O que aprendi em sete semanas como coordenadora do Escritório USP Mulheres

Por Adriana Alves, ex-coordenadora do Escritório USP Mulheres e professora do Instituto de Geociências da USP

 29/11/2021 - Publicado há 9 meses
Adriana Alves – Foto: Arquivo pessoal

 

 

Tive a grata satisfação de ser convidada pela professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), para substituí-la à frente do Escritório USP Mulheres durante seu afastamento para concorrer à Vice-Reitoria da Universidade, nas últimas sete semanas. Até então, meu cargo no Escritório era o de “enxerida”, como costumo brincar com os colegas do Instituto de Geociências (IGc), onde leciono.

Desde meus primeiros contatos com o Escritório – motivados pelas denúncias de violência de gênero reportadas à Comissão de Direitos Humanos do IGc -, a afinidade com os temas ali tratados me pareceu óbvia. O Escritório constituía e, ouso dizer, constitui, um dos poucos lugares da USP em que as mazelas não relacionadas ao desempenho acadêmico encontravam eco e encaminhamento na cordialidade do acolhimento.

Fiz pouco nessas últimas semanas, pois coordenei uma equipe já montada, com pautas já estabelecidas. Eu me vi no papel de incentivadora, mais do que de coordenadora, de aprendiz, mais do que de professora. Minha empatia por nossos gestores certamente aumentou nesse período. O desafio hercúleo de se pensar em medidas de equidade de gênero em uma universidade com cerca de cem mil pessoas é encarado por uma equipe atualmente composta com seis servidores, incluída a coordenadora, e oito estagiários de graduação, que trabalham com orçamento reduzido e externamente gerido. Tive ainda mais certeza da pertinência da frase “se vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes”.

A coragem e a determinação da professora Eva Alterman Blay, primeira coordenadora do Escritório após a sua instituição formal em 2016, tornaram impossível a negação de que o problema da violência de gênero atinge também nossa Universidade e precisa ser trazido à luz para ser solucionado. A institucionalização das medidas de mitigação das desigualdades de gênero passou pela diligência e elegante insistência da professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, coordenadora do Escritório nos dois últimos anos, que logrou avanços não apenas junto à Comissão Especial de Regimes de Trabalho (Cert), pautando como a maternidade e, neste último período, a pandemia impactam sobretudo as carreiras das docentes mulheres, mas também junto à área de pós-graduação, que é a etapa na trajetória acadêmica em que as desigualdades de gênero mais se evidenciam.

Ouvi anseios de todos os tipos e me compadeço de todos eles. Concordo que precisamos de um centro de referência para atendimento às vítimas de violência de gênero na USP. Necessitamos urgentemente que as Comissões de Direitos Humanos nas unidades, que são os espaços de acolhida mais próximos do dia a dia da comunidade, ganhem caráter estatutário e seus presidentes, respaldo jurídico.

Além disso, é preciso que coletemos dados acurados e georreferenciados acerca das ocorrências de violência nos diferentes campi. Não há como propor melhores medidas de segurança pública sem que se conheça a natureza, distribuição e padrão desses eventos.

É preciso, ainda, que se pense como o viés de gênero cria assimetrias atrozes de oportunidades de ingresso e progressão de mulheres na carreira docente. Não é possível naturalizar o fato de que o nível máximo da carreira docente conte com apenas 30% de mulheres.

É preciso que mudemos a percepção de nossas comissões avaliadoras, que estas sentem-se à mesa de seleção cientes de que suas decisões são pautadas não apenas pela qualidade das candidatas e dos candidatos que pleiteiam a vaga, mas também por vieses que, inconscientes ou não, todas e todos temos.

É preciso que haja uma mudança de mentalidade quanto à pertinência da coleta de dados de postulantes à docência e de progressão na carreira desagregados não apenas por gênero, mas também por raça. É impensável que cientistas naturalizem a existência de meros 125 professoras e professores negros num universo de quase seis mil docentes.

É preciso que as tão conhecidas sobrecargas do universo feminino, sobretudo as relacionadas à maternidade e ao cuidado, sejam levadas em consideração nas progressões das funcionárias técnico-administrativas.

É preciso que nossas alunas encontrem um ambiente livre de assédios de diferentes tipos para que vejamos florescer talentos ora perdidos não apenas para as violências de gênero, mas também para a inabilidade institucional em reconhecer o papel deletério do silenciamento e da impunidade sobre o desejo dessas mulheres em pertencer a esta Universidade.

E, por último, creio que é preciso que a filosofia de uma universidade feita por e para seres humanos, tal qual a que vi ser praticada no Escritório USP Mulheres nestas sete semanas, permeie toda a estrutura gestora da Universidade.


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