O desgaste de termos como “empoderamento” e “protagonismo”

Ricardo Alexino Ferreira é professor associado (livre-docente) da ECA e membro da Comissão de Direitos Humanos da USP

Por - Editorias: Artigos
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Ricardo Alexino Ferreira – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Com o agendamento das questões das diversidades, algumas palavras têm sido amplamente divulgadas nas falas e textos. Porém, o uso excessivo delas tem provocado desgastes consideráveis e esvaziamentos de sentidos. É o caso de palavras como empoderamento, protagonismo, lugar de fala e várias outras.

Muitas dessas palavras saem do âmbito de busca da diversidade e alteridade para se tornarem ditaduras e silenciamentos. A terminologia lugar de fala é uma delas, em que alguns segmentos legitimam que somente os seus grupos podem falar sobre determinados temas, como é o caso do feminismo desenvolvido por mulheres mais jovens e despojados de contextos históricos. Muitas vezes esses discursos preconizam que somente mulheres podem falar sobre mulheres.

Esse tipo de feminismo não faz distinção dos diferentes tipos de mulheres e as suas interseções (feminismo intersecional). Ao evocar lugar de fala essas mulheres não explicam que existem diferenças imensas entre mulheres negras, indígenas, asiáticas e brancas nos diferentes contextos sociais. Se o lugar de fala somente pode ser evocado por mulheres, é possível, então, uma mulher branca e burguesa falar sobre a realidade de outras mulheres não brancas e não burguesas?

No entanto, a expressão lugar de fala é colocada quase como um mantra, totalmente esvaziado de sentido e o tempo todo evocado em falas, por vezes raivosas, implicando em cassação da palavra do outro.

Outro termo é empoderamento. Ele surge dentro do contexto dos anos 1960, na fase do movimento da contracultura ou movimento hippie, ao se falar do poder negro (black power), do poder feminista e do poder gay. Ao adentrar o final dos anos 90 e as primeiras décadas do século 21, o termo poder dá lugar a empoderamento.

Com o agendamento das questões das diversidades, algumas palavras têm sido amplamente divulgadas nas falas e textos. Porém, o uso excessivo delas tem provocado desgastes consideráveis e esvaziamentos de sentidos. É o caso de palavras como empoderamento, protagonismo, lugar de fala e várias outras.

A palavra empoderamento, amplamente utilizada na atualidade, foi perdendo a força a partir do momento em que ela se torna sinônimo de monossemia, em que apenas o grupo pode falar sobre si mesmo e tem poderes sobre os demais. Assim, muito menos do que uma construção interna de fortalecimento endo-cultural-político. A palavra passou a ter o sentido da ideia de posse e subjugação do outro. Empoderar-se passou a ser não o autoconhecimento e fortalecimento existencial do grupo, mas a imposição exterior sobre qualquer outro.

O termo protagonismo também está nesse tipo de atuação. Surgiu nos anos 60 com o princípio de fazer com que a narrativa histórica fosse construída pelos grupos  sócio-acêntricos; ou seja, por aqueles grupos com poucas representações sociais e políticas, independentemente da quantidade.

Nesse sentido, havia necessidade interdisciplinar de buscar na Nova História Francesa de Le Goff e Peter Burke outros elementos na composição histórica, como a antropologia. No jornalismo, as narrativas e memórias passam a ser valorizadas e personagens até então considerados secundários passam a protagonizar as narrativas.

Edvaldo Pereira Lima, no livro Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão da literatura e do jornalismo, aponta que nesse gênero de jornalismo novas histórias são contadas a partir de novos referenciais e novas vozes. É o momento em que se tem a polissemia e a possibilidade de vozes, por vezes divergentes, protagonizando novas narrativas.

Porém, o termo protagonismo na atualidade começou a sofrer desgaste considerável, sendo usado de forma aleatória e constante. De discurso polissêmico passou a ser monossêmico, quando não um monólogo.

Em dado momento, os termos que destacavam as diversidades passaram a ser usados até mesmo por aqueles que oprimiam os segmentos sócio-acêntricos. Assim, os termos foram sendo poluídos e hoje já carecem de sentidos históricos, culturais e sociais.

Pesquisando há algumas décadas as questões das diversidades e suas interseções com a comunicação midiática, tenho verificado transformações importantes nas questões dos grupos sócio-acêntricos. Da minha pesquisa de mestrado A representação do negro em jornais no centenário da abolição da escravatura no Brasil (1993), que faz análise de conteúdo de matérias que abordavam a questão do negro, em 1988; passando pela minha pesquisa de doutorado Olhares negros: estudo da percepção crítica de afro-descendentes sobre a imprensa e outros meios de comunicação (2001), que faz análise dos estudos de recepção e a fala de comunicadores negros sobre a comunicação, e chegando à minha pesquisa de livre-docência Os critérios de noticiabilidade da mídia impressa na cobertura de grupos sócio-acêntricos em abordagem etnomidialógica (2011), em que se busca na construção do termo Etnomidialogia entender a diversidade na contemporaneidade e nessas primeiras décadas do século 21, é possível perceber que mudanças estão ocorrendo de forma surpreendente, mas não paradigmáticas.

Compassos e descompassos das terminologias e suas apropriações: o papel da mídia

Desde o final dos anos 1980 a mídia brasileira vem se deparando com a complexidade da cobertura jornalística dos grupos sócio-acêntricos. Esse fenômeno já tinha sido observado em minha pesquisa de mestrado A representação do negro em jornais no centenário da abolição da escravatura no Brasil, financiada pelo CNPq e desenvolvida na ECA-USP, que prenunciava que o agendamento da mídia nos anos 1990 envolveria a questão da diversidade.

A partir daquele momento observava-se o surgimento dos neocidadãos midiáticos (afro-brasileiros, homossexuais, mulheres, idosos e outros grupos), que traziam questões de comportamento e cidadania no contexto da mídia, ou seja, de protagonização. Esse fenômeno dos movimentos sociais impulsionou a formulação de leis no Legislativo e as suas promulgações pelo Executivo, gerando projetos governamentais nesse sentido.

O termo protagonismo também está nesse tipo de atuação. Surgiu nos anos 60 com o princípio de fazer com que a narrativa histórica fosse construída pelos grupos  sócio-acêntricos; ou seja, por aqueles grupos com poucas representações sociais e políticas, independentemente da quantidade.

É interessante observar que desde a segunda metade do século XIX o negro, por exemplo, estava presente como informação nos jornais da época. Mas as coberturas nos jornais não o colocavam como sujeito, apenas como objeto que justificava o status quo da época. Era visto como vilão, quando se rebelava em sua situação de escravizado, ou como o bom escravo ou o bom liberto, quando aceitava resignadamente a sua sina.

Já o afro-brasileiro do final dos anos 1980 e décadas posteriores é retratado com outras angulações na mídia, fruto do crescimento dos movimentos sociais em decorrência da democratização do País. Outros grupos também começaram a ter expressões político-sociais mais enfáticas, tais como o segmento LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros) e vários outros. Esse fenômeno foi observado na pesquisa Olhares negros: estudo da percepção crítica de afro-descendentes sobre a imprensa e outros meios de comunicação, também desenvolvida na ECA-USP e financiada pelo CNPq.

No processo de desenvolvimento das pesquisas realizadas, à medida que os segmentos étnico-sociais vão tendo outras expressões político-sociais, há uma mudança também nas terminologias. Observo que os termos vão tendo outros significados à medida que os fenômenos sociais vão se transformando. Esse é o caso do conjunto de termos (minorias; minorizados e sócio-acêntricos) que é apresentado nas pesquisas de comunicação e não podem ser visto como sinônimos.

Por exemplo, na contemporaneidade o termo minorias é impreciso, considerando que equivocadamente se associa a quantidade, apesar de amplamente utilizado na sociologia como sendo os segmentos com limitadas representações política e social. O termo minorizados induz a pensar a diversidade no campo da marginalidade social, quando pesquisas econômicas apontam que os grupos da diversidade têm tido um significativo avanço econômico.

Pelos motivos apresentados, passei a usar epistemologicamente o termo sócio-acêntricos para me referir aos segmentos étnico-sociais, considerando que são grupos que podem ser melhor entendidos no contexto da neocidadania. Todas essas mudanças levaram a repensar o conjunto histórico dos estudos da diversidade na comunicação e os avanços e involuções da mídia na cobertura dos fenômenos étnico-sociais.

Essas questões foram levantadas na pesquisa de livre-docência Os critérios de noticiabilidade da mídia impressa na cobertura de grupos sócio-acêntricos em abordagem etnomidialógica. Nesse estudo, destaco o termo Etnomidialogia, que entendo como um campo teórico do estudo da diversidade na comunicação midiática e como uma área da Midialogia Científica.

De oprimido a opressor

Ao se observar as terminologias, fazendo contraponto com a imprensa e alguns movimentos sociais, há descompassos. Verificam-se evoluções, involuções e desgastes de termos. As excessivas segmentações enunciam que cada grupo busca a sua identidade, porém observa-se que a segmentação também vai gerando cada vez mais individualidades.

Um desses segmentos é o LGBT. Atualmente ainda podem ser incluídos na sigla o “Q” (de queer); o “A” (de assexuais) e o “I” (de intersexuais). Cada letra garante um universo bastante diferente um do outro apenas unido pela sigla, que hoje é LGBTQAI (ou LGBT+).

Outros grupos também começaram a ter expressões político-sociais mais enfáticas, tais como o segmento LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros) e vários outros. Esse fenômeno foi observado na pesquisa Olhares negros: estudo da percepção crítica de afro-descendentes sobre a imprensa e outros meios de comunicação, também desenvolvida na ECA-USP e financiada pelo CNPq.

Diferentemente, no feminismo, alguns segmentos, como o radical, consideram as mulheres de forma monolítica. Inclusive utilizando-se o slogan mexeu com uma, mexeu com todas, dando a entender que todas as mulheres estão juntas em uma única causa. Mas em qual causa? Por que pouco se fala nesse contexto dos estupros e violências sofridos pelas mulheres indígenas? Por qual motivo se fala tão pouco da exploração do trabalho doméstico das mulheres negras?

Portanto, observa-se que as terminologias como empoderamento, lugar de fala e protagonismo aos poucos passaram a ser usadas pelos grupos com poderes aquisitivos e de domínio e não de libertação dos grupos discriminados. Aquilo que pode ser chamado de apropriação.

Está na hora dos movimentos sociais repensarem os seus papéis e os seus vazios semânticos, muitas vezes aproximados dos interesses capitalistas e de mercado. Nesse sentido, concordo quando Marilena Chauí diz que, no caso das mulheres, a entrada no mercado de trabalho em uma sociedade capitalista é legítima. Porém, o erro da mulher foi entrar nesse mercado para ser explorada até mais do que o homem e não para modificar as relações de trabalho.

O mesmo também caberia em relação às uniões homoafetivas. Luta-se para ter o direito legítimo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Porém, o segmento não tem lutado para modificar a decadente fórmula heteronormativa de relações conjugais. Talvez o maior desafio dos grupos da diversidade seja quebrar o mimetismo das fórmulas tradicionais e conservadoras e edificar novos paradigmas.

 

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