Oswaldo Porchat, a dor deixada pelo mestre

Olgária Matos é professora titular do Departamento de Filosofia da USP

Por - Editorias: Artigos
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Olgária Matos – Foto: Francisco Emolo / Arquivo Jornal da USP

 

O professor Oswaldo Porchat foi um Mestre. Mestre é aquele de quem não se esquece o nome, que deixa em nós uma marca que, antes de ser intelectual, é afetiva e espiritual, por ser a assinatura de conhecimentos que vêm da presença, do fascínio, da voz. Com a voz doce e afetuosa do professor Porchat, o Departamento de Filosofia aprendia Aristóteles e o prazer de aprender.

Foi assim que, professor do curso secundário antes de o ser na Universidade de São Paulo, enlevava seus alunos, instruindo-os na língua e na literatura de Horácio e Sêneca, ao fazê-los encenar as tragédias em latim e conversando com eles na língua antiga porque não a tratava como uma língua morta.

Em meio às sucessivas reformas da Escola, que a degradaram progressivamente abolindo as línguas clássicas e sua potência de formação da inteligência e do pensamento, Porchat reencantava a filosofia com suas aulas, em que o grego ático se fazia contemporâneo de nosso presente. Para Porchat, o grego e o latim eram idiomas vivos porque vivendo nas línguas faladas hoje.

Em suas aulas, Porchat dava a prova cabal da importância dos textos clássicos, dos que se tornam clássicos porque inexauríveis, fazendo-nos voltar a seus arcanos, lembrando-nos de todos os séculos que têm sido necessários para interpretar a serenidade de Sócrates no momento de sua morte, os êxtases de Plotino, as noites atormentadas das meditações metafísicas de Descartes.

Como mestre, distribuía generosamente seu amor pela filosofia antiga, em cujo prolongamento incluiu, mais tarde, a lógica formal e a filosofia da ciência, um intervalo “cético” com respeito ao destino da história da filosofia e do departamento, que se viu privado de seus professores pelas cassações da ditadura nos anos 1969-1970.

Nesses anos, como chefe do departamento, em que professores, estudantes e funcionários eram perseguidos, cassados ou no exílio, Porchat resistia. Depois de incendiado o prédio da Rua Maria Antonia e de sua ocupação pelas forças do Exército, o curso de Filosofia se transferiu para os “Barracões”, acolhido pelo Curso de Psicologia que nos recebeu. Quando o mundo parecia um deserto, Porchat, como um neogrego, transcendia esse tempo sombrio, procurando imprimir no departamento uma rotina tranquilizadora.

Época em que os poucos professores a que se reduziu o Departamento estavam, como também os estudantes, presentes todos os dias para prevenir intervenção militar, Porchat oficializava reuniões mediante convite formal; envelopes timbrados, ele os colocava pessoalmente nas mesas de trabalho de seus colegas e amigos. Quando lhe perguntaram por que ele não comunicava oralmente o dia e hora da reunião, já que nos cruzávamos o tempo todo nos corredores e passarelas, Porchat respondia que ele enviava a carta também para ele, convocando-se a si mesmo! Porchat compreendeu a “verdade enfática do gesto nas grandes circunstâncias da vida.”

Nos cursos sobre Aristóteles ou sobre o ceticismo, dando alma às obras que interpretava, com o seu amor pelo detalhe, sua atenção ao ritmo dos argumentos, a sua “pontuação”, suas aulas eram a iniciação de um discurso amoroso. Nesse encontro do mestre com o livro, Porchat produzia um enamoramento que ampliava a experiência do mundo. Porque a filosofia era para ele um fim em si mesma e não um meio para outros fins, não se sentia motivado por nenhuma ambição institucional, vindo a publicar tardiamente, e por insistência de editores e colegas, sua tese de doutoramento, uma das obras mais essenciais  sobre o pensamento de Aristóteles.

A tristeza da ausência e o vazio dessa perda fazem mais pungentes seus ensinamentos. O professor Porchat, professor, colega e amigo, nos mostrou que a filosofia não constitui um mundo ideal, mas produz sim um mundo capaz de se idealizar.

 

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