O movediço amparo das aspas

Jurandir Renovato é jornalista e editor executivo da Revista USP

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Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Todos nós possuímos um acervo pessoal de citações para usar em diferentes circunstâncias. São frases que lemos e ouvimos ao longo da vida e com as quais nos identificamos por este ou aquele motivo; algumas se modificaram com o tempo e pela memória, outras já foram assimiladas com defeito desde o início. Algumas atribuímos a pessoas erradas, ora de propósito, ora por ignorância; outras reduzimos ou adaptamos livremente. Elas servem aos mais variados propósitos: exemplificar, criticar, colorir, esclarecer. Às vezes, distorcer e confundir. Em pequenas doses funcionam muito bem e de modo geral não comprometem a boa saúde de uma conversa ou de um texto.

Nem todo mundo é moderado, no entanto. Seja na fala ou na escrita, os viciados em citações são verdadeiras metralhadoras deitando aspas como cartuchos de bala vazios nas fuças de quem lhes franqueia os ouvidos para escutar ou os olhos para ler. A diferença entre eles é o repertório. Enquanto alguns lançam mão de frases aparentemente mais elaboradas, agudas e originais, inclusive na língua em que foram produzidas, outros preferem a comodidade dos clichês, dos ditos populares e pensamentos de domínio público. Todos têm em comum o fato de raciocinarem pela cabeça dos outros. O tempo todo.

A literatura soube retratar muito bem essa disfunção. O Conselheiro Acácio, de Eça de Queirós, é um exemplo clássico do pedantismo acadêmico e da erudição vazia; já o companheiro de Dom Quixote, Sancho Pança, pode ser considerado o mais antigo ancestral de toda uma linhagem de tagarelas repetidores de provérbios e afins, que, no Brasil, tem seu representante mais bem-acabado no personagem Isaías, da peça Amor por anexins de Artur Azevedo.

A vida imita a arte – eis aí um clichê dos bons, fazer o quê? Assim, se perguntamos a um acaciano típico o que ele pensa sobre a situação política do país, por exemplo, ele logo sai com uma tirada de Maquiavel ou um excerto de Tocqueville, só para esquentar, e em seguida emenda uma versão resumida do Contrato social, sem esquecer da advertência de Rousseau, no livro terceiro, de que não conhece a arte de ser claro para quem não quer ser atento; um epígono do fiel escudeiro, por seu turno, diria que há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia (se for apolítico), ou que água mole em pedra dura tanto bate até que fura (se for de direita), apesar de ter certeza absoluta de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar (se for de esquerda), ou que, como Pôncio Pilatos, prefere lavar as mãos (se for liberal).

O principal problema com uma frase de efeito é que ela nem sempre alcança o efeito desejado. A primeira frase que decorei na vida foi de um romance de um escritor inglês, também ele, o romance, o primeiro livro “sério” que li na vida. E lá estava eu aos dez anos acompanhando minha avó Nina num velório da vizinhança (esse era um dos seus passeios prediletos), quando vejo uma senhora alta e magricela choramingando num canto da sala.

Como nessas visitas eu sempre procurava me manter a uma distância segura do caixão, nunca sabia dizer se o defunto era homem ou mulher, magro ou gordo, velho ou jovem. Mas naquele dia tive certeza de que a magricela era a viúva. Aproximei-me dela e mandei a cantilena: “É inútil lamentar o vaso quebrado quando todas as forças do universo se uniram para fazê-lo cair de suas mãos”.

A mulher parou de fungar por um instante e, curvando-se, lançou na minha direção – ou seja, abaixo da sua linha de cintura – um olhar que era uma mistura perfeita de estranhamento e repugnância, mais ou menos aquela expressão de quando estamos diante de uma coisa bizarra e desagradável, mas que não sabemos se é ou não contagiosa. Achei melhor me afastar. Se tivesse visto a cena, minha avó teria dito que em boca fechada não entra mosquito. E ela estaria com a razão.

Hoje, quando estou num elevador, a primeira coisa que faço é perguntar se vai chover. Aprendi que é sempre melhor falar o que as pessoas querem ouvir. Ninguém em momento de crise (ou de tédio) está muito disposto a refletir sobre uma frase bem construída, ainda menos se tiver algum conteúdo. Daí talvez o sucesso do discurso populista. Daí também o enorme sucesso da autoajuda.

A autoajuda eficiente é aquela que enxerga o ser humano e os problemas do ser humano pelo viés do lugar-comum. Quanto mais óbvio ele for melhor será a autoajuda. Só que o leitor não percebe e julga estar diante de algo novo e autoral, mas não porque se tenha conseguido revitalizar uma ideia batida e desse modo restabelecida sua expressividade original, como faz a literatura de Saramago, por exemplo. Longe disso! A autoajuda simplesmente se apodera do que não é seu e vende como se fosse.

Isso também acontece num certo tipo de música popular. Um motorista de táxi me disse outro dia que um verso da canção “Sorria, sorria” tinha mudado a sua vida. Fiquei curioso. O verso era “quem ri por último, ri melhor”. Veja bem: aquele motorista achava que a frase tinha sido criada pelo Evaldo Braga! Exatamente como na autoajuda. Quando um determinado autor diz que “o universo conspira a seu favor” é como se estivesse proferindo isso pela primeira vez. Pelo amor de Deus!

Por falar em Deus, da autoajuda para a religião é um trajeto bem curto, mas igualmente destacado com aspas. Também pudera, o terreno é fértil: Alcorão, Talmude, Novo Testamento, Velho Testamento, os Vedas e por aí vai. Como dizem os árabes, maktub! Mas os que mais gostam de fazer citações são mesmo os evangélicos. É até comovente vê-los tentando manter ainda o mesmo entusiasmo de quando Lutero verteu a Bíblia para uma língua moderna. A contradição é que o monge alemão traduziu as escrituras para que cada pessoa pudesse lê-las individualmente.

Seu Eulálio, professor de história aposentado e agnóstico de carteirinha que não saía da padaria, costumava dizer que a diferença entre os católicos e os protestantes consiste justamente no fato de estes últimos não terem preguiça de ler a Bíblia. E mesmo que eventualmente a deturpem ou a tomem em sentido literal, como no caso dos evangélicos (sejam pentecostais, neopentecostais ou mesmo não protestantes, como as testemunhas de Jeová), eles sempre trazem na ponta da língua um versículo apropriado para o momento. Os católicos, mesmo aqueles mais fervorosos, os beatos frequentadores da missa de domingo, de hóstia tomada e pecado absolvido, dificilmente têm essa disposição.

Seu Eulálio gostava de provocar seus amigos católicos afirmando ser por isso que a Igreja Apostólica Romana estava perdendo terreno para os templos evangélicos, os quais, segundo afirmava entre uma golada e outra na cerveja, proliferavam como ninhada de coelho. E mesmo nutrindo a mesma aversão tanto por padres quanto por pastores, insistia para que eles ficassem em pé de igualdade com seus rivais protestantes. Mas como ninguém lhe dava ouvidos, resolveu ele mesmo pôr em prática uma ideia um tanto perversa, de decorar trechos e mais trechos da Bíblia para poder confrontar os evangélicos.

Seu Eulálio queria vencê-los no próprio quintal. Então, se um crente lhe dizia, por exemplo, que “toda a Escritura é divinamente inspirada, 2 Timóteo 3:16”, ele imediatamente tascava: “O que digo não o digo segundo o Senhor, mas como por loucura, 2 Coríntios 11:17”. Ou quando o interlocutor, querendo cutucar os católicos, apelava para “não farás para ti imagem de escultura, Êxodo 20:4”, retrucava com “farás também dois querubins de ouro; de ouro batido os farás, Êxodo 25:18”.

E o embate seguia tarde adentro, pontuado por aspas bíblicas, garrafas de tubaína e cerveja. Ao português atrás do balcão, que mal lembrava das armas e barões assinalados, só interessava saber quem ia pagar a consumação, se o crente, o ateu ou se era para pôr tudo na conta do Senhor…

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