O fascismo na nossa cara

Por Eva Blay, Professora Emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 Publicado: 09/05/2022
Eva Blay – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Nos últimos quatro anos tornou-se ostensivo o desmonte da democracia no Brasil. Como um martelo que quebra estruturas aparentemente sólidas, instalou-se um processo tipicamente fascista. Através das palavras estão sendo inculcadas mentiras nos espíritos, falseiam-se valores, desvirtuam-se comportamentos. Victor Klemperer já mostrara em A Linguagem do Terceiro Reich como, através das palavras, se incutiram racismo, preconceitos, como se destruíra a história factual substituindo-a por uma “nova verdade”.

Ao mudar o sentido das palavras e repetindo-as inúmeras vezes, se inculcam deliberadamente novos sentidos. A repetição mecânica, milhares de vezes, acaba instalando um novo significado. O que se passou no fascismo e no nazismo estamos vendo acontecer diante de nossos olhos. Tomemos o caso do “kit gay”. Observem que nem precisamos explicar do que se trata, pois já ficou em nosso imaginário um apócrifo livro que o candidato que se elegeu presidente da República repetidamente apresentava e distorcia na televisão como sendo um método que pretendia “destruir a moral das crianças tornando-as homossexuais”.

Ora, na verdade, falsificava excelente livro de orientação sexual preparado pelo Ministério da Educação para jovens estudantes. Trabalho importante, cientificamente construído, didático, que tinha como objetivo orientar jovens à entrada na vida sexual cuidando para que não ficassem sujeitos a doenças sexualmente transmissíveis ou a gravidezes precoces. Uma falsa capa desse suposto livro passou a ser apresentada pelo então candidato à presidência da República como o “estimulante à sexualização e à homossexualidade das crianças”! A mentira repetidamente apresentada de forma escandalosa e descarada não encontrou uma resposta contundente e assim prevaleceu a versão falsificada.

Em uma sociedade conservadora, desprovida de informação, a falsificação proliferou e se mantém até hoje! Os resultados foram desastrosos: a educação sexual foi eliminada das escolas (sobretudo das públicas), cresceu a gravidez na adolescência, aumentaram as mortes de meninas que completamente sem orientação tentaram interromper a gravidez, cresceram exponencialmente os estupros e a violência contra aquelas crianças cuja sexualidade ainda despontava.

O caso citado não é aleatório, simboliza a destruição do trabalho científico. Ele revela a intenção de demolir um dos pilares da democracia, o sistema educacional público. Educação é saber, é ciência, é conhecimento crítico. Em seu lugar se propõe uma escola “sem ideologia”, em nome de “proteger” alunos e alunas; na verdade se deseja formatar jovens num modelo autoritário, obediente, usando como instrumento uma educação concorde com a família tradicional e conservadora subordinada a estritos preceitos religiosos. Coerentemente se instalou no Ministério da Educação presbíteros e não professores implantando nele uma orientação estritamente religiosa, mas atenção: não pluralista, uma vertente religiosa única e dogmática. Em lugar de uma escola pública para todos, propõe-se a educação domiciliar, controlada pela família, ou a educação militar, somada à difusão da propriedade privada de armas.

Cortam-se os cursos das ciências humanas, o pensamento crítico, e se difunde a proposta de um saber mecanicista perfeitamente de acordo com a paradoxalmente versão colonial da economia baseada no agronegócio exportador. O processo aqui analisado é persistente, se reescreve o passado. Assim o Ministério da Justiça reclassifica antigos filmes repentinamente considerados pedófilos; o governo não está preocupado com a pedofilia, mas procura desqualificar atores famosos politicamente oponentes. O esquema, como se vê, é o mesmo: distorce-se o conteúdo para criar uma versão midiática.

Criam-se inimigos seja o comunismo ou a “ideologia de gênero”. Em nome do controle do corpo, especialmente do corpo das mulheres, desqualificam-se todas as pesquisas, das mais variadas ciências. Excluir a condição de gênero não vai invalidar a composição genérica de nossas células, mas certamente vai atrasar as descobertas de medicamentos específicos para homens, mulheres, pessoas trans, entre outros.

Ao ignorar as relações sociais de gênero se ocultam as relações patriarcais, a discriminação sexual, racial e as raízes da violência. Assim, ao invés de analisar o crescimento dos homicídios de mulheres, sobretudo de mulheres negras (esses aumentaram 22% com relação às brancas – 2005 /2017, como mostra o Atlas da Violência de 2017), destrói-se a excelente Secretaria das Mulheres substituindo-a por um Ministério da Mulher voltado para perseguir aqueles profissionais que cumpriam a lei em casos de aborto com meninas estupradas.

Paradoxalmente se garante a versão colonial da economia, baseando-a no agronegócio exportador de produtos primários ao lado de uma população sem trabalho e totalmente concentrada em centros urbanos. Cresce o papel do Estado que financia o capital do agronegócio provocando uma profunda contradição entre os segmentos exportadores e o resto da população desprovida de qualificação e emprego, que só consegue sobreviver via comercialização de bens que entram ilegalmente no País ou, por outro lado, se autoempresariando (30,5% dos jovens de 15 a 24 anos estão desempregados; na população em geral, o índice de desemprego é de 12,9%).

Não é preciso repetir a extraordinária concentração da renda e a pobreza da população. Sair do impasse só será possível se mudarmos essa estrutura e garantirmos a igualdade de oportunidades para todos e todas na educação, no trabalho, nos direitos reprodutivos. O caminho é desmascarar e superar os obstáculos alimentados pelo fascismo e pelo nazismo aqui instalados. O alerta deve ser exposto em todos campos. Não podemos cair novamente na carência de respostas. É fundamental recuperar o valor da ciência, do saber crítico, da democracia.

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