O preço da glória, e do êxtase, de ser atleta

Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Katia Rubio – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Paira no imaginário social a ideia de que esporte é saúde. Claro está que essa assertiva existe após inúmeras campanhas de comunicação que buscam associar o movimento a um estilo de vida. Um dos maiores desserviços ao esporte e à atividade física foi a máxima “esporte não é droga, pratique”. Fosse assim a afirmação não precisaria se sustentar em uma negativa.

Antes de tudo é preciso diferenciar exercício físico de esporte.

A sociedade ocidental do último século alcançou um padrão de vida que nunca antes na história se imaginou possuir. É bom que se esclareça desde já que esse tipo de vida não é para todos, mas para uma minoria que já conseguiu satisfazer suas necessidades básicas e acumulou uma estrutura material que permite cuidar de si mesmo com práticas hedonistas, ainda que agonísticas. Essa parcela privilegiada da população se distanciou do uso do corpo para as atividades cotidianas. O trabalho feito nos centros urbanos levou uma parcela considerável da população a se sedentarizar. Resposta imediata à sedentarização foi o aumento de doenças cardiovasculares, neurológicas, psicopatológicas e da obesidade. O corpo humano, com sua inteligência própria, passou a enviar mensagens de que era preciso se mover para gastar a energia acumulada com uma alimentação rica em coisas que o corpo não precisava. E assim, a partir da segunda metade do século passado, teve início um chamado para que as pessoas se exercitassem, buscando assim qualidade de vida, saúde, felicidade, aumento de expectativa de vida. Enfim, a atividade física conquistou o lugar da panaceia para a cura dos males humanos contemporâneos.

É bom que se afirme, desde já, que isso não é esporte.

O esporte é uma prática social que tem como premissa a competição, a busca do rendimento máximo, prática baseada em regras para que ela possa ser compartilhada por pessoas ou grupos em qualquer lugar, mesmo que os atletas não falem a mesma língua. Ou seja, o grau de liberdade a que os praticantes se submetem é próximo de zero. Ainda assim, crianças, jovens e adultos, década após década, se submetem a uma rotina de treinos e competições, buscando assim alcançar um objetivo que pode ser um título mundial ou uma medalha olímpica.

Resta então entender o porquê dessa busca e a resposta não se dará por vias objetivas.

Há momentos em que uma luz se acende e uma sirene dispara, mas poucos são capazes de ver e ouvir o que se passa.

Seria difícil explicar por que um jovem abdica do convívio com os amigos e com a família para se submeter a uma disciplina absolutamente rigorosa para chegar a resultados expressivos. Descansar, se alimentar, treinar é o círculo vicioso que se repete por anos até que uma vitória significativa seja alcançada. Em qualquer outra atividade humana esse tipo de rotina é denominado alienante porque subtrai o praticante da reflexão sobre o que faz e ainda o afasta das atividades consideradas ordinárias que envolvem convívio e desenvolvimento de habilidades sociais. Mesmo assim, o esporte foi apresentado ao longo de gerações como uma prática saudável.

Vale esclarecer que em suas origens modernas era essa mesma a intenção de educadores e pedagogos. Em sua essência o esporte promovia companheirismo, espírito de luta e de resistência, valores morais e outras qualidades que ampliavam os processos pedagógicos. Os habilidosos dedicavam-se mais ainda ao aprimoramento de suas qualidades físicas e técnicas e conquistavam títulos que os imortalizaram por seus feitos. Foi assim com Emil Zatopek, Jesse Owens, Adhemar Ferreira da Silva ou Guilherme Paraense, atletas de um momento histórico em que o esporte era apenas mais um elemento de suas vidas, mas a existência era maior do que isso. Até a década de 1980 jovens e adultos praticavam esporte visando a uma competição olímpica, mas também se preparavam para outros papéis sociais. Estudavam, trabalhavam, treinavam e tinham planos para o futuro para além da carreira esportiva. Muitos relatam as dificuldades que era conciliar todas essas atividades, mas, ainda assim, o desejo de competir era mais forte e impulsionava todos a prosseguir.

A visibilidade e o sucesso desses atletas mais antigos mobilizaram o desejo das novas gerações, afirmando um imaginário heroico presente no esporte.

A profissionalização ocorrida a partir dos anos 1980 alterou essa construção social. Com a entrada em cena de patrocínios e prêmios, proibidos até então, o esporte passou a ser uma oportunidade profissional. E, como em todo sistema produtivo, a expectativa de resultados tornou o atleta um refém de metas. Não bastasse isso, sua imagem vitoriosa tornou-o um personagem de si mesmo e neste papel ele deve ser um humano perfeito: ótimo filho, com moral ilibada, respeitoso, feliz com sua profissão, enfim, um exemplo para a sociedade, afinal essa imagem agregará valor às marcas estampadas em seu uniforme de jogo, de treino e até suas roupas sociais, a depender da atividade a ser cumprida. Com o passar do tempo essas exigências se naturalizam e já não se sabe mais o que é vida social, obrigação ou desempenho de papéis. A única certeza aparente é que a vida passa a ter muito mais obrigação do que prazer. Os treinos são repetições incessantes na busca do movimento perfeito. O tempo que resta de vida social não é suficiente para preencher o vazio deixado pelo distanciamento da vida “dos normais”. As conquistas parecem, de imediato, preencher o vácuo de uma existência dedicada a um único fazer, até que tudo isso parece não fazer sentido.

O sofrimento com a derrota, a incompreensão sobre o significado de uma atividade marcada a repetir o já conhecido, sem a graça de Chaplin em Tempos Modernos, o desejo de se ter mais – sem saber exatamente o que falta – parecem não condizer com o sorriso estampado na foto do pódio. Ali, uma vez mais o atleta se mostra um grande ator.

Há momentos, entretanto, em que uma luz se acende e uma sirene dispara, mas poucos são capazes de ver e ouvir o que se passa, afinal o atleta está sempre pronto a enfrentar as dificuldades e as batalhas. Ao sistema esportivo parece inadmissível a fragilidade. E então o atleta aprende a mentir. Dissimula para si mesmo e para os outros que algo vai mal. Interpreta um papel onipotente e infalível, e ninguém no sistema atenta para os custos disso.

E então, aquele ser heroico, aparentemente imortal, sucumbe. Cansado da cegueira e da surdez do mundo à sua volta, ele busca uma saída para seu sofrimento, suas dores e angústias.

É mais do que tempo de atentar para o que acontece com o atleta, principalmente os profissionais. É preciso compreender a especificidade desse fenômeno para atuar oferecendo os recursos para a superação das dificuldades específicas encontradas, mesmo que isso implique uma transição de carreira.

O ser humano que habita o atleta merece essa oportunidade… antes que seja tarde.

 

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