Novos rumos de “Revisão nas falas”: O dia em que “A voz do Brasil” parou

Mario Fanucchi é professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Por - Editorias: Artigos
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Mario Fanucchi – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Pensei muito antes de escrever este artigo. Na verdade, é um depoimento sobre um assunto ora em pauta: a nova regulamentação de A Voz do Brasil, noticioso radiofônico oficial, em rede pelas rádios brasileiras.  Criado no governo de Getúlio Vargas, como Hora do Brasil, concebido e executado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) – assim mesmo, ao pé da letra, significando, em tese, censura para a imprensa e propaganda aberta do Estado Novo. O tempo passou, a radiofonia mudou, veio a democracia, que sumiu por algum tempo, e, mais adiante, voltou à tona, até a rede oficial ficar sob a tutela dos Três Poderes. O que se pretende, agora, é permitir um uso mais flexível da atual A Voz do Brasil. E é exatamente neste momento que devemos refletir sobre o efeito das mudanças que poderão ocorrer com esse veículo, no panorama dos meios de comunicação. O fator obrigatoriedade, tido como básico, poderá levar o editor de radiojornalismo a ter de decidir se deve entrar e manter-se em rede com A Voz do Brasil… ou cumprir o dever de bem-informar. Essa hipótese deve ter afligido muitos editores, em diferentes circunstâncias que os colocaram em xeque. Não retransmitir A Voz do Brasil era um dos quesitos que motivavam punições do Dentel (órgão fiscalizador do Ministério das Comunicações, como o conheci, na década de 1970). As milhares de emissoras de AM e FM, em todo o País, experimentavam sobressaltos com interpelações da fiscalização sobre falhas, quase sempre justificadas pelas interrupções verdadeiras (e, às vezes, não) de fornecimento de energia. Mas tal argumento era analisado com rigor, muitas vezes gerando punições ainda mais severas. Era um pecado tão grande quanto deixar de gravar todos os programas no ar, usando o famigerado gravador de fita com velocidade reduzida, pesadelo dos técnicos de manutenção. O risco de perder o prefixo era uma preocupação constante da administração das rádios, principalmente as do interior.
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Pensei muito antes de escrever este artigo. Na verdade, é um depoimento sobre um assunto ora em pauta: a nova regulamentação de A Voz do Brasil, noticioso radiofônico oficial, em rede pelas rádios brasileiras

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Eu trabalhava na “minha” rádio, no primeiro dia de fevereiro de 1974, uma sexta-feira. (Explico: a rádio em que se trabalha é sempre “nossa”. E nós somos dela.) Era de manhã e eu ouvia o primeiro noticioso do dia, enquanto elaborava um “piloto” de programa. As vozes familiares dos locutores se alternavam a cada parágrafo das notícias, no ritmo habitual e na inflexão  adequada ao assunto tratado, quando, de repente, tudo mudou! A voz de um repórter chamava a Central diretamente de uma viatura que se aproximava da  Praça da Bandeira. E o repórter viu rolos de fumaça desprendendo-se das janelas  do 12º andar de um grande prédio. Era o começo do incêndio do Edifício Joelma, de 25 andares, que ficaria marcado como a maior tragédia humana nos registros de São Paulo. O depoimento do repórter Milton Parron, publicado no dossiê 80 Anos de Rádio no Brasil (Revista USP nº 56, dez., jan., fev. 2002/2003), representa, sem dúvida, a descrição mais fiel dos acontecimentos daquele dia: as chamas envolvendo rapidamente um prédio em que mais de setecentas pessoas já estavam trabalhando desde as primeiras horas do dia; a impossibilidade de combater o fogo com rapidez, retirar os feridos, acudir dezenas de pessoas em pânico; o horror das testemunhas diante do quadro pavoroso que a televisão passou a mostrar – tudo presenciado por um repórter experiente, controlando-se para poder ajudar. Voluntários apresentando-se, novos recursos chegando, a doação de leite para os intoxicados, doação de sangue para os feridos, ambulâncias para levar os feridos graves aos hospitais. E em todas essas ações, o rádio – emissoras que passaram a atuar não só para informar os ouvintes, mas, também, estabelecer uma rede de comunicação entre bombeiros, policiais, médicos, enfermeiros e pessoas do povo – todos com o objetivo único de aliviar o sofrimento dos sobreviventes. Mas havia, ainda, muito trabalho a fazer. Na minha rádio, uma preocupação passou a se somar a todas as dúvidas que a tragédia encerrava: o tempo estava se esgotando. Que tempo? Ora! O tempo para o rádio sair do circuito. Isto é, todas as estações que trabalhavam no incêndio do Joelma teriam de retransmitir A Voz do Brasil. E só faltava meia-hora para isso. Como prever o efeito da saída do principal instrumento de interligação dos diversos grupos que atuavam no salvamento? Como aceitar que um programa rotineiro, mas com o poder de calar todas as vozes, viesse a interferir no trabalho efetivo, na luta desesperada para reduzir a matança? Imaginei como muitos colegas, tanto da nossa como das outras rádios, estariam se sentindo naquele momento. E me convenci de que o relógio não era o problema, pois naquele dia não haveria A Voz do Brasil. (Nos bastidores, trabalhava-se para apelar às autoridades: telefonemas para Brasília; tentativas de localizar os altos escalões – ministros, secretários-executivos, fiscais do Dentel e até membros do Congresso – mas o expediente já estava encerrado…)

– Brasília, 19 horas… (Era o locutor de A Voz do Brasil. A técnica solta a gravação com os acordes de O Guarani, de Carlos Gomes…  Mas, naquele primeiro dia de fevereiro de 1974, São Paulo não ouvia a voz que vinha de Brasília.)

Comentário: Obrigatoriedade. Por que não o compromisso de retransmitir o programa oficial, permitindo-se a opção de colocar a notícia em primeiro lugar, a critério do diretor-responsável da emissora? Essa seria uma flexibilização realmente significativa.

 

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