O teatro do agora: como a pandemia de covid-19 transformou a performance teatral

Por Danusa de Oliveira Jeremin, doutoranda da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 Publicado: 13/09/2021
Danusa de Oliveira Jeremin – Foto: Arquivo pessoal

 

 

O que faz do teatro, teatro? Seria esse novo modelo de espetáculos filmados uma possível forma de subsistência para atrizes e atores do teatro? No contexto atual, vivido pela pandemia de covid-19 e, consequentemente, suas implicações econômicas, a sobrevivência de grupos artísticos, principalmente dos grupos independentes, é ainda mais ameaçada.

Como pensar a atividade de grupos teatrais em um cenário no qual as manifestações culturais que necessitam ser apresentadas ao vivo estão, possivelmente, entre as últimas atividades que poderão voltar a ser realizadas, como eram antes da pandemia, já que necessariamente implicam ambientes com aglomerações?

Na Inglaterra, logo no início da pandemia, uma das três maiores companhias de teatro inglesas, o National Theatre, transmitiu, durante três meses via YouTube, antigos espetáculos de seu acervo e criou o projeto National Theatre at home, com acesso liberado para o mundo todo, juntamente com uma campanha de doação de dinheiro para a instituição. Antes de começar o espetáculo e durante a intermissão, apareciam na tela informações sobre os canais de doação. As peças ficavam em cartaz por uma semana. O National é uma companhia que tem por tradição filmar seus espetáculos para transmitir nos cinemas das cidades do Reino Unido e também vender em formato Blu-ray ou DVD em sua loja on-line e em seu teatro. Então já havia um grande repertório de peças filmadas. De acordo com o sítio eletrônico da companhia, a iniciativa teve um grande número de visualizações nacionais e internacionais, foram apresentados 16 espetáculos com um total de 15 milhões de visualizações, acessados por 173 países. Em dezembro, lançaram uma plataforma própria de streaming, dessa vez paga, com alguns de seus espetáculos. E, em maio de 2021, fizeram o primeiro espetáculo/filme, gravado dentro de um teatro, mas com uma estética mais cinematográfica. Seria essa a criação de uma nova estética teatral?

No Brasil, o Sesc (Serviço Social do Comércio) criou a programação #EmCasaComSesc, na qual incluía “Teatro em Casa”. Diferentemente da experiência inglesa, os atores apresentavam espetáculos adaptados ao estilo live – uma câmera fixa, transmitindo ao vivo via YouTube, dentro do canal de alguma unidade do Sesc. Devido à característica da filmagem, os espetáculos eram sempre monólogos, filmados geralmente em um único plano, na casa dos atores. No início da pandemia, acontecia geralmente um espetáculo por semana, sempre ao vivo.

Mas, a pergunta que sobressai, deixa de ser teatro, a partir do momento que é filmado? O ator Celso Fratescchi, em entrevista ao Jornal da Tarde do canal Cultura, no dia 15 de maio de 2020, diz que não é teatro, mas também não deixa de ser teatro. Se o teatro pressupõe a presença e o encontro, como pensar esse novo formato enquanto teatro?

Os telespectadores, ou melhor, as visualizações, os comentários nos bate-papos on-line, as pessoas que curtem com a chuva de coraçõezinhos e likes, não representariam uma plateia? A atriz Georgette Fadel, na mesma entrevista do dia 15 de maio, concedida ao Jornal da Tarde, disse que essa é uma comunicação desesperada. Uma forma possível de matar a saudade do encontro, dos textos e das experiências. A ideia do Sesc é que o ator possa ter sua atividade mantida, na nossa leitura, alguma forma de subsistência e visibilidade para seu trabalho, com acesso totalmente gratuito para a plateia.

Mas como pensar coletivos que não estão no mainstream, ou que não estão no radar do Sesc? Alguns atores de coletivos artísticos têm também utilizado esses meios virtuais como Instagram e canais no YouTube para apresentar seus espetáculos. Outros atores têm focado em ministrar cursos on-line sobre teatro. A palavra da vez para essa classe artística tem sido versatilidade, foram compelidos a criar outras formas de sustento. E isso deixa de ser teatro?

Para Diane Taylor, teórica dos estudos da performance, a performance poderia ser lida, simultaneamente, enquanto “real” e construída – em seu viés ontológico no “comportamento reiterado” –, mas também por ser uma prática incorporada nos discursos culturais, como epistemológica. Nesse sentido, a performance ocasiona “um processo, uma práxis, uma episteme, um modo de transmissão, uma realização e um meio de intervir no mundo”.

Esse teatro feito para os tempos de distanciamento pode ser encarado como um teatro do agora, não faria sentido questionar o estilo e tipo da performance, comparando com os espetáculos apresentados em um teatro pré-realidade pandêmica de covid-19. Essa é a maneira possível no momento, é o que oferece uma certa visibilidade e um possível retorno financeiro, gerando abertura até mesmo para criar parcerias futuras, e o trabalho também fica acessível a uma gama muito maior de pessoas de diversas realidades. A ideia não é enaltecer esses meios, até porque a pesquisa sobre como o retorno financeiro está realmente chegando a esses atores ainda está sendo desenvolvida, em minha tese de doutorado.

Mas o que é possível concluir, no momento presente, é que isso seria, sim, um tipo de teatro, se partimos do pressuposto que a performance pode acontecer de diversas maneiras e formatos. O que também não quer dizer que esse é o futuro do teatro, esse é o teatro possível no momento atual, um teatro que apela pela possibilidade de comunicação em um momento de distanciamento.


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