Novos rumos de “Revisão nas falas”: quem não lê, não escreve

Mario Fanucchi é professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

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Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Neste domingo, li uma notícia, dessas que só podem surpreender agradavelmente: “Troca-se serviço doméstico por leitura”. Ideia: atrizes da Coletiva Elas leem para mulheres, enquanto estas lavam e cozinham de graça! Trata-se de um projeto em execução desde o ano passado e merece toda a atenção pelo que representa de conteúdo humano, educativo e, sobretudo, inovador. Isso, se não levarmos em conta, ainda, o eventual efeito multiplicador do relacionamento entre mulheres de diferentes níveis intelectuais, sociais e, sobretudo, opcionais quanto a oportunidades.

Imagine-se o desdobramento da troca de opiniões sobre o dia a dia de ambas – os problemas individuais e familiares sempre presentes -, a permuta de apoio, de generosidade e respeito. Quem ganhará mais? A leitora ou a ouvinte?  Esta, esforçando-se para escutar com atenção; aquela, com a missão de ganhar confiança e deixar a outra à vontade.

E, quanto ao método, com que frequência essa convivência irá ocorrer? Haverá uma regra geral para o relacionamento funcionar a contento? Diante das experiências ora  concluídas ou em andamento, já seria possível tirar conclusões?

O importante é analisar todos os aspectos do projeto e divulgá-los.  Por exemplo: os ganhos adicionais das participantes, em termos de algo palpável – como a ajuda nas lides domésticas de uma e a evolução intelectual de outra -, além do incalculável benefício para ambas em termos de relacionamento humano.
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Neste domingo, li uma notícia, dessas que só podem surpreender agradavelmente: “Troca-se serviço doméstico por leitura”. Ideia: atrizes da Coletiva Elas leem para mulheres, enquanto estas lavam e cozinham de graça!

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Qual o significado desse processo para a mulher habituada tão somente com os trabalhos domésticos, supostamente sem valor, ao ver-se diante de uma nova perspectiva, sentir-se útil de uma forma inesperada e ainda encontrar uma recompensa espiritual com que jamais sonhara? (Obviamente, ninguém participaria de tal empresa senão por vontade própria.) Por outro lado, a outra mulher, além de ganhar mais tempo para sua atividade intelectual e artística, veria realizado o desejo de se livrar de parte de seu papel de dona de casa! (Que não se despreze o bem que lhe faria a nova amizade.)

Diante do quadro que se vislumbra, é possível imaginar que esta é uma  fórmula digna de ser estimulada. Uma vez aceita a máxima Quem não lê não escreve, a troca proposta pela Coletiva Elas reúne todos os elementos para obter resultados surpreendentes. Mas devemos admitir que a tarefa não é fácil. O empenho das pessoas envolvidas, tanto no aspecto de fidelidade aos objetivos como de persistência para obtê-los, é fundamental.

Na busca constante de meios para estimular o desenvolvimento da linguagem falada ou escrita, essencial ao progresso, é estimulante contarmos com ideias como a que comentamos.

Comentário: A matéria, assinada por Isabela Palhares, que motivou este artigo, foi publicada em O Estado de S. Paulo, à página A20, em 20/5/2018.
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