Produtividade e mudanças tecnológicas – uma discussão evolucionista

Alvair Silveira Torres Junior é professor da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Atuariais (FEA-USP)

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Alvair Silveira Torres Junior – Foto: Arquivo pessoal

Em recente painel que discutia a inovação nas empresas, um dos palestrantes mencionou o darwinismo como um dos princípios do liberalismo e, portanto, concluía, não seria adequado o sentimento de compaixão para com aqueles à margem da Revolução Digital, uma vez, dizia ele, ser o mérito conceito central no sistema de competição, premiando os mais capacitados e adaptados.

O argumento traz algumas dificuldades não só para a questão social de impacto das tecnologias, mas também para a nossa tão conhecida dificuldade em abraçar a busca por produtividade e aumentar a produção de riqueza. Em primeiro lugar, o empréstimo epistemológico do darwinismo em problemas de natureza social é no mínimo polêmico. Darwin se ocupou da seleção natural do mais adaptado ao ambiente contingente, como parte da Teoria da Evolução, tratando-a no contexto de natureza biológica, embora tenha feito algumas referências ao paralelo com mudanças de linguagem, sem aprofundar-se sobre a diversidade cultural. Levar integralmente os mecanismos da evolução darwiniana à compreensão dos fenômenos sociais e econômicos deve revestir-se do necessário ceticismo científico quanto à precisão. Trata-se de mecanismos de evolução específicos, gestados em premissas de outra natureza, que projetados sem o devido cuidado para outro locus, podem acarretar equívocos de reducionismo extremado.

Mesmo aqueles que se debruçam cientificamente sobre o problema de projeção do modelo darwiniano sobre a cultura, reconhecem que parte dos mecanismos evolutivos biológicos não se aplicam à evolução cultural. Isso não implica que a cultura não evolua, mas que os mecanismos de evolução cultural sejam em parte distintos e em parte comparáveis ao da evolução dos seres vivos. A Filogenia e Ontogenia de ambas naturezas não apresentam processos unificados e as evidências apontam para uma plasticidade cultural nem sempre adaptativa, com alguns comportamentos perdurando entre gerações mesmo não configurando vantagem.

A confusão talvez se preste à não diferenciação entre os conceitos de evolução e o mecanismo revelado por Darwin.  A evolução é um conceito mais amplo, que abrange perspectivas de mudanças históricas, ao longo do tempo, sobre os mais diferentes objetos da ciência: da biologia à inovação tecnológica, passando pela economia e gestão das organizações. O darwinismo, porém, é como essa evolução opera no âmbito dos fenômenos biológicos de especiação, através da variação, diferenciação e adaptação dos seres vivos.  Na evolução natural, os organismos são selecionados a partir do acaso e da variação, expressos na deriva genética, elemento muito próprio da biologia e explicado pela diversidade genética introduzida pelos estudos do monge austríaco Gregor Mendel. Os estudos de Mendel foram resgatados e sintetizados com a descoberta de Darwin na chamada síntese moderna da evolução, ocorrida no entre guerras do século passado.

Na sociedade, a cultura e a busca por um viver mais civilizado impõem outras variáveis que engendram uma evolução, mas não necessariamente darwiniana, onde o mérito pode ser visto de uma perspectiva multifacetada, produto de toda uma sociedade e não só do indivíduo. Afinal nascer pobre e não ter oportunidades não é questão de meritocracia.

Na gestão das organizações o conceito evolucionista também é empregado, mas não pressupõe que seja necessariamente darwiniano, embora alguns o façam. Nelson e Winter, na década de 80, já empregavam o conceito evolucionista para explicar a evolução tecnológica como parte da Teoria da Firma. Fizeram-no com a consciência da complexidade dos problemas humanos, entrelaçando processos aleatórios e deliberados. Os autores assumem que, na evolução das organizações e instituições, operam tanto características herdadas culturalmente, quanto o aparecimento oportuno de variar o comportamento sob estímulos do ambiente ou de aprendizado.   Um dos achados é que na difusão tecnológica nem sempre o padrão individualmente eficiente é o mais adotado.

O darwinismo é como a evolução opera no âmbito dos fenômenos biológicos de especiação, através da variação, diferenciação e adaptação dos seres vivos

A inovação é produto de um processo evolucionário com interação complexa entre organizações e ambiente com efeitos mútuos, não apenas adaptativo ou deliberado. É o fenômeno da emergência que também tem influenciado a biologia com correntes neodarwinianas, propondo novas discussões e acréscimos à seleção natural na visão denominada síntese evolutiva estendida, a qual confirma a descoberta de Darwin, mas admite que os organismos moldam o ambiente e sejam moldados por ele. Os organismos mudam o ambiente através de seu comportamento, mudando a pressão seletiva que age sobre eles próprios e outras espécies.  Por exemplo, o fenômeno da  permanência do gene LTC ativo em adultos, envolvido na digestão da lactose,  tem sua origem e prevalência em  descendentes de populações de atividade pastoril.  O homem alterou culturalmente seu ambiente e houve efeito na dimensão biológica.

Trata-se, portanto, de trazer para o campo de gestão da inovação a evidência do mundo real sobre o homem poder agir sobre a Sociedade e desta interação advirem inovações que colaborem para seu progresso inclusivo. Assim, é preciso uma seleção que abarque aspectos civilizatórios, que atenda à preservação da espécie, neste sentido deliberado, porque se deixarmos somente ao acaso, o darwinismo biológico poderá operar do lado de nossa extinção. Uma gestão com princípios civilizatórios aumentaria nossas chances de afastamento das tecnologias deletérias do meio ambiente, ou, do aumento das hordas de miseráveis, humanamente intolerável e de reações imprevisíveis.

A produtividade como conceito econômico e de gestão vista na perspectiva de um contexto sistêmico de inovação da cultura material e simbólica, evolutiva sim, mas não radicalmente darwiniana, pode-nos auxiliar em políticas civilizatórias

Produto da inteligência humana, da explosão de criatividade, da crescente representação simbólica e abstrata que confere vantagem adaptativa à nossa espécie, produtividade basicamente é a relação entre saídas e entradas de um dado sistema (output/input). Na economia de uma empresa ou de um país, cada um visto como um sistema, se ocorrer no caso específico geração de mais saídas (output), lucro ou PIB, conservando-se as mesmas entradas de recursos: pessoas, máquinas, dinheiro, enfim um fator determinado ou combinado (inputs), haverá aumento da produtividade e portanto da riqueza a ser distribuída. Contudo, como todo conceito, se não entendermos o contexto da aplicação, com a produtividade também podem ocorrer visões parciais como aquelas que levam ao darwinismo social.

Mesmo no exemplo da empresa, se o aplicativo digital ou robô não for combinado com manutenção ou aumento das vendas, a produtividade global da organização não aumentará

A produtividade pode ser classificada e medida em diferentes aspectos, sobre dado fator de produção, com a combinação de vários fatores, e de forma parcial ou global, dentre outras fórmulas mais simples ou complexas. Aqui reside nossa contribuição ao debate de quem considera urgente a busca pelo aumento de produtividade no Brasil e no mundo, mas reconhece o contexto de extrema dificuldade e desigualdade de camadas da população e que, não consideradas, podem conduzir-nos à adoção de políticas que flertem com o equívoco do darwinismo social.

Consideremos um caso hipotético, mas representativo da evolução tecnológica: a introdução de um aplicativo digital que economize mão de obra ou de um robô que substitua o homem no trabalho. Para simplificar, se calcularmos a produtividade local do fator trabalho nesta organização, teríamos basicamente as saídas constantes ou aumentadas propiciadas pela tecnologia, dividida por menos mão de obra, resultando em maior produtividade do trabalho. Porém, se este fenômeno se dissemina em toda economia e não há realocação produtiva da mão de obra, a divisão agora global de todo produto gerado (PIB) pela quantidade de mão de obra disponível, porém não totalmente empregada ou empregada precariamente, globalmente poderá acarretar em queda de produtividade ou aumento insuficiente para gerar riqueza. Os economistas se apressarão em lembrar, acertadamente, que na medida do tempo, da evolução, se alcançará o equilíbrio, com os agentes se moldando à nova realidade e estabelecendo novos matchings. Qual realidade?  A evolução não é projetiva, como nos adverte Monod, e caberia à gestão nos diversos níveis, preparar organizações e sociedade para que esta realidade seja a mais civilizatória possível, com oportunidades e processos inclusivos. Foi o que aconteceu no passado em vários países, de forma mais ou menos conturbada, a partir de disputas políticas e sociais com o crescimento da democracia.

No Brasil, o tratamento da escravidão é um dos exemplos históricos e mais doloridos da falta de políticas de gestão ou equilíbrio social. Conquistada a duras penas pelo povo negro, sua libertação foi uma das últimas no processo evolutivo de extinção do modelo econômico de exploração escravocrata na humanidade, porém deixou toda uma população à sua própria sorte, num decreto minimalista, com todas as conseqüências que ainda afetam boa parte de nossa população afrodescendente e nossa economia.

Mesmo no exemplo da empresa, se o aplicativo digital ou robô não for combinado com manutenção ou aumento das vendas, a produtividade global da organização não aumentará. De nada adianta um robô produzindo para estoque ou um aplicativo esquecido no celular. A tirania do silo deve dar lugar à visão global.

Há algum tempo, desde a década de 90, o autor realiza pesquisas sobre aplicações do lean management em empresas, registrando ganhos de produtividade acompanhados do desenvolvimento das pessoas. O caso mais notório, por ser origem desse modelo de gestão, é do toyotismo. A empresa japonesa tem uma história de evolução natural da sua trajetória de aumento da produtividade, com inovações sendo criadas de forma evolutiva, porém seguindo princípios de gestão deliberados, específicos, considerados  por alguns como contraintuitivos, tais como lotes menores na produção e geração de vários experimentos no desenvolvimento de produtos. Ao lado destas inovações há uma forte presença do desenvolvimento das pessoas também como princípio de gestão, constatado em práticas de mobilidade interna, senioridade, automação gradual e amigável.  Produtividade, portanto, é um conceito cuja aplicação local traz benefícios locais imediatos, porém a médio e longo prazo uma Cultura e Programa de Gestão de Produtividade Global é necessária, abarcando diversas frentes: tecnológicas, sociais, educacionais, políticas de gestão. Educação crítica, ampla, questionadora, focada em empreendedorismo, na resolução de problemas de forma ativa, viabilizando a discussão e aplicação  do conceito de produtividade em todas as esferas. Organizações, empresas e sindicatos, negociando e  preparando a mobilidade funcional dos empregados. Governo investindo em educação pública empreendedora e na formação de uma arquitetura de escolha que estimulem os agentes na adoção de trajetórias de desenvolvimento com base na produtividade global no lugar das pressões setoriais.  Um processo civilizatório evolutivo com gestão adequada a ser pensado e construído, porque somos fruto do darwinismo, dotados de inteligência para criar nosso futuro. Para todos.

 

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