O discurso presidencial

Por Lineide Salvador Mosca, professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP

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Lineide do Lago Salvador Mosca – Foto: Arquivo pessoal
Os sucessivos pronunciamentos do presidente denotam ausência de argumentação dialógica, que é um modo de gestão discursiva do desacordo e do conflito. Falta a ele o exercício do diálogo, em que várias vozes se cruzam e em que a voz única é expressão de autoritarismo. Os seus destinatários não são a gama variada da população do país, seu discurso destinando-se àqueles que o endossam e em que os demais figuram como adversários e até mesmo como inimigos.

Não se pode esquecer o valor simbólico das palavras dos governantes, tanto no cenário nacional como internacional, onde tudo funciona de modo interdependente. Na gestão dos interesses e das diferenças de opinião reside o papel diplomático do líder em nossos dias, a fim de promover confluências e soluções, a ele cabendo um papel decisório na condução das razões de Estado, respeitadas todas as instâncias que constituem os poderes. Do estadista espera-se uma posição que envolva credibilidade e confiança, o que exige maleabilidade, numa esfera de interação, mesmo diante do confronto e do dissenso. O que se busca é a convivência possível num cenário de diversidade e de respeito a todas as posições. A ele cabe, pois, moderação e certa contenção em nome dessa convivência, quando os ânimos se acirram.

As duas vozes básicas a conduzir esse processo são exercidas pela ciência e pela política, esta encarada como o bem comum, em seu sentido original, aquela que representa o ethos coletivo. A noção de ethos, que vem da retórica antiga, apresenta-se como o modo de o orador se comportar em seu discurso, em sua fala e o que revela ao exprimir-se por esse meio. Quando não ocorre a projeção de uma imagem favorável de si mesmo, há que consertá-la a todo momento, com reformulações, autocorreções, explicações e justificativas, o que já denota a falência dos argumentos apresentados.

Dentro desse quadro, quando se anuncia um pronunciamento do chefe da nação, espera-se um ato comunicativo solene e que represente a voz mais ampla da população. Não é isso, entretanto, o que tem ocorrido. O que aflora é o domínio das paixões, como o repúdio, a raiva. A pergunta mais frequente que se ouve a respeito é: “o que vem por aí? qual a próxima?”. Tem-se um número enorme de distorções e falácias, advindas do mau manejo das frases, do léxico injurioso e das figuras retóricas de nível rude, que se afastam bastante daquilo que se consideravam na Antiguidade as qualidades do bom orador: clareza, concisão, propriedade e adequação, entre outras. Não basta dizer “sou flexível”, “não sou autoritário” quando as atitudes não correspondem ao dizer e não produzem o efeito que se enuncia.

Nos pronunciamentos presidenciais, sejam quais forem as circunstâncias, há certa ritualização, com procedimentos já consagrados nos grandes discursos e falas institucionais, passando-se por diversos registros, do mais formal ao desenvolto, sem resvalar, no entanto, para o insulto e as ofensas em geral. Há também toda uma tradição, como a que ocorre nos discursos da ONU, desde a sua criação em 1945, após o término da Segunda Guerra Mundial, com o intuito de evitar novo conflito. É conhecida e reconhecida a atuação do Brasil diante do privilégio que este tem ao lhe ser atribuído o discurso de abertura do conclave, por ter sido o primeiro país a aderir a esta nova organização. Causa, pois, espanto e decepção qualquer afastamento do que se espera do país em tão importante ocasião.

Entram também as regras de polidez, vigentes na comunidade, não se podendo dizer o que se quer e como se quer em quaisquer circunstâncias, sob pena de se cometer um ato de grosseria e de ser considerado tosco, até mesmo pelas pessoas mais simples. O mitigar o confronto e amenizar as afrontas deveriam estar à frente das atitudes presidenciais.

Entra aqui a relação com a imprensa, uma importante voz nesse contexto, à qual cabe a apuração dos dados, a informação, que possibilitarão o trabalho interpretativo à população em geral, não só aos especialistas. Nosso presidente é versado em cortar a palavra aos jornalistas, não lhes dando oportunidade de fazer as perturbadoras e temidas questões. Dizer que se trata de um tom e estilos próprios não resolve a situação. O baixo calão na linguagem não é bem-vindo e muito menos as esquisitices escatológicas, lembrando que estas se referem a expressões, ditos, anedotas, pilhérias, orais ou escritas, que giram em torno da noção de fezes e outras afins. A etimologia aponta que skatos, do grego, remonta a “excrementos” (ex. “porrada”, “ejaculação precoce”, “cocô” e outras). Essas só servem para gerar chacota e desprestígio, explorados abundantemente pelos cartunistas e articulistas de humor.

O sistema democrático nos coloca diante dessas situações por vezes aberrantes, que incluem as meias-verdades, as falsidades, a hipocrisia, os enganos e os equívocos, mas nos cabe encará-las e não deixar que estratégias diversionistas retirem o foco das questões vitais. Nisso reside a ética dos valores e dos princípios que aprimoram a espécie humana e que constituem o sistema de valores válidos naquela comunidade. Temos que esperar por melhores tempos diante do que estamos vivenciando, uma vez que a democracia tem um custo alto e caminha muitas vezes à revelia dela mesma. Por outro lado, ela é um antídoto à violência crescente em nossos dias. É quase impossível detectar todas as contradições, mas cabe apontá-las à população e trazer reflexões que minimizem esse estado lamentável de coisas. Que a virulência ceda lugar ao entendimento e que se possa contribuir para o aperfeiçoamento da espécie humana.

 

 

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