O silêncio vivo de Raduan Nassar

Por Renato Tardivo, professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP, psicanalista e escritor

 26/11/2020 - Publicado há 1 ano
Renato Tardivo – Foto: Arquivo pessoal
São Paulo, Balada Literária de 2012. Autor homenageado: Raduan Nassar. A mesa com o escritor, mediada por Lourenço Mutarelli e participação do cineasta Luiz Fernando Carvalho, estava prestes a começar; o anfiteatro da livraria, lotado. Marcelino Freire, organizador do evento, visivelmente preocupado com a possibilidade de o homenageado não comparecer, foi até o microfone e anunciou: “O Luiz Fernando está atrasado, porque foi almoçar com um amigo aqui de São Paulo – vocês imaginam quem é o amigo…”, sugeriu, dando a entender que se tratava do próprio Raduan.

Como se sabe, o escritor se mantém reservado. Era esperado, portanto, que não estivesse nos seus planos dar as caras na Balada Literária, ainda que – ou sobretudo – na condição de autor homenageado. Após uma hora de espera, sem que ninguém houvesse deixado o anfiteatro, qual não foi a surpresa de todos quando Luiz Fernando Carvalho chegou à livraria em companhia de Raduan Nassar? Atônito, o público aplaudiu de pé.

Eu jamais me esquecerei do que se seguiu. Raduan trocou o semblante estrangeiro de quem não pertencia àquela parafernália toda ao me reconhecer na primeira fila e, com alguma familiaridade, sussurrar: “Oi, Tardivo”.

Raduan Nassar é considerado por muitos o maior escritor brasileiro vivo. Concordo e acrescento: é o maior do meu afeto. Por anos, estudei sua obra e, na condição de pesquisador, jamais esbocei qualquer tentativa de aproximação. Posso dizer que funcionou. Meses antes do encontro na Balada Literária, por intermédio do escritor e professor da ECA-USP João Anzanello Carrascoza, nós nos conhecemos pessoalmente.

Neste 27 de novembro, no mesmo ano em que a primeira edição do romance Lavoura arcaica faz 45 anos, Raduan completa 85. Para celebrar, encampo a gratidão que devemos a este artista brasileiro e registro eventos de sua biografia, alguns dos quais tive o privilégio de ouvir em nossos encontros.

Pindorama
A pequena cidade de Pindorama, cortada pelo Rio São Domingos, não havia sido unificada durante a infância de Raduan, e os dois lados eram rivais. O lado em que a família Nassar morava era conhecido pejorativamente por “Asilo”; o outro, por “Areia Branca”. Foi em uma salinha no “Asilo” que o menino Raduan começou a estudar, antes de entrar para o grupo escolar.

Para frequentar as aulas de educação física, ele acordava de madrugada, porque tinha de viajar com os colegas até Catanduva, cidade vizinha à Pindorama, em uma “jardineira”, espécie de ônibus, com um capô na parte dianteira, movido a gasogênio. Uma das moças que acompanhavam os alunos durante o trajeto era fã fervorosa do cantor Vicente Celestino, e Raduan se recorda vividamente das canções que ela ouvia.

Mas ele se recorda, também, das brigas em que por vezes se metia e das surras que levou: os colegas queriam ver sangue.

Na Pindorama de sua memória, há ainda a estação de trem, onde as moças faziam o footing; o Cinema do Galo, cujas matinês Raduan frequentava para assistir a filmes como Tarzan; as hortas, em que se compravam verduras e legumes viçosos; as chácaras, onde se pagava um valor para entrar e comer à vontade frutas colhidas do pé. É com gosto que Raduan se recorda de ser levado pelo pai para saborear as mangas do tipo Bourbon – grandes, polpudas e vermelhas.

Na capital
Durante a adolescência de Raduan, sua família se mudou para a cidade de São Paulo, em busca de melhores oportunidades de estudo para os filhos. Raduan ingressou na Faculdade de Direito e no curso de Letras Clássicas, ambos na Universidade de São Paulo. Abandonou o curso de Letras e começou a cursar Filosofia – única faculdade que viria a concluir.

Nos anos 60, decidido a se dedicar à literatura, ele se dividiu entre a produção rural e as atividades no Jornal do Bairro, fundado pelos irmãos Nassar e do qual foi redator-chefe. Em 1974, Raduan se retirou do jornal e concluiu o projeto literário cujas primeiras anotações já datavam de alguns anos, vindo a lançar, em 1975, o romance Lavoura arcaica.

A primeira versão do segundo livro, Um copo de cólera, novela publicada em 1978, foi escrita no início da década de 70, e os contos de Menina a caminho e outros textos, publicados em livro em 1997, foram produzidos nos anos 60 – exceto “Mãozinhas de seda” (escrito na década de 90). E foi só.

Raduan Nassar havia anunciado em 1984 o abandono da literatura. A notícia surpreendeu muita gente – e talvez ainda surpreenda – uma vez que seus livros já estavam entre os mais relevantes da literatura brasileira. Nos anos seguintes, ele se dedicaria à produção rural, mais uma atividade em que foi bem-sucedido.

Em troca do barulho, o meu silêncio
Em 1999, surgiu o filme Um copo de cólera, dirigido por Aluizio Abranches e, em 2001, foi lançado Lavoura arcaica, de Luiz Fernando Carvalho. A repercussão dos longas, sobretudo Lavoura arcaica, conferiu visibilidade à literatura de Raduan no início dos anos 2000.

Na década seguinte, em 2016, foi publicada sua Obra completa, acrescida de dois contos e um ensaio, inéditos em livro até então. Também em 2016, o autor recebeu o Prêmio Camões e foi indicado ao Man Booker Internacional pela versão em inglês de Um copo de cólera.

Paralelamente, diante do cenário político do Brasil dos últimos anos, Raduan manifestou-se algumas vezes, dando mostras, como o personagem de seu conto “O ventre seco” – cujo acordo com o mundo é “em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio” –, de que se retirar não significa se omitir. Muito pelo contrário.
Tome-se, nessa direção, sua intenção de que os 643 hectares da Fazenda Lagoa do Sino, da qual era proprietário, se convertessem em área de ensino público. Em 2011, foi concretizada a doação à Universidade Federal de São Carlos.

Linguagem
Ora mais colérica, ora mais lírica, a obra de Raduan Nassar aborda os contrastes, empreende retornos e questiona as possibilidades para que ocorram mudanças. Sua linguagem é carregada de afeto. Talvez por isso, há quem acredite que ele siga escrevendo. E que, um dia, serão encontradas páginas inéditas de sua autoria. O escritor nega categoricamente. Há, também, quem diga que ele guarde em gavetas textos jamais publicados. Raduan despista.

Sabe-se, no entanto, que ele mantém encontros fortuitos com o diretor Luiz Fernando Carvalho, com o propósito de desenvolverem um roteiro para cinema a partir de um conto que Raduan não chegou a transpor ao papel. “Era uma narrativa razoavelmente boa”, ele diz, resignado.

Com efeito, o filme partirá de material inédito do escritor, guardado apenas em sua imaginação. Nesse caso, fica a questão: ao não escrever o que imaginou, Raduan não estaria imaginando o que escreveu?

Seja como for, ao reinventar a palavra em sua máxima potência, sua obra é mais uma evidência de que a linguagem é silêncio. Avesso ao barulho mundano e aos conchavos, Raduan não optou pelo silêncio apenas ao abandonar a literatura. Ele segue escrevendo o silêncio.

 


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