O agro em fevereiro: alguns efeitos do coronavírus podem ajudar exportações

Por Marcos Fava Neves, professor titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo

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Marcos Fava Neves – Foto: Arquivo Pessoal
Nossa análise deste mês fica mais focada no assunto do momento, a crise do coronavírus, fato dominante na economia e no agro. A OCDE tem visão bem pessimista para a crise do coronavírus. Acredita que o crescimento mundial deve cair para 2,4%, o menor desde 2009. Em 2021, voltaria a crescer 3,3%, desde que a epidemia seja controlada. Caso o vírus se espalhe mais rapidamente e aumente seus danos, o número pode recuar para 1,5%. A queda é puxada principalmente pela China, que veria seu crescimento em apenas 4,9%. Voltaria a crescer 6,4% em 2021. Para o Brasil a OCDE estima o crescimento em 1,7%. Em fevereiro, segundo pesquisa da Caixin/Markit, o índice de atividade industrial na China caiu 25% principalmente com as restrições de viagens e de produção, devido à queda de encomendas e fechamento de fábricas.

Além desse menor crescimento e provável menor consumo, o efeito disso para o agro foi que o coronavírus impactou negativamente nos preços internacionais de algumas commodities. De acordo com o Valor Data, em fevereiro, a soja caiu 3,6%, o milho 2,5% e o algodão 4,5%.

Mas tem alguns aspectos que podem trazer até impacto positivo nas exportações em breve, que gostaria também de levantar. As limitações impostas à circulação de mercadorias na China devido ao coronavírus prejudicaram as produções locais de frangos e de suínos. Ainda não se tem mais informações sobre a magnitude do problema, mas, somado à crise da peste suína africana, esse fato pode ter afetado a oferta chinesa negativamente, tendo consumido estoques e acendendo o sinal para voltar a importar mais.

Do lado da demanda (comportamental), duas questões que havia levantado aqui no artigo de janeiro se verificaram. A primeira percebemos com a pesquisa feita em mil lares pela multinacional Kantar, na China, que mostra os impactos no comportamento com a crise do coronavírus. Foram submetidas 24 categorias de produtos e serviços e os respondentes tinham de dizer se aumentaram, reduziram ou mantiveram os gastos e o que pretendem fazer quando voltarem à rotina. Como era de se esperar, o setor de serviços, principalmente entretenimento e turismo, sofreu queda de mais de 75%, bem como cosméticos e vestuário (ao redor de 60%). Os gastos com alimentos e bebidas cresceram em 40%. As plataformas de comércio eletrônico foram as mais usadas neste período para as entregas. Outro dado relevante ao agro é que, em 28% dos lares, tempo adicional foi usado para cozinhar mais.

Oitenta e quatro por cento dos lares compraram produtos on-line de forma inédita. Ao retomarem à vida normal, todos os setores devem ter crescimento, praticamente para os níveis anteriores à crise. Em 65% dos lares, os restaurantes serão o primeiro alvo pós “liberdade”. Ou seja, o alimento não foi cortado, e em alguns casos até houve aumento de consumo, o que pode estimular um quadro de aumento de importações.

Outro ponto que levantei em janeiro como hipótese de comportamento que se verificou foi a mudança de hábito de consumo desses produtos exóticos (morcegos, cobras e outros) para carnes tradicionais e mais seguras. Aparentemente isso pode ocorrer inclusive via exigência governamental na China, descolando demanda e abrindo espaço para mais importações. Temos que verificar essa hipótese com mais calma, mas acredito que ocorrerá.

E também não desprezar a força dos governos mundiais reduzindo juros (inclusive no Brasil deve cair mais) e estimulando a retomada da economia.

Do lado sul do planeta, o governo argentino irá aumentar as tarifas de exportação sobre a soja de 30% para 33%. A Argentina tem 6% das exportações mundiais. Volta-se a uma medida que se mostrou inadequada no passado.

No Brasil o mais recente Boletim Focus traz o IPCA em 3,19% neste final de ano e 3,75% no final de 2021. O PIB fica em 2,17% (2020) e 2,5% (2021), o câmbio em R$/US$ 4,20 (2020) e R$/US$ 4,15 (2021) e a taxa Selic fecha 2020 em 4,25% e 2021 com 5,75%.

Sobre a nossa safra, o clima está ajudando e de acordo com o boletim de fevereiro da Conab, a produção esperada de grãos para o período 2019/20 será de 251,1 milhões de toneladas, incremento de 3,8% em relação à anterior, totalizando 9,1 milhões de toneladas a mais. Para a área cultivada, a estimativa é de 64,8 milhões de hectares, 2,5% superior ao ciclo passado. Área com algodão deve crescer 5,3%, e com soja, 2,6%. O milho primeira safra deve aumentar sua área em 3,4% (4,25 milhões de hectares) devido às boas cotações, produzindo 26,1 milhões de toneladas, enquanto que, na segunda safra, são esperados 73,2 milhões de toneladas e na terceira safra, 1,16 milhão de toneladas, totalizando 100,5 milhões de toneladas, 0,4% superior à safra 2018/19.

As exportações do agro brasileiro somaram US$ 5,83 bilhões em janeiro de 2020, caindo 9,4% com relação ao período anterior (US$ 6,43 bilhões), segundo dados do Mapa. As vendas de carnes se mantiveram em níveis elevados, atingindo US$ 1,35 bilhão, crescimento de 30,9%; carne bovina vendeu US$ 631,5 milhões (+38,1%); carne de frango, US$ 522,0 milhões (+17,0%); e carne suína, US$ 163,30 milhões (+79,9%). Produtos florestais tiveram redução de 33,8% chegando a US$ 947,38 milhões; o complexo soja caiu 30,9% com valor de US$ 878,46 milhões; o complexo sucroalcooleiro cresceu em 44,1%, atingindo US$ 514,49 milhões.

Vale destacar as vendas de algodão que cresceram 144,2%, chegando à cifra de US$ 484,80 milhões. As importações do agro totalizaram US$ 1,24 bilhão, o que equivale a uma redução de 1,6%, deixando o Brasil com saldo positivo de US$ 4,61 bilhões na balança. Em janeiro, a China comprou US$ 1,510, praticamente 26% do total exportado pelo Brasil. Penso que teremos queda do primeiro trimestre do ano e forte recuperação no segundo.

Boas notícias com os preços do frete caindo de R$ 250 a R$ 300 por tonelada de grãos para cerca de R$ 200 com a pavimentação da BR 163. Segundo a ANT, em 2019 o fluxo médio foi de 2.500 caminhões por dia.

Para fechar, é importante monitorar de perto as PECs que caminham no Senado e na Câmara de se tributar com ICMS as exportações de produtos primários e semielaborados. As perdas com essas medidas seriam grandes no médio e longo prazo, diminuindo as exportações do Brasil. Fora as inseguranças jurídicas e consequentemente de investimentos que as mesmas geram. Precisam sair de pauta rapidamente e nos preocuparmos com o que interessa neste momento: reforma administrativa e reforma tributária. Ambas na direção de um Estado menor e um indivíduo mais empreendedor.

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