O Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina e a saúde coletiva

Claudia Roberta de C. Moreno é professora associada da Faculdade de Saúde Pública da USP e professora visitante da Universidade de Estocolmo

Por - Editorias: Artigos
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Claudia Roberta de C. Moreno – Foto: Arquivo pessoal

Outro dia, ouvi um estudante dizer que Saúde Coletiva “não tem nada a ver” com Fisiologia ou Medicina. Dias depois, foram divulgados os outorgados com o Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina. A pouca repercussão no campo da Saúde Coletiva de um prêmio que valorizou a área básica da Fisiologia demonstra o distanciamento entre os campos e corrobora a fala do estudante.

O Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina foi outorgado a três pesquisadores por descobertas relativas aos mecanismos moleculares do sistema temporal dos organismos. Jeffrey Hall, Michael Rosbash e Michael Young desvendaram mecanismos que regulavam genes em drosófilas (moscas-da-fruta) a partir dos estudos de Seymour Benzer e Ronald Knopka, os quais foram os primeiros a identificar um dos genes posteriormente estudados pelos laureados. De fato, compreende-se a ideia de que estudos relacionados à área básica da Fisiologia ou Medicina não tenham relação com o campo da Saúde Coletiva, uma vez que a desconstrução de um modelo biomédico de saúde tem sido o mote da Saúde Coletiva nas últimas décadas.

O olhar para a saúde de forma ampliada e não apenas como ausência de doença acaba por romper vínculos com a ideia da natureza exclusivamente biológica do ser humano.  O conceito de saúde deixou de ser tão somente a ausência de doença e passou a ser considerado um estado de bem-estar do indivíduo, como definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS): “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Saúde é hoje, portanto, considerada não apenas um fenômeno biológico, mas também social. Considerando que a vida em sociedade inclui aspectos como cidadania, trabalho, educação, alimentação, moradia, transporte, lazer e, principalmente, as relações entre os indivíduos, a combinação desses fatores, dentre outros, de forma adequada e satisfatória, levaria a um “estado de saúde” (em que pese a utopia na completude do conceito de saúde da OMS).

A importância da dimensão social na saúde foi, de certa forma, incorporada pela Medicina com o surgimento de áreas como a Medicina Social e a Medicina Preventiva. Em ambas, houve o reconhecimento de fatores de ordem social como determinantes do processo saúde-doença. Entretanto, a reivindicação do direito à saúde, presente em movimentos sociais, particularmente na Reforma Sanitária, em muito contribuiu para a constituição da Saúde Coletiva, um campo ainda em construção no Brasil. Assim, a concepção de saúde como um modelo não mais centrado na doença busca um equilíbrio entre os três pilares de seu campo, a saber, as Ciências Sociais e Humanas, a Epidemiologia e o Planejamento/Gestão em Saúde.

O olhar para a saúde de forma ampliada e não apenas como ausência de doença acaba por romper vínculos com a ideia da natureza exclusivamente biológica do ser humano.

Definitivamente, a identificação do mecanismo de genes de moscas minúsculas não tem nada a ver com Saúde Coletiva, diria o nosso estudante. Porém, os chamados “genes relógio” estão envolvidos em um processo endógeno dos organismos que lhes permitiram se ajustar às variações temporais do ambiente. Ao longo da evolução, os seres vivos se adaptaram não apenas a nichos ambientais, mas também a nichos temporais. Isso somente foi possível graças à sua capacidade de antecipar a ocorrência de eventos ambientais recorrentes e periódicos, originados de movimentos terrestres como a alternância do dia e da noite ou as variações sazonais do ambiente. Seres vivos noturnos e diurnos sobreviveram e adaptaram-se ao nicho temporal do ambiente em que viviam. A espécie humana apresenta um padrão de atividade e repouso diurno, isto é, estamos em estado de vigília durante o dia e de sono à noite.

Jeffrey Hall, Michael Rosbash e Michael Young foram, portanto, alguns dos muitos pesquisadores que contribuíram para desvendar as bases moleculares do processo que permite a “estimativa do tempo” endogenamente e, consequentemente, a ocorrência da sincronização do organismo com o ambiente. Obviamente, não se pode reduzir a complexidade desse processo ao nível celular, mas o uso de drosófilas como modelos experimentais foi um ponto de partida para tais descobertas. No caso da espécie humana, ocorre sincronização entre um período endógeno de aproximadamente 24 horas, que dividimos entre o sono e a vigília, com a alternância do dia e da noite. Além disso, as funções do organismo humano seguem uma ordem temporal interna, por exemplo, a temperatura corporal é mais baixa à noite, o hormônio cortisol mais elevado de manhã cedo (quando o despertar está próximo) e a fome começa com a liberação do hormônio grelina durante o dia, enquanto à noite ocorre a produção de leptina, hormônio relacionado à saciedade. As funções do organismo humano (ou ritmos biológicos) variam, portanto, de forma rítmica, sequencial e sincronizada às 24 horas do ambiente.

Definitivamente, a identificação do mecanismo de genes de moscas minúsculas não tem nada a ver com Saúde Coletiva, diria o nosso estudante. Porém, os chamados ‘genes relógio’ estão envolvidos em um processo endógeno dos organismos que lhes permitiram se ajustar às variações temporais do ambiente.

O sistema temporal endógeno humano é dotado de uma plasticidade tal que permite ao organismo ajustar-se a mudanças de fuso horário, como, por exemplo, ao horário de verão, assim como às variações das estações do ano. A velocidade desse ajuste temporal varia de uma pessoa para outra. Algumas ficam sonolentas por todo o período de vigência do horário de verão, outras em um ou dois dias estão ajustadas à imposição de um novo marcador temporal social. É importante ressaltar, entretanto, que nosso caráter diurno vem sendo estabelecido ao longo do processo evolutivo da espécie. Trabalhar de madrugada, acordar antes de suprir as necessidades de sono, restringir o sono durante a semana de trabalho ou alimentar-se em horários inadequados contrariam a natureza diurna do organismo. As consequências da inversão ou da alteração forçada dos ritmos biológicos estão muito bem descritas na literatura científica. A inadequação de horários e jornadas diárias de trabalho, horários de início das escolas e da administração de medicamentos, para citar alguns exemplos, contribuem para o desenvolvimento (ou agravamento) de diversas doenças, comprometem o nosso desempenho cognitivo, além de levar ao aumento da ocorrência de acidentes.

Por fim, o Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina de 2017 não homenageia pesquisas sobre genes de moscas, mas estudos que nos relembram a relação de uma área básica, como é a Fisiologia, com fatores sociais determinantes da saúde, à qual deveríamos ter direito. As ações de Saúde Coletiva para a intervenção na organização da sociedade têm sim algo a ver com isso.

 

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