O perfil singular de José Arthur Giannotti

Por Luiz Repa, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 30/07/2021 - Publicado há 2 meses

José Arthur Giannotti – Foto: FFLCH-USP

Luiz Repa- Foto: Arquivo pessoal

Assustador e fascinante. Nesses termos Ricardo Terra sumarizou, no ano de 1998, no discurso de saudação para a outorga do título de Professor Emérito a José Arthur Giannotti, a impressão que a figura do mestre produzia entre seus estudantes. Não creio que possa haver palavras mais adequadas. O susto e o fascínio têm o mesmo motivo, se originam de um perfil intelectual que acabou rareando na academia. Giannotti faz parte daquele tipo de filósofo e intelectual cujo pensamento não pode ser separado de seu feitio, de sua postura, e nisso traz algo de universal – por mais “municipal” que seja, como gostava de dizer. Nesse perfil, o pensamento não toma distância do indivíduo, não pode ser transmitido como uma peça teórica reunindo um conjunto reproduzível de teses e argumentos. Sua força gigantesca de formar e dar rumo – determinante para o Departamento de Filosofia desta universidade, para o grupo de teóricos envolvidos no Seminário Marx, para um centro de pesquisa interdisciplinar como o Cebrap – certamente se nutriu da rejeição à divisão de trabalho claramente demarcada que se tornou rotina no meio universitário. Essa capacidade de reunir as mentes e transitar entre as grandes áreas da filosofia e das ciências sociais, sem impedimentos de princípio, faz jus à anarquia metodológica que a boa filosofia pratica; ao mesmo tempo, cumpre a obrigação com o rigor conceitual, que só pode ser satisfeito pela comunicação permanente entre a filosofia, artes e ciências.

Giannotti costumava dizer que não tinha temas, questões, mas obsessões, mais exatamente “obsessões lógicas”. No entanto, seus escritos sobre lógica estão muito longe do convencionado nessa disciplina. Dificilmente alunos de lógica em qualquer universidade brasileira vão se deparar com sua obra nas bibliografias dos cursos. O que considerava como assunto de lógica dizia respeito antes à estruturação do real por meio de formas objetivas de práticas constitutivas presentes nas sociedades capitalistas e, de maneira refratada e ímpar, na sociedade brasileira. Trabalho e reflexão, uma obra sem igual na literatura da filosofia e da teoria social, debruçando-se sobre os estudos mais avançados nas ciências humanas para lidar com os problemas da sociabilidade na realidade contemporânea, mais exatamente com aqueles dos processos de medida e formação de identidades dos objetos sociais, seria, assim, uma obra de lógica, só que em um sentido muito mais enfático do que a institucionalização acadêmica da reflexão impõe, não só aí como em toda parte.

Tais obsessões lógicas remontam ao período de formação do chamado “marxismo filosófico uspiano”, para o que Giannotti foi decisivo. Fosse apenas um conjunto de tentativas de ler Marx com o rigor do chamado método estrutural de interpretação de texto, tal marxismo já teria sido um feito, visto que sua sofisticação e precisão raramente foram alcançadas em outros quadrantes. No entanto, como Fernando Henrique Cardoso sugere no início de Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, as incursões na lógica do texto marxiano, conduzidas por Giannotti, levaram à busca de elementos para a “análise dialética dos processos sociais reais”; nas palavras de Roberto Schwarz, contribuíram para a base metodológica de “uma intuição nova do Brasil”.

Acresce que o estudo sistemático da crítica marxiana ao sistema capitalista moderno e sua atualidade permitiu a Giannotti erguer uma barreira local à expansão do althusserianismo nos anos 1960 e 1970, o qual pregava que a cientificidade do materialismo de Marx supunha um “corte epistemológico”, um hiato intransponível entre o objeto de conhecimento e o objeto real. Contra Althusser e seus companheiros, Giannotti propôs uma linha de argumentação original em que o rigor do discurso marxiano só poderia ser garantido na medida em que pudesse reproduzir a “ordem da constituição ontológica” da sociedade capitalista.

Dessa maneira, ao contrário de Althusser, quem reservava a abstração e a universalidade unicamente ao pensamento que se debruça sobre uma realidade sempre singular, Giannotti demonstraria que Marx parte da realidade do universal. Assim, o conceito de trabalho abstrato, que constitui a substância do valor objetivado das mercadorias, não se resume na operação intelectual de identificar exteriormente, nas realidades individuais, uma característica em comum, mas tem seu lastro na operação ontológica de uma abstração real; o conceito “não resulta de um processo exterior ao objeto, seria o próprio objeto na medida em que situa o objeto primitivo no nível da realidade social”.

Se é assim, porém, se as formas lógicas têm constituição real e prática, mesclando representações e formas de ação, das quais os sujeitos individuais não dispõem simplesmente, as transformações contemporâneas nos processos de reprodução da sociedade capitalista passam a ter consequências duradouras para a sociabilidade e para a política, sem soluções prontas. As ciências tornando-se as principais forças produtivas sob o jugo de monopólios, a teoria do valor-trabalho “fibrilando”, como o próprio Marx teria previsto momentaneamente, abre-se o diagnóstico dos impasses que marcam as formas de vida contemporâneas, como a perda de medida da sociabilidade – não se sabe bem onde se situa o outro pelo qual se constitui a identidade social – ou a criação de bolsões de sociabilidade não capitalista, cuja preservação e extensão se tornam essenciais para a política democrática.

Isso somente para delinear algumas pistas sobre a relevância de um pensamento que escapa à normatização, que instiga, fascina e, claro, assusta.


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