O singular pintor suíço Paul Klee vive a música

Carmen S. G. Aranha é livre-docente em Teoria e Crítica de Arte pela USP;
Alecsandra M. Oliveira é doutora em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da USP

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=226361
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Carmem Aranha – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Alecsandra M. de Oliveira – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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A arte não reproduz o visível, ela torna visível

Paul Klee

 

Paul Klee: Equilíbrio Instável, exposição recentemente inaugurada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), é considerada a maior retrospectiva do artista na América Latina. São aproximadamente 100 obras, selecionadas pela curadora Fabienne Eggehöfer (pesquisadora do Zentrum Paul Klee, de Berna, na Suíça). Esse conjunto de obras conta sobre um dos percursos estéticos mais vigorosos das vanguardas europeias, que transita entre influências cubistas, expressionistas, construtivistas e surrealistas. Poucos críticos, porém, retêm atenções, nessa trajetória, sobre o esforço do artista por unir duas linguagens artísticas distintas: pintura e música.

Das aproximações entre artes visuais e música, os pintores modernos foram os que mais ousaram em integrar essas linguagens. Para além da eleição da música como motivo de suas telas, esses pintores desejaram a transposição dos conceitos. Segundo Kandisnky (apud CHIPP, 1999): “(…) o parentesco entre a pintura e a música é evidente (…) um som (…) provoca uma associação de cor precisa (…) ‘ouvimos’ a cor e ‘vemos’ o som”.

Delaunay, Kandinsky, Matisse, Mondrian e Ruskin foram alguns dos pintores que se debruçaram sobre as interações entre forma e música. Entre esses teóricos advindos das vanguardas, Paul Klee, desde jovem, acreditou na existência de uma relação efetiva entre música e pintura. O artista dedicou grande parte de sua vida e obra na busca por paralelos entre as duas linguagens. Para ele, o aprimoramento da linguagem visual passava pelas questões que envolviam a representação do movimento e da profundidade e, nesse quesito, os atributos musicais tinham muito a oferecer. São extensas suas pesquisas no âmbito da pintura e desenho, a partir dos valores do compasso, dos tempos musicais e suas divisões – sobre essas conexões sustenta-se todo o seu pensamento criativo.

O artista nasceu em 1879, em Berna, e morreu em Muralto, Locarno, em 1940. Durante sua vida, Klee dedicou-se a uma reflexão ímpar na arte moderna ao situar todos os elementos formais, as técnicas, os materiais e os suportes num sistema de correlações que nos faz olhar para outros horizontes perceptivos, além daquele espaço segregado pela obra em si.

Fuga em vermelho, 1921 – Foto: Divulgação/Fondation Beyeler

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Paul Klee teve uma densa formação musical. Seu aprendizado do desenho era acompanhado por representações da escritura musical. Por exemplo, aprendia a forma geométrica por intermédio da música de Beethoven. Aos 11 anos, era, muitas vezes, convidado a tocar violino em peças clássicas na Associação Musical de Berna. Essa habilidade deve-se às influências de seu pai, Hans Wilhem Klee, professor de música no Seminário Estadual de Berna em Hofwil, cidade vizinha, e de Ida Marie Frick, cantora, com quem Hans Wilhem se casou. Por tudo isso, nosso jovem artista respirou intensamente a cultura musical de Berna, uma pequena província nesse tempo. Foi reconhecido como músico, chegando a integrar, como violinista, a Orquestra Municipal de Berna, além de participar de diversos grupos musicais.

Aos 19 anos, Klee formou-se na Escola de Literatura do Ginásio Municipal de Berna. O diploma lhe permitia dar continuidade a seus estudos em qualquer área. Decidiu, então, estudar pintura em Munique, inicialmente no ateliê de Heinrich Knirr e posteriormente, com o neoclassicista Franz von Stuck na Academia de Munique. Kandinsky também estudou na mesma academia, mas os dois artistas só se encontraram anos mais tarde. Para Klee, a decisão de ir para Munique, tornar-se pintor, não o afastou do universo musical. Seus trabalhos nasceram “da mente de um músico para as mãos de um pintor” (Castro, 2010, p. 14).

Entre 1903 e 1905, o artista viajou para Roma, Florença e Nápoles. Dessas viagens, realizou as gravuras da série Invenções. São as primeiras obras a alcançar alguma projeção. O trabalho desse período mostra a fascinação de Klee por temas mórbidos e decadentes. Fênix Velha, por exemplo, simboliza a inadequação do homem em momentos dramáticos. Nesse trabalho, a fênix é transformada numa figura híbrida de mulher e pássaro, decrépita e perto de seu fim.

Alguns anos depois, Klee empregou o tema da música de modo sarcástico e decadente. Em O Pianista em Dificuldade, 1909, o artista nos traz o cenário musical à época carregado de ironia: não bastasse o aspecto tétrico do pianista sentado sobre um penico.

Signos em amarelo, 1937 – Foto: Divulgação/Fondation Beyeler

Em 1911, Paul Klee conheceu Auguste Macke, Kandinsky e Franz Marc e com eles editou o almanaque Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul). Apesar de uma única edição, é considerado um importante manifesto da arte do século XX. Com Macke e Louis Moilliet, um amigo suíço, iniciou uma viagem de estudos à Tunísia, entre 7 e 19 de abril de 1914. Até lá, percorreu as regiões de Genebra e o sul da França – nesse percurso, descobriu formas e luzes, além da visualidade da terracota sobre os telhados das construções.

Mais tarde, quando ensinava na Bauhaus, participou de um quarteto, tendo relevantes experiências com músicos, tais como, Schlemmer, Schönberg e Stravinsky. Nosso artista casou-se com uma pianista e manteve o hábito de tocar com amigos em sua casa.

Nas suas primeiras telas, Paul Klee fez uma série, das quais Dom Giovanni Bavarese tornou-se exemplar porque mostra certa literalidade ao conformar-se às questões musicais. Pierre Boulez (1989, p. 18), estudioso de sua obra, afirmou que, para Klee, “a música é um ponto de referência radicado na emoção, nos reflexos e experiências da juventude”. Em sua obra pictórica, recorreu, com frequência, aos ritmos, à polifonia, harmonia, sonoridade, intensidade, dinâmica e variação dos elementos formais.

Em Bach, o artista encontrava uma apresentação do real. Compreendia a estrutura da frase musical, a natureza da forma, o desenvolvimento e atreveu-se à transcrição gráfica com os recursos da imaginação. Ainda segundo Boulez, a tela Emach “tenta dar uma figuração plástica a uma construção musical. Klee escolheu apresentá-la em dois movimentos e três vozes”.

Empenhado em demonstrar seu pensamento artístico, o pintor desenvolvia um trabalho lógico e construtivo sustentado pelas inter-relações existentes entre pintura e música. Semelhante exercício encontramos nos esforços de Wassily Kandinsky, porém, esse último interessava-se pelas interações espirituais através da pintura expressionista – caminho não trilhado pelo nosso artista.

As pesquisas kleenianas são descritas na publicação Pensamento Criativo, editada em 1920. Entre os anos de 1919 e 1931, Klee foi um dos professores mais reconhecidos da Bauhaus. Ele também deu aulas na Academia de Dusseldorf entre 1931 e 1933. Nesse ano, o regime nazista o demitiu e com sua família imigrou para a Suíça. O artista estava no auge de sua produção artística.

A Capela, 1917 – Foto: Divulgação / Fondation Beyeler

Ad Parnassum, de 1932 (nome atribuído pelo próprio artista), é considerada um exemplo de divisionismo. O título é referência ao tratado por Johan Fux, Gradus and Parnassum, um marco da teoria musical publicado em 1723.

Apesar das suas pesquisas sobre as artes abstratas no campo geométrico e toda a sua contribuição para a compreensão do processo criativo, envolvendo movimento, ritmo e luz, é, no mínimo, irônico pensar que Paul Klee foi impedido de voltar à Alemanha até sua morte em 1940. E mais espantoso ainda pensar que um dos seus trabalhos, A Santa da Luz Interior, foi exibido na Exposição de Arte Degenerada, em 1937, junto a outros artistas do movimento expressionista, como Kollwittz e Karl Schimitt-Rothluff. Atualmente, os trabalhos desses artistas integram a mostra Visões da Arte no acervo do MAC USP: 1900-2000, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

A narrativa pictórica de Paul Klee é sempre gênese. Ela envolve seus trabalhos em percepções de linhas, planos e cores que, por sua vez, dão origem a uma série de novas percepções. Por essa razão, ele via na música e na pintura aproximações. Ele assinalava que “o pintor imita o jogo das forças que criaram e criam o mundo” – a arte torna visível o invisível.

Em resumo, as proposições, nascidas de suas escolhas estéticas, as motivações temáticas e as preocupações técnicas erigiram um sistema que transpõe preceitos musicais à linguagem visual. Klee formulou uma sofisticada teoria da forma destinada ao aperfeiçoamento da metodologia da criação nas artes visuais, enfatizando a representação do movimento e da profundidade. Sua publicação Teoria da Forma hoje fundamenta a metodologia visual – muitas vezes, utilizada para a formação de designers e comunicadores visuais.

 

Referências

ARANHA, C. S. G. e OLIVEIRA, A. M. “Paul Klee: movimento e visualidade”. In ARANHA, Carmen S. G.; LEITE, Edson e RODOLFO, Guilherme W. (Org.). Musicarte Campo dos sentidos. 1a ed. São Paulo: PGEHA/ MAC USP, 2017, v. 1, p. 103-117.

BOULEZ, Pierre. Il paese fertile. Paul Klee e la musica. Milano: Leonardo Editore. 1990.

CASTRO, R.C. Ramalho de. “O pensamento criativo de Paul Klee”. Per Musi. Belo Horizonte, n. 21, 2010, pp. 7-18.

CHIPP, H. B. Teorias da Arte Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

KLEE, Paul. Sobre a arte moderna e outros ensaios. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001.

KLEE, Paul. Diários. São Paulo: Martins Fontes Editora Ltda. 1990.

KLEE, Paul. Teoria Del Arte Moderno. Argentina: Ediciones Caldén.

 

 

 

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