O que eu aprendi dando aulas teóricas on-line durante a pandemia

Por Erick Bastos, professor associado do Instituto de Química (IQ) da USP

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Erick Bastos – Foto: Arquivo pessoal

 


Este artigo é dedicado a todas as pessoas que têm ido além de sua zona de conforto para continuar transmitindo conhecimento.


A pandemia de covid-19 me fez interagir com os estudantes de uma maneira diferente. O olho-no-olho se transformou em tela-na-tela e, no começo, a única coisa que eu queria era ensinar da mesma forma que eu fazia presencialmente. Depois de seis meses, descobri que esse era o objetivo errado. Esse artigo relata o que eu aprendi tentando ensinar superando as dificuldades impostas pelo distanciamento social. Eu não sou um educador no sentido stricto da palavra. Sou um químico curioso que quer expressar algumas ideias que podem ressonar em pessoas que, como eu, gostam de ensinar.

Eu aprendi a preparar aulas mais envolventes. Não me entenda mal. Eu sempre preparo a aula, mesmo as que já dei muitas vezes antes. Mas o isolamento me forçou a gravar as aulas e as minhas aulas gravadas eram (e talvez ainda sejam) chatas – muito chatas. Então, procurei exemplos de aulas no YouTube. Quanto mais curta, direta e clara a aula, mais vontade eu tinha de explorar o assunto. O problema é que as minhas aulas não foram preparadas para 20 minutos, elas sempre duravam pelo menos o triplo desse tempo. Condensar uma aula de química de uma hora em 20 minutos de vídeo não me pareceu ser a forma mais adequada de preservar a integridade psicológica dos espectadores. O caminho que eu encontrei foi separar as aulas em perguntas simples que permitiam apresentar conceitos mínimos, uma de cada vez, mas de forma integrada. Uma aula, um conceito. Várias aulas, uma ideia. Durante esse processo, eu tive que abrir mão de inúmeros detalhes que eu ensinava nas aulas presenciais e isso acabou sendo… bom. Esses conceitos foram, felizmente, descobertos pelos estudantes e se transformaram nas perguntas certas.

Nesse ponto, eu pensei que poderia criar conteúdo que fosse útil para todos os interessados na matéria, não somente os alunos da USP. Uma plataforma para isso é o YouTube, mas para publicar vídeos públicos lá sem correr o risco de ter problemas ($$) é importante que os direitos do material pertençam a você, sejam de domínio público, sejam licenciados pela creative commons ou que você tenha permissão de uso. Gravar os vídeos e divulgar em repositórios fechados, como o e-disciplinas e o e-Aulas da USP, é uma alternativa. Outra plataforma são os podcasts, que são como programas de rádio transmitidos pela internet. O que eu percebi é que falar sobre um determinado assunto, mesmo que seja um tema técnico, pode ser muito divertido se você encontrar histórias que prendam a atenção do ouvinte. Pessoalmente, achei incrivelmente difícil fazer essas coisas, não somente pela parte técnica, mas porque percebi que alguns conceitos que eu ensinava nas aulas presenciais eram dogmáticos e precisavam de mais contexto para se tornarem atrativos nessas novas mídias.

Para os criadores de conteúdo on-line, preparar um roteiro e criar uma história para engajar o espectador parecem ser as coisas mais importantes (junto com um bom áudio) para produzir um vídeo com muitos likes. Like é a moeda digital que pode – nas mãos habilidosas de pessoas que normalmente têm menos de metade da minha idade – se tornar moeda real porque implica capital social e influência sobre um grupo de pessoas. Como a minha moeda não é o “like” mas o “entendi”, eu complementei as aulas assíncronas com aulas síncronas pelo Google Meet, que é disponível para os docentes da USP, que também são gravadas e disponibilizadas no e-disciplinas. Ao fazer isso, descobri que as coisas estavam mudando. Nas aulas presenciais, eu apresentava os conceitos e os alunos estudavam em casa, agora alguns deles estavam trazendo as dúvidas do estudo em casa para as aulas. Essa inversão não é algo novo. Ela é descrita por Salman Khan, o inventor da Khan Academy, como uma das maiores mudanças com o ensino on-line. O que aconteceu a seguir foi incrível: “feedback positivo”. Estudantes interessados me deixaram mais motivado, o que se traduziu na minha vontade de motivá-los ainda mais. Alunos e alunas finalmente assumindo uma posição mais ativa como estudantes, me transformando de professor em facilitador. Talvez todo o conhecimento ao redor de um tema seja importante, mas não cabe em um sistema que quer ensinar os estudantes a pensarem por si mesmos colocá-los como ouvintes passivos de um monólogo descritivo elencando conceitos. Ironicamente, foi o distanciamento físico dos estudantes que me fez perceber a importância do diálogo com eles.

Eu aprendi a ouvir mais os estudantes. Quando falamos em ensino-aprendizagem como um processo, quem ensina? Pela minha experiência, funciona melhor se todos os envolvidos estiverem fazendo as duas coisas: ensinando e aprendendo. Eu não sabia como dar aulas on-line. Perguntar aos estudantes como as coisas estavam indo e procurar entender as preocupações, necessidades e medos deles criou vínculos no ambiente das disciplinas que se transformam em confiança mútua. O uso de chat pareceu deixar os estudantes mais propensos a fazerem perguntas e os monitores ajudam a resolver problemas de forma rápida. Analisar os dados analíticos das suas aulas on-line para saber em que ponto da aula as pessoas deixam de assistir, os trechos que foram assistidos mais vezes, o percentual de retenção das pessoas em função de diferentes indicadores como, por exemplo, o meio usado para acessar o vídeo são úteis para errar menos ao criar conteúdo on-line. Criar enquetes anônimas e identificadas que fazem as perguntas certas que te permitem mudar, se for o caso, o rumo do curso é um ótimo método para manter as coisas funcionando bem.

Aulas virtuais podem demandar um esforço muito maior do estudante para acompanhar o conteúdo e aprender. Sobrecarregar os estudantes com uma infinidade de tarefas pode ser pouco produtivo. No lugar disso, tarefas curtas que reforcem os conceitos mais importantes e que sejam dadas de forma programada vão manter os estudantes interessados. Mas, se um grupo de estudantes indica que o esforço exigido está sendo excessivo, realizar mudanças pode motivá-los, enquanto a rigidez leva inevitavelmente a um conflito que nos afasta do nosso objetivo como professores que é transmitir o conhecimento de forma clara e efetiva.

Eu aprendi a avaliar o processo de um jeito diferente. O papel da “prova” na psique do estudante é algo muito curioso. Alguns estudantes encaram a prova como o portal para avançar, um reflexo claro dos processos seletivos e classificatórios a que todos nós estamos submetidos ao longo de nossas vidas. Outros tem pavor de falhar e a prova representa o limite entre o sucesso e o fracasso. Há muitas formas de avaliar se o processo de ensino-aprendizagem está funcionando e muitas escolas na pedagogia discutem esse tema em grande profundidade. O ensino on-line pode ajudar a desmistificar o processo de avaliação. Como foi muito bem colocado pelo professor Michael Wesch, da Universidade do Estado de Kansas, é fundamental deixar absolutamente claro no primeiro dia de aula tudo o que acontecerá no curso, quais as atividades semanais e como serão as avaliações. Relembrar algumas vezes durante o curso também ajuda. Fazer isso reduz o estresse da incerteza, a confusão, e deixa os estudantes mais tranquilos. Surpresas em relacionamentos a distância podem ser muito desagradáveis.

Mas como estimular o estudante a não se deixar levar pelos desejos, que pode fazer com que qualquer um de nós aja de forma antiética? Eu vi um relato de um professor que colocou respostas incorretas em um determinado site para descobrir quem usou a internet para fazer uma prova on-line que deveria ser sem consulta. A proibição do uso da internet para responder perguntas durante um curso on-line me parece paradoxal e pouco realista. A repressão não é uma boa forma de estabelecer relações humanas produtivas. Se todas as perguntas em uma avaliação on-line puderem ser respondidas de forma mecânica e estiverem disponíveis em sites de respostas que proliferam pela rede, talvez o problema seja a avaliação. Flexibilidade e diálogo permitem determinar o grau de desenvolvimento dos estudantes de forma mais positiva. Avaliar diferentes competências, empregando métodos diversificados distribuídos pelo curso, foi a forma que eu encontrei para avaliar as minhas turmas. Há testes de múltipla escolha semanais, simples, que fazem os alunos entrarem no ambiente do e-disciplinas, permitem algum tipo de controle de assiduidade e indicam os conceitos fundamentais que não estão sendo bem entendidos. Provas dissertativas curtas ao longo dos módulos do curso fazem com que os estudantes mantenham o foco ao acompanhar as aulas. Um trabalho final que deve ser feito com consulta e com um prazo longo inclui questões que verificam se os estudantes são capazes de extrapolar o conhecimento aprendido e solucionar problemas. Dependendo do número de alunos, um número grande de avaliações representa um volume enorme de trabalho ao longo do curso, o que só é viável se os diferentes métodos de avaliação existentes forem usados de forma criteriosa e objetiva.

Eu aprendi que não existe nada perfeito. Por mais que você se esforce, você não vai agradar a todos e talvez nunca agrade a si mesmo completamente. Mas isso não deve te paralisar. Até o vídeo do Baby Shark no YouTube que tem 6,4 bilhões de visualizações e 20 milhões de “Likes 👍”, tem 9,4 milhões de “Dislikes 👎”. Um material de ensino que exista, mesmo que imperfeito e virtual em sua natureza, sempre será melhor do um material perfeito que não existe. Você não precisa saber o que é iluminação cinemática ou o que é um microfone com perfil cardioide para dar uma boa aula on-line. Você só precisa ter um plano de aula e começar. Com um celular filmando folhas escritas numa mesa ou uma minilousa na sua parede você pode transmitir as suas ideias. Programas de apresentação como o PowerPoint, Keynote, Prezi, Google slides, LibreOffice ajudam a criar um material que está pronto para ser transmitido on-line. Aprender a usar essas ferramentas tem uma curva de aprendizagem íngreme. Mas para a sorte de todos nós, muitas pessoas se dedicaram a criar conteúdo que ensina como fazer isso que está disponível… na internet. A lição aqui é que o conteúdo é mais importante que a forma. Minhas aulas síncronas são frequentemente invadidas pelas felinas donas da casa em que eu vivo, por quedas momentâneas do sinal da rede e por outros incidentes que tornam essas aulas únicas, mostrando aos alunos que os professores também têm uma vida comum.

Uma outra face da busca pela perfeição é a idealização do estudante, a visão que o estudante seja capaz de atingir quase que imediatamente conceitos abstratos e aplicá-los, que tenha tempo infinito e que consiga se tornar proficiente em todas as matérias durante todo o curso. Pensamentos dessa natureza, assim como comparações de gerações e pessoas, são pouco úteis e se baseiam em aspectos distorcidos da personalidade humana, já bem entendidos em campos como a neurociência e a psicologia. A adaptação do ensino presencial para o ensino virtual é difícil para todos os envolvidos. Não devemos esperar a perfeição de nenhum lado, mas o empenho de todos vai criando laços que são um aspecto importante na criação de modelos positivos que vão nos acompanhar por toda a vida.

Eu aprendi sobre nossa realidade social. Em 2019, o Brasil tinha 134 milhões de usuários de internet, o que representa 74% da população acima de 10 anos de idade, e 71% dos domicílios tinham acesso à rede. O que eu descobri é que a baixa qualidade da internet (largura de banda), dificuldades para acesso em computadores públicos e outros fatores práticos dificultam o acesso de cerca de um quarto dos estudantes com que eu tive contato às aulas síncronas e aos materiais para estudo – e esse não é um problema só na USP. A falta de acesso ou acesso limitado à internet cria uma barreira enorme para muitos professores e alunos em todo o País e na maior parte do mundo. Algumas iniciativas públicas, de ONGs e de empresas privadas oferecem apoio para viabilizar o acesso de estudantes à internet, mas esse esforço ainda é insuficiente. Certas operadoras de celular têm planos que não cobram franquia sobre aplicativos de comunicação e/ou redes sociais. Permitir a divulgação do material de ensino por essas plataformas pode ajudar a atingir pessoas com acesso limitado à internet, mas não resolve o problema. Nesse contexto, é importante reconhecer que os professores, monitores, técnicos e outros assistentes estão fazendo um grande esforço para manter as aulas, criando novas estratégias para ensinar alunos em casa e usando, muitas vezes, recursos próprios para esse fim.

O que eu ainda terei que aprender é como misturar as ferramentas de ensino on-line com o ensino presencial para criar um método melhor quando o distanciamento social acabar. Embora exista o Educação a Distância (EaD), que tem bases e métodos muito bem estabelecidos, o processo pelo qual eu e muitos(as) colegas passamos é algo diferente. O que eu aprendi nesse período mudou minha forma de ver o ensino e se transformou numa semente que vai germinar no futuro. Assim como eu, muitos outros professores também podem ter encontrado as sementes que vão nos ajudar a mudar o panorama da educação, sem extremos como a equivocada ideia de virtualização total do ensino, mas aliando novas e antigas tecnologias, aproximando e motivando as pessoas em ambientes reais e virtuais e estimulando ainda mais a busca pela excelência.

 

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