Possibilidades de criação nos tempos de destruição

Por Maria Lúcia de Souza Barros Pupo, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

 Publicado: 22/11/2021
Maria Lúcia de Souza Barros Pupo – Foto: Arquivo pessoal

 

 

Um aniversário especial será comemorado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP entre 29 de novembro e 3 de dezembro deste ano. Estamos nos referindo à 20ª edição da Mostra da Licenciatura em Artes Cênicas que reúne a cada final de ano letivo os trabalhos de conclusão de curso dos formandos, agora jovens docentes nas artes da cena.

Instituída na ECA-USP desde a década de 1970, a licenciatura em Artes Cênicas visa formar docentes que atuarão com teatro, performance, dança tanto no Ensino Fundamental quanto em modalidades de ação cultural e artística no âmbito de ONGs, associações, projetos e centros culturais, na ótica da chamada educação não formal.

Iniciativa assumida por estudantes que pretendiam ampliar o diálogo com a população em torno de suas práticas, a Mostra passou por diferentes formatos ao longo dessas duas décadas, mas vem mantendo as vertentes que fazem dela um acontecimento significativo para os estudantes, suas famílias e amigos, docentes e funcionários do Departamento de Artes Cênicas. O trabalho de conclusão de curso nesse campo se traduz em uma monografia resultante da intervenção do estudante junto a grupos de crianças, jovens ou adultos que vivem processos de aprendizagem nas artes da cena, o que inclui a apreciação dessas artes. Por ocasião da Mostra essa monografia é analisada por um ou mais convidados e debatida em sessão pública; na mesma ocasião as pessoas a quem essa intervenção foi dirigida apresentam a esse mesmo público algum aspecto ou passagem da experiência coordenada pelo discente.

A qualidade dos debates que a Mostra veio instaurando com os interessados se funde à alegria da conclusão da trajetória de cada turma de alunos, gerando uma comemoração de formatura marcada por múltiplos encontros.

Instaurada como ocasião para que os jovens formandos abram um bate-papo com a população mais ampla acerca da função social de práticas cênicas passíveis de serem desenvolvidas por toda e qualquer pessoa independentemente da noção de talento, a Mostra visa em alguma medida apresentar à sociedade os resultados da formação para a qual ela contribuiu. Assim, assumem o primeiro plano a valorização do trabalho coletivo, a capacidade de agir “como se” que nos permite estar simbolicamente no lugar do outro, assim como experiências que aprofundam a percepção sensível. A formulação de metáforas que passam pelo corpo – conhecidas de todos nós desde o faz-de-conta infantil- torna-se o eixo dos processos desenvolvidos pelos estudantes.

Do ponto de vista desses últimos, a monografia de conclusão de curso resulta de um projeto de pesquisa formulado a partir de uma interrogação pessoal no campo das Artes da Cena. Durante o último ano do curso essa pesquisa vai sendo acompanhada pelo docente e pela própria turma, que a discutem coletivamente. Na perspectiva dos alunos desses formandos é notável a satisfação de partilhar com uma plateia na própria USP uma parte das vivências por eles exploradas. “Ao voltar para casa vou dizer à minha mãe: hoje eu entrei na USP !!!” foi o comentário divertido de um jovem no Teatro-Laboratório da ECA que marcou a todos os que o escutaram. Ano após ano, outras falas ditas em meio a largos sorrisos ainda ressoam entre nós: “a gente aprende a respeitar o jeito do outro, a gostar de conversar”, “com o teatro a gente fica mais crítico” ou “o grupo é a melhor coisa da minha vida”. O desenvolvimento da capacidade de jogar teatralmente contribui para que essas crianças e jovens cresçam em termos da comunicação teatral dando forma à sua visão de mundo e assim, simbolicamente, exerçam uma ação sobre ele.

Como sabemos essas duas últimas décadas testemunharam aceleradas mutações no âmbito das artes da cena nos países do Ocidente, o que transparece também nos processos artísticos coordenados pelos estudantes. Se nos primeiros anos da Mostra havia tendência à apresentação de espetáculos curtos, hoje as variantes em torno de improvisações, performances, vídeos, instalações ganham o primeiro plano, reiterando a fragilização das fronteiras entre o teatro, a dança, o cinema, as artes visuais. O percurso histórico da Mostra é revelador do quanto a cena vem se reinventando para tentar dar conta das incertezas e instabilidades de sociedades em intensa transformação.

Temos observado que as aprendizagens proporcionadas pelos recém docentes vêm sendo cada vez mais calcadas no aguçamento de percepções sensíveis nas quais o encontro, a suspensão do isolamento e a constatação do embrutecimento engendrado pelos ásperos desafios do cotidiano ganham proeminência. Ano após ano temos acompanhado a proposta de relações que intencionalmente embaralham as funções dos atuantes e dos espectadores.

“Possibilidades de criação nos tempos de destruição”, título da Mostra que chega agora à sua vigésima edição remete diretamente à partilha da indignação que nos atravessa no momento brasileiro atual. Realizada de modo virtual – assim como temos feito nos dois últimos anos – ela se propõe a refletir sobre a força de transgressão contida na experiência cênica e nos desafios vinculados ao atuar junto que a caracteriza. Se por um lado continuamos nos ressentindo da lacuna das presenças, temos agora a oportunidade de acolher através da tela todas as pessoas interessadas, para além de limites territoriais.

Vida longa à Mostra de Licenciatura em Artes Cênicas da ECA! Que ela permaneça reinventando elos entre a cena, a educação e a esfera social, de modo a fortalecer práticas artísticas plenas em contextos diversificados e a responder aos amplos desafios suscitados pela relação entre a USP e a sociedade.


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