O anjo da história ainda está entre nós

Por Alecsandra Matias de Oliveira, pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes e membro da ABCA

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=267646

Alecsandra M. de Oliveira – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Essa tempestade o leva irresistivelmente para o futuro, para o qual dá as costas, enquanto o monte de detritos a seus pés chega aos céus. Essa tempestade é o que chamamos de progresso

(Walter Benjamin)

 

Angelus novus, 1920, desenhado por Paul Klee e descrito por Walter Benjamin, na nona tese do seu ensaio Sobre o conceito de história, é uma das alegorias usadas para a compreensão da modernidade. O anjo da história, que nos é colocado pelo filósofo, gostaria de acomodar os mortos e juntar os fragmentos, porém é impelido a seguir em frente, empurrado pela tempestade (o progresso). Dentro do nevoeiro, de Guilherme Wisnik (Ubu Editora, 2018), trata sobre as novas condições desse anjo. Na sua releitura atualíssima da alegoria, o enfrentamento não se dá com a tempestade, mas sim com o nevoeiro. E mais, o autor e os leitores estão dentro desse nevoeiro. Estamos “dentro do tempo contemporâneo”, envoltos pela névoa, fumaça ou embaçamento que encobre um mundo que se diz “transparente e verdadeiro”. “Somos cegos de tanto ver.” Para nos guiar pela era da incerteza, Wisnik convoca a arquitetura. É através dela que discutimos os acontecimentos históricos, as transformações tecnológicas e as reviravoltas nas artes visuais.

Dono de um discurso denso e repleto de referências diversas (e, às vezes, difíceis), Wisnik regressa à modernidade para nos lançar ao contemporâneo; ele nos reconta eventos definidores do contemporâneo, como, por exemplo, a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, a dissolução da União Soviética, o desastre de Chernobyl e o 11 de Setembro – episódios que muitos dos seus leitores (como eu) podem ter vivido, mas não com a lucidez que emerge de sua escrita. O distanciamento dado pelo tempo daria margem ao dom da concatenação? Sim e não! Sim, porque já se vão quase 30 anos destes acontecimentos que redirecionaram os paradigmas econômicos, sociais e políticos do mundo. Diga-se ainda que o conceito de “fim da história” – quando achamos que tínhamos perdido o anjo – tornou-se uma cortina de fumaça, uma vez que esse conceito é revisto pelos olhos de quem já atravessou as turbulências dos anos de 1990 e 2000. E não, porque estamos imersos na névoa – vivemos mais e mais com pouca clareza. As incertezas nos arrebatam. Os desdobramentos de cada um desses momentos históricos estão em andamento, sem qualquer rumo previsível.

Essa falta de nitidez (ou baixa definição, tida como sinônimo de opacidade) nos joga para outra metáfora-eixo do livro: a nuvem, particularmente as digitais e as de capitais – as que parecem estar em qualquer lugar e, simultaneamente, em lugar nenhum. As clouds correspondem ao impalpável e constante movimento de capitais e de informações pelo ciberespaço. Hoje, o que se sabe é que existe uma situação de borramento dos limites entre o mundo real e o virtual, nos tornamos “carne e conexão”, então, o que acontece no virtual ressoa no real e a recíproca é verdadeira. Como não temos um mercado real, vivemos regrados por apostas que se realizam num regime estrutural de incertezas. O êxito financeiro depende da habilidade de antecipar expectativas e não mais da detenção dos meios de produção – aspecto tão relevante nos séculos XIX e XX. A sociedade disciplinar de Foucault foi substituída pela do desempenho, gerando fracassados e depressivos.

No campo das artes visuais, vemos as ressonâncias e os reveses de um mundo em transformação. Pensar a oposição entre as poéticas de Picasso e Marcel Duchamp é exercício de reflexão fascinante – a noção de retarde em vidro pensada por Duchamp, especialmente na obra A noiva despida por seus celibatários, mesmo (1915-23), torna-se o centro do problema do tempo contemporâneo, isso porque é o retardamento da significação. Os trabalhos duchampianos não são o visível da imagem. Eles são, sobretudo, a zona invisível nela contida – uma reflexão sobre a imagem. Outras obras de artistas nacionais e internacionais permeiam a narrativa de De dentro do nevoeiro, tais como as de Laura Vinci, Christo e Jeanne-Claude, Nuno Ramos, Rosangela Rennó, Cildo Meireles, Joseph Beuys, Olafur Eliasson, entre outros – e aos leitores acostumados à crítica de arte, como é diverso perceber a profunda interação dessas obras com as arquiteturas que as circundam, não? Em todas elas, a metáfora da névoa, da neblina, da opacidade se faz presente.

Dessas intercessões pelas artes visuais e pelas mudanças tecnológicas, Wisnik enfatiza as vertentes arquitetônicas; as linhas de atuação dos principais escritórios de arquitetura (SANAA, Herzog & de Meuron, entre outros); os edifícios icônicos da modernidade e da contemporaneidade (aqui destaque para Le Corbusier versus Gropius); as construções mediadas por escolhas de materiais (o vidro, por exemplo) ou por suas decisões oscilantes entre transparência e opacidade; os processos de construção, gentrificação, poluição, normalização da violência e renovação das cidades.

Por fim, em Dentro do nevoeiro as interações entre arquitetura, artes visuais e tecnologia desvelam as faces do contemporâneo, tendo a arquitetura (principalmente a partir dos anos de 1970) como linha de orientação. Por todos os fatores levantados na narrativa, vê-se que as metáforas da névoa, neblina e nuvem assumem perspectivas positivas e negativas no mundo atual. O livro auxilia-nos na tarefa malograda do anjo da história: o obstinado esforço de juntar e rejuntar os fragmentos.

 

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