Os camaradas Schnaiderman e Marighella

Por Gutemberg Medeiros, jornalista e pós-graduando na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

 06/12/2021 - Publicado há 2 meses
Gutemberg Medeiros – Foto: Atílio Avancini

 

 

A invasão criminosa dos tanques soviéticos sobre Budapeste a estrangular a experimentação socialista causou sérias baixas nos partidos comunistas pelo mundo, e não foi diferente no Brasil. Boris Schnaiderman, fundador do curso de Russo da USP, me narrou em entrevista vários aspectos desse impacto. Entre eles, defendeu ser erro histórico em vários estudos apontando a grande evasão de militantes no cisma de 1961, quando se criou o PCdoB. Além da ação imperialista inadmissível dos russos, estava a pleno vapor a desestalinização geral e a veiculação do holocausto promovido por décadas sob a gestão do czar do século XX.

Boris e a então esposa Regina entraram no PCB em 1951 e tinham várias atividades como militantes e também deram baixa no desembarque de 1956. Entre as suas atividades, Boris respondia por um curso de Marxismo-Leninismo para formação de quadros voltados a imigrantes europeus em São Paulo. Avisou que deixaria o curso apenas quando o PCB indicasse o substituto, para não deixar os camaradas sem aula. Recebeu dia e horário em que o militante compareceria e Boris poderia passar o bastão.

Para a sua extrema surpresa, o substituo foi Carlos Marighella, uma das lideranças mais destacadas do partido. Como era de seu feitio, Boris apenas comunicou aos alunos estar deixando o curso e que o camarada iria substituí-lo. Sem entrar em detalhes, como a sua saída do partido. Como eram imigrantes, narrou breve biografia do novo professor e passou-lhe a palavra.

Boris ficou ainda mais surpreso naquela noite. Marighella disse ser o camarada Schnaiderman econômico em sua fala, e narrou a sua saída do Partidão. Defendeu a sua posição e de tantos outros camaradas, chamando-os de corajosos e coerentes em relação ao marxismo. Tal saída era para não serem cúmplices de crime inadmissível. Marighella também garantiu a sua futura saída do PCB, mas não naquele momento. Justificou ainda ter missões a cumprir – o que de fato aconteceu posteriormente.

A lembrança desse depoimento me vem à mente quando da estreia do filme de Wagner Moura e a “polêmica” irrelevante em torno da escolha do ator negro Seu Jorge como protagonista.

Quando Boris me depôs este único encontro com aquele que tanto admirava, perguntei-lhe se a questão do racismo estrutural no Brasil era abordada de alguma maneira no PCB. Ele mesmo, anos depois, se impressionou com o fato de nunca estar no horizonte provável essa chaga na cultura brasileira. Para o Partidão só existia a pirâmide marxista com super e infraestrutura. E justamente com tantos afrodescendentes, a exemplo de Marighella.

Boris foi além em sua lembrança: o racismo não era questão discutida nos anos de 1950 e muito depois nos mais variados extratos da sociedade, sendo ele mesmo completamente alienado em relação a essa questão. Só tomou consciência disso quando começou a lecionar na USP, em 1961, quando a sua turma de amigos na Rua Maria Antonia era formada por Antonio Candido de Mello e Souza, Décio de Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes, Sergio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e Ruy Coelho.

Pouco depois de entabular amizade com Florestan, este entrou no problema do racismo. Logo que Boris manifestou sua surpreendente ignorância, recebeu descompostura do colega – do absurdo de um professor da USP, independente do campo de conhecimento, desconhecer semelhante tema central. E logo passou-lhe seus estudos e de outros autores.

Outra tomada de consciência foi em relação ao cinema brasileiro. Até os anos de 1960, o cinéfilo Boris não lembrava de ter assistido produção nacional por duvidar que poderia ser feito algo de qualidade. Só entrava nas salas de cinema para ver produções russas e europeias, fora algumas exceções raras norte-americanas. Certo dia, encontrou-se com Paulo Emilio Salles Gomes na calçada em frente ao prédio principal da USP na Maria Antonia e revelou a sua discriminação. Gomes logo revelou uma das suas faces como defensor “sanguíneo”, intenso, de seus pontos de vista. Aos berros chamou Boris de ignorante e falou da importância extrema do cinema brasileiro, de Mário Peixoto até as chanchadas da Atlântida, com Oscarito e Grande Otelo. O esbregue não foi curto, e alunos e outros passantes olharam e alguns até pararam para admirá-lo. A partir de então, Boris passou a assistir filmes brasileiros.

Boris se foi com muitas certezas. Entre elas, a de ser um “comunista solitário” ao acreditar que o marxismo era o melhor na esfera teórica. Contudo, todas as tentativas em implementá-lo fracassaram e assim continuaria. Também se foi convicto da importância em combater toda e qualquer discriminação às minorias. Conhecendo a sua coerência, imagino o quanto acreditaria irrelevante a “polêmica” da escolha de Seu Jorge para interpretar Marighella. Afinal, ambos são afrodescendentes. E, quem sabe, apontaria um certo efeito de “estranhamento” positivo junto aos espectadores sobre o racismo, lembrando o conceito clássico do formalista russo Viktor Chklóvski.


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