O mercado da saúde: precisamos de uma “engenharia médica”

Por Ronaldo de Breyne Salvagni, professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli-USP

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Ronaldo Salvagni – Foto: Divulgação via CEA Poli
Você já reparou que, com os avanços da ciência e da tecnologia, produtos e serviços ficam cada vez melhores e mais baratos, exceto na área médica? Remédios, exames, aparelhos, próteses podem ser melhores, mas são sempre mais caros que os anteriores. Os preços maiores sobrecarregam os sistemas públicos, estouram as planilhas dos planos de saúde e ficam cada vez menos acessíveis à maioria das pessoas. Por que isso acontece?

Antes de começar, é bom “despoluir” o assunto de algumas ideias abstrusas. Certos grupos costumam bradar o slogan “Saúde não é mercadoria” (também bradam “Educação não é mercadoria”, mas isso é outra conversa). Essa frase pode ser útil para escrever em faixas de manifestações políticas, mas não significa nada e apenas dificulta raciocinar claramente sobre o assunto.

O fato é que remédios, exames, aparelhos, próteses etc. têm custos e alguém vai pagar por eles. “Quem e como” é a questão.

O problema inicial está na área econômica, do que podemos chamar de “mercado de itens médicos”. Esse mercado tem características únicas, diferentes de outros mercados, e que impactam frontalmente o princípio fundamental que garante o funcionamento saudável dos demais mercados, tipo “ganha-ganha” por todos os envolvidos. Esse princípio é a lei da oferta e da procura, com concorrência efetiva e real de vários vendedores, e livre escolha real dos compradores/clientes. Essa lei é prejudicada pelas seguintes características do “mercado da saúde”:

  • o conceito de valor, impregnado pela ideia de que “saúde não tem preço”. É muito difícil para o comprador fazer uma escolha objetiva, se sua própria saúde está em jogo;
  • a participação de um terceiro elemento, além do vendedor/comprador: o médico. Não é um mercado de consumo, no qual o próprio comprador decide o que quer. É o médico quem decide do que o comprador precisa e, embora esteja pensando no melhor para o seu paciente, não é ele quem paga, e o preço/custo geralmente é um fator secundário. O comprador, em geral, não tem a livre escolha;
  • os vendedores sabem dessas características e, assim, sabem que a concorrência, se existir, pouco vai depender dos preços.

Para poder exercer sua livre escolha (talvez não tão livre assim), o paciente poderia solicitar ao médico várias alternativas de tratamento, com informações sobre as diferenças entre elas. Ou, também, consultar vários médicos (mais custos…) para eventualmente obter mais alternativas para escolher. Nada disso é o que normalmente ocorre.

Outro problema é o preço dos novos remédios, cada vez mais caros. As grandes empresas farmacêuticas justificam os preços pelos altos custos das pesquisas para desenvolvê-los. De fato, a área biológica é altamente complexa, e essas pesquisas ainda envolvem grandes doses de empirismo que encarecem em muito os processos. Os remédios para doenças menos comuns também tenderão a ser mais caros, pela menor possibilidade de se beneficiarem da economia de escala para amortizar esses custos de desenvolvimento. Porém, a pujança financeira visível dessas grandes empresas não parece indicar que os altos preços se devam apenas aos altos custos dos seus produtos…

Já exames (que envolvam equipamentos), aparelhos para tratamentos e próteses estão numa outra área, que não a biologia: a da engenharia. Vemos aparecer no mercado aparelhos e equipamentos cada vez mais sofisticados, cheios de recursos e enfeites, dando uma aparência de ficção científica futurista ao ambiente hospitalar. E caríssimos. Isso tudo é realmente necessário? Não poderíamos ter aparelhos alternativos mais baratos? Concorda-se que “saúde não tem preço”, mas isso não significa que não se deva buscar redução de custos, pesquisando e desenvolvendo produtos que tenham o mesmo desempenho (ou até melhor) com menor custo.

A atual pandemia da covid-19 tem mostrado que isso é possível. Universidades e centros de pesquisa do mundo todo, inclusive do Brasil, como a USP, pesquisaram e criaram ventiladores e respiradores de baixo custo e rápida fabricação, com a mesma eficiência e a um décimo do preço daqueles já existentes no mercado. Ainda, há pouco tempo, um grupo de pesquisadores da Poli/USP também projetou e construiu um dispositivo para diagnóstico por imagem que permite a visualização do interior do corpo humano, usando princípios de impedância elétrica. A teoria e os algoritmos envolvidos são altamente sofisticados, o resultado tem alta precisão, mas o dispositivo em si é simples e barato, muito mais que os aparelhos de diagnóstico por imagem atualmente no mercado, baseados em outros princípios.

Com isso, parece ser oportuna e necessária a criação de uma nova modalidade de engenharia: a “engenharia médica”, ou “engenharia da saúde”, para se dedicar a pesquisar e desenvolver esses equipamentos, dispositivos e próteses, com foco em mínimo custo sem perda de qualidade, tornando-os acessíveis a todos, pobres e ricos.

É o esforço pela vida, seria a “engenharia da vida”.

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