O negacionismo da ciência compromete o futuro do Brasil

Por Márcio de Castro Silva Filho (Esalq/USP), ex-presidente da Sociedade Brasileira de Genética, e outros*

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Márcio de Castro Silva – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

* Também assinam o artigo os ex-presidentes da Sociedade Brasileira de Genética listados a seguir: Carlos Frederico Martins Menck (ICB/USP); Edmundo Kana Marques (UFRGS); Fabrício Rodrigues dos Santos (UFMG); João Lúcio de Azevedo (Esalq/USP); Mara Helena Hutz (UFRGS); Marcia Maria A. N. Pinheiro Margis (UFRGS); Pedro Manoel Galetti Junior (UFSCar); Samuel Goldenberg (ICC); Sérgio Olavo Pinto da Costa (ICB/USP)
O Brasil já passou por muitas crises, sob diferentes regimes e governos. Somadas as nossas trajetórias como ex-presidentes da Sociedade Brasileira de Genética (SBG), testemunhamos momentos críticos para nossa democracia, economia e, consequentemente, nosso bem-estar como nação. Vencemos muitos desafios à frente dessa antiga e respeitada sociedade científica. Apesar de tantas experiências e histórias para contar, assistimos estarrecidos ao resultado do negacionismo e da irresponsabilidade do governo atual. São muitos os exemplos de políticas equivocadas e descaso com a verdade, o que coloca em jogo o futuro do Brasil como uma nação livre, democrática e próspera.

Nos assusta como a ciência, a saúde, o meio ambiente e a educação estão sendo tratados de forma autocrática. Em quaisquer destas áreas de grande importância para a sociedade brasileira, vemos inúmeras tragédias anunciadas ou em curso. O Ministério do Meio Ambiente atual está tomando atitudes ou ignorando problemas que estão levando a uma destruição sem precedentes da natureza do Brasil, e pior, sendo plenamente endossado pelo presidente. O imediatismo governa as ações desses gestores, como se o fogo que queima as nossas matas e campos não virá cobrar a conta no futuro, impactando a nossa economia pelos prejuízos que teremos a longo prazo nos setores da agricultura, saúde e meio ambiente. Essa conta virá, como inúmeros estudos científicos de brasileiros e estrangeiros indicam.

O meio ambiente agoniza. A alma dos nossos índios está sendo vendida num leilão (parodiando Renato Russo) junto com as riquezas da nossa terra, consideradas pelo governo como mais valiosas e importantes do que as vidas humanas que nela habitam. Pois não são. As riquezas do solo da nossa terra só têm valor se propiciarem bem-estar para os povos que nela vivem, os primeiros brasileiros. Esses brasileiros querem paz e saúde, querem a floresta e os animais protegidos. De pouco valem os avisos e apresentação de dados e evidências feitos por organizações governamentais como o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) ou Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais). Para se desvencilhar desses dados, demissões de pesquisadores e técnicos competentes são a resposta mais comum do governo, para permitir “passar a boiada”, como disse o sr. ministro Salles. Mais fácil é o governo apoiar a grilagem de terras e garimpeiros clandestinos. As queimadas da Amazônia e Pantanal seguem, independente de avisos científicos que demonstram que a agropecuária brasileira cresce, sem necessitar aumento de terras. De pouco valem os apelos internacionais que chamam a atenção para o momento doloroso em que vivemos tanto em termos de conservação do meio ambiente quanto de direitos humanos. Para o governo federal, que sobrevive de falsas notícias (fake news), trata-se de uma conspiração internacional, mesmo contra toda a evidência científica.

A ciência no Brasil ruma para o desmonte, com cortes inimagináveis, sobretudo para a formação de novos pesquisadores. Os laboratórios de pesquisa estão sendo sucateados. Os cientistas, ignorados de uma maneira sem precedentes. O governo vem adotando políticas indubitavelmente anticientíficas. A pesquisa científica feita principalmente nas universidades públicas é totalmente negligenciada, com decisões que buscam o desmonte de uma estrutura que tem contribuído com a formação de competência, desenvolvimento e justiça social. O desprezo pelo conhecimento científico por parte do governo tem gerado efeitos catastróficos para o Brasil, seja na saúde, seja no meio ambiente, seja na educação. A pandemia de covid-19, que já foi considerada gripezinha nas palavras do sr. presidente, continua sendo negligenciada e matando centenas de brasileiros todos os dias. Ao mesmo tempo que o governo federal cobra pela produção imediata de vacinas, estabelece postura de discriminação aos centros de pesquisa que trabalham com os testes de segurança e eficácia de candidatas a vacinas, como a Fiocruz e universidades públicas. Posições anticientíficas por parte de governantes são inadmissíveis pela sua letalidade, no sentido literal da palavra.

O que falar da educação? Que projeto temos para esta pasta, cujos critérios utilizados para a escolha de seus dirigentes estão longe de ser técnicos? Não parece ser por acaso que a educação é onde o governo tem batido mais fortemente com seu discurso ideológico. É desesperador citar aqui frases como “A vara da disciplina não pode ser afastada da nossa casa (…). Bons resultados não serão obtidos por métodos suaves (…). Deve haver rigor, (a criança) deve sentir dor”, vindas daqueles que têm (ou tiveram nos últimos anos) a responsabilidade pela educação dos brasileiros. Há muito por se fazer na educação, mas nada justifica o retrocesso à escuridão da ignorância. Além do caráter fortemente ideológico, somos ainda surpreendidos com cortes profundos nos últimos anos e que continua sendo apresentado para o orçamento de 2021 para a educação. Ou seja, tudo que já está ruim pode ainda ficar muito pior.

As universidades públicas brasileiras estão sendo sufocadas pelos enormes cortes de verbas. Assiste-se a uma clara tentativa de destruição das universidades públicas e da excelência acadêmica, por práticas crescentes que visam erodir da consciência coletiva da sociedade o importante papel transformador dessas instituições. Vemos com tristeza a autonomia das universidades sendo vilipendiada. Já se somam importantes universidades nas quais o atual governo tem imposto o reitor à sua comunidade, desconsiderando a tradição democrática construída com muito esforço por essas instituições desde o término da ditadura militar. Qual pode ser a intenção dessas ações além da destruição das universidades públicas no Brasil, um dos maiores patrimônios de nossa sociedade?

Não se faz uma grande nação sem ciência e educação. Não conseguiremos construir uma sociedade mais justa, inclusiva e rica para todos se nossa ciência e nossa educação forem sufocadas e estagnadas. É preciso avaliar que futuro a sociedade brasileira almeja. Continuar dilapidando os recursos naturais de nosso território para comprar a custos elevados novas tecnologias que são necessárias para o nosso bem-estar? O que fazer, quando não nos quiserem vender uma vacina, por exemplo, porque nós não teremos capacidade de produzi-la? Definitivamente, é urgente priorizar a produção e a apropriação do conhecimento por nossa sociedade; a ciência e a educação são os instrumentos cruciais para que as futuras gerações possam construir uma nação verdadeiramente soberana.

Não podemos compactuar com o estabelecimento do negacionismo científico na máquina estatal e com o desmonte de nossas instituições de pesquisa científica e agentes de fomento como vem ocorrendo no Brasil. A negação de evidências, da ciência e da educação pode comprometer o futuro do País por décadas. Independente de posições políticas, os ex-presidentes da Sociedade Brasileira de Genética se colocam de forma totalmente contrária a essa postura indigna do governo federal brasileiro. Se essas atitudes do governo federal, de negação da ciência, contra a educação, saúde, meio ambiente, etc., não correspondem a Crime de Responsabilidade, não sabemos o que pode ser. Temos que nos preparar para a reconstrução do País.

 

 

 

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