetar um cenário futuro.

É inegável que daquele momento para cá as disciplinas de História ou Dimensões Históricas da EF/Esporte ganharam espaço e importância nos cursos de graduação. Não há como avançar os estudos de uma área de conhecimento que se organiza não na fronteira entre os estudos biológicos e humanos, mas na intersecção deles. O entendimento da história permite compreender o momento pelo qual o esporte e a educação física brasileira passam.

Terminadas as eleições, alguns sinais começam a ser enviados sobre o futuro dos ministérios. Entre as muitas mudanças anunciadas está a extinção do Ministério do Esporte, criação do primeiro mandato do governo Lula.

Vamos então à História. O esporte no Brasil não é recente. Tampouco a educação física.

Fenômeno social influenciado pelas tradições europeias, o esporte chegou ao Brasil juntamente com imigrantes e se instalou nas principais cidades do País, tendo os clubes como a principal referência para seu desenvolvimento. Foi por um ato governamental que a educação física começou a ser lecionada nas escolas públicas e privadas, tendo como pano de fundo os movimentos higienistas e eugenistas daquele momento. Sim, os corpos precisavam ser cuidados e desenvolvidos para atenderem aos interesses de uma pátria que se propunha a estar mais identificada com a Europa do que com a África.

Embora componente escolar curricular, a educação física foi confundida com o esporte como um fenômeno único por quase um século. Na escola, ela já gozou de consideração e prestígio. Disciplina obrigatória, foi a porta de entrada de muitas crianças para o universo do movimento elaborado, fosse em forma de esporte, dança ou ginástica. Acompanhou proximamente os interesses do poder público sobre o controle dos corpos, até começar a perder espaço para disciplinas consideradas fundamentais para outras intenções, principalmente o vestibular. E assim, como peça decorativa do currículo do ensino básico, fundamental e médio, a EF deixou de ser obrigatória e, em muitos casos, passou a ser terceirizada. Aqueles que demonstravam alguma habilidade acima da média eram incentivados a buscar clubes para sonhar com a carreira de atleta. Os menos habilidosos, pouco incentivados a buscar a atividade física por lazer e prazer, precocemente se distanciaram daquilo que pode ser uma maneira saudável de lidar com a existência e passaram a engrossar as fileiras de sedentários e avessos às práticas de movimento.
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O que eu gostaria mesmo é de lembrar que a atual geração de atletas e profissionais do esporte nasceu e viveu até pouco tempo em berço esplendido. Essa geração não conheceu a penúria e a falta de apoio material que seus ancestrais experimentaram..

O resultado do Diagnóstico Nacional do Esporte apresenta dados que refletem o menosprezo pela educação física. 26,8 % abandonam a prática esportiva antes dos 15 anos, ou seja, no momento em que estaria ocorrendo a especialização para o esporte considerado de alto rendimento há uma quebra no processo, e as razões para isso são a necessidade de trabalhar, de estudar ou por problemas familiares. Esse número não seria assim tão preocupante se o abandono entre 16 e 24 anos não chegasse a 45%. Ou seja, a base da pirâmide está em ruínas. Quando nos referimos então ao sedentarismo, considerado a razão de danos irreparáveis à saúde de todo e qualquer cidadão, os números são ainda mais assustadores: 32,7% dos jovens entre 15 e 19 anos, 38,1% de 20 a 24 anos e 40,7% de 25 a 34 anos, ou seja, a população adulta jovem não foi educada a se exercitar.

Agora vamos pensar especificamente no esporte.

Ao longo de décadas o esporte de nível olímpico foi cuidado por entidades como a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Pelos relatos ouvidos de atletas olímpicos de diferentes gerações é possível observar a precariedade com que o esporte conviveu ao longo dos tempos do amadorismo até o princípio dos anos 2000. A maioria deles tinha sua carreira mantida por conta e risco pessoal, sem contar os tempos em que os próprios atletas custeavam equipamentos e viagens para realizar o sonho de ser olímpico. Muitos desses atletas subiram ao pódio, ostentaram a bandeira nacional e fizeram o mundo ouvir o hino brasileiro sabendo exatamente o quanto isso custou para si e para os próximos que facilitaram a realização dessa aventura.

Há exatamente 50 anos, havia dinheiro para apenas uma dezena de atletas chegar aos Jogos Olímpicos do México, até que as autoridades perceberam que a visibilidade do esporte era importante para superar aqueles árduos tempos. E então a delegação foi ampliada para 81 atletas, que trouxeram três medalhas: a prata de Nelson Prudêncio no salto triplo, e as de bronze de Servílio de Oliveira no boxe e do iatismo com Reinaldo Conrad e Burkhard Cordes. Mas as coisas não foram assim tão simples. Sem dinheiro e sem planejamento, fizeram uma viagem em avião da FAB, com autonomia de voo reduzida, o que obrigava a várias escalas e riscos como o consumo de água e comida impróprias. A delegação brasileira também foi a última a sair da vila olímpica porque o avião que a levaria de volta tardou a chegar. Entre outras tantas paradas, grande parte da delegação resolveu desembarcar ainda em Belo Horizonte para finalizar aquela façanha por terra.
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O esporte brasileiro depende quase integralmente de dinheiro público desde sempre. A falta de uma política de Estado ao longo das décadas leva à situação vivida no presente: os governos fazem do esporte e da vida dos atletas o que eles bem entendem.

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Essas memórias são registros de um tempo em que o esporte não tinha uma pasta própria, pois fazia parte do Ministério da Educação. De lá para cá ele ganhou espaço como secretaria especial até ter um espaço único na esplanada dos ministérios. Mais que ganhar um ministério, o esporte também experimentou o gosto de sair da condição de espetáculo e passar a ser pauta política, como as Conferências Nacionais, realizadas para ouvir gestores e a população sobre que caminhos tomar no futuro. Não vou aqui nem mencionar a década dos grandes eventos, celebrada por muitos como o momento de maior visibilidade do esporte nacional e também da queda em desgraça daqueles que não o trataram com o devido cuidado e respeito.

O que eu gostaria mesmo é de lembrar que a atual geração de atletas e profissionais do esporte nasceu e viveu até pouco tempo em berço esplendido. Essa geração não conheceu a penúria e a falta de apoio material que seus ancestrais experimentaram. Nem consegue imaginar o que significa para o esporte voltar a habitar uma salinha perdida dentro do Ministério da educação. Isso sim pode ser uma derrota em fim de um campeonato.

É muito comum no meio esportivo a afirmação de que política e esporte não se misturam. Pois bem, aqui está mais uma prova irrefutável de que se misturam sim e o desprezo a essa condição pode trazer consequências nefastas. O esporte brasileiro depende quase integralmente de dinheiro público desde sempre. A falta de uma política de Estado ao longo das décadas leva à situação vivida no presente: os governos fazem do esporte e da vida dos atletas o que eles bem entendem. Se isso no passado gerava lamento, no presente essa postura gera prejuízos e perdas irreparáveis, uma vez que, no processo de profissionalização vivido nas duas últimas décadas, esse fenômeno deixou de ser “coisa de amador” para ser um negócio, como o são todas as outras atividades produtivas de uma sociedade saudável.

Essa é a razão de se estudar história na graduação em Educação Física e Esporte: para aprendermos com o passado e não deixá-lo ser apenas um vestígio de memória.

[1] Melo, V. A. “Por que devemos estudar história da educação física/esportes nos cursos de graduação?” MOTRIZ. Volume 3, Número 1, Junho/1997.

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