Não ataquem o mensageiro

Por Marcello Rollemberg, editor de Cultura do “Jornal da USP”

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Marcello Rollemberg – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

 

É capaz que, a esta altura dos acontecimentos, todos já saibam – ou deveriam saber – que o jornalista é o mediador da sociedade, aquele que tem como função primordial levar notícias que traduzam e expliquem o mundo para aqueles que não têm acesso às informações. E esta lembrança necessária nem se dá porque neste dia 7 comemora-se o Dia do Jornalista – seria muito simplista. Não é isso. A remissão ao papel do jornalista é importante porque, cada vez mais, o mundo como o conhecemos necessita de mediação, precisa de informação correta, exata e isenta. Mas, convenhamos, não está fácil.

No momento em que o planeta está tomado pelo temor da covid-19 e a pandemia obriga todos a uma quarentena forçada e sem data para terminar, mensagens brotam de todos os lugares, muitas vezes com polaridades invertidas e embaralhando o jogo. Em tempos de redes sociais as mais diversas e acesso imediato a postagens muitas vezes sem embasamento nenhum, o bem informar se torna um desafio ainda maior. Porque as chamadas fake news acabam se espalhando como rastilho de pólvora e têm a mesma função que apagar um incêndio com querosene. E é justamente antes de o fogo tomar conta de tudo que o jornalista precisa agir. Não como um bombeiro, mas como um mediador.

Porque as “notícias” falsas podem vir de qualquer lado – da tia que acredita em tudo o que é postado no “zap”” do grupo da família, no ideólogo que insiste na planície terrena, no suposto condutor que teima em trafegar na contramão do mundo. As imagens brotam em tuítes, nos facebooks da vida, em mensagens ditas oficiais. Pessoas caem nesta armadilha por ingenuidade, por comodismo ou porque, simplesmente, querem acreditar. Mas isso não torna a vida mais amena. Apenas a torna improvável.

A verdade nem sempre é agradável, mas – infelizmente ou não – não é papel do jornalista tornar a vida agradável. Seu papel é contar os fatos, trazer a verdade dos fatos, seja da forma que for. Por mais que muitos não gostem. Millôr Fernandes já dizia que “toda imprensa é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”. Mas, por favor, que não se entenda “oposição” como pura e simplesmente a tradução daquela outra frase que dava conta que “hay gobierno, soy contra”. Nem o jornalismo é opositor por prazer, nem é “contra” governos. Apenas não é a favor a priori. Simples assim. Não vamos às ruas ou a palácios para bater palmas para tudo o que é dito. Não fazemos entrevistas com perguntas desconfortáveis para parecermos “maus” ou oposicionistas. Fazemos perguntas para que a verdade seja mostrada. E se nos tratam com deselegância, às vezes o melhor seria virar as costas.

Não é à toa que muitos governantes mundo afora veem o jornalista como o inimigo ao lado, aquele que deve ser calado. Donald Trump elegeu a imprensa como a rival número 1 de seu governo. Jair Bolsonaro, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), não passou um dia sequer em 2019 sem atacar a imprensa. Na mesma pesquisa da Abert, a imprensa profissional foi alvo de uma média de 11 mil ataques diários nas redes sociais no ano passado. Ótimo. Mostra que estamos no caminho certo.

Porque, por outro lado, nesta época de coronavírus à porta, cada vez mais pessoas enxergam na imprensa a fonte segura de informações – e não no grupo familiar ou tuítes mal ajambrados. Segundo pesquisa do Datafolha divulgada no final do mês passado, os meios tradicionais de imprensa lideram a confiança do público na busca por informações sobre a atual pandemia, enquanto a desconfiança com as mensagens via redes sociais foi crescente. Os sites de notícia também são os que gozam de grande credibilidade. Não por acaso o site do Jornal da USP bateu recorde de audiência em março: foram 3,5 milhões de pageviews, um crescimento de 142% em relação ao mês anterior. A editoria campeã foi a de Ciências, com 1,6 milhão de pageviews, isto graças à divulgação precisa de tudo o que está sendo pesquisado – principalmente na USP – para o combate à covid-19.

Afinal, é em momento de crise que o trabalho jornalístico se reveste de maior importância. É o jornalista que corre em direção ao olho do furacão quando outros – justificadamente – fogem dele. Hoje, enquanto as ruas do País estão – ou deveriam estar – vazias, é o jornalista que, com ou sem máscara, trafega por avenidas, entrevista médicos, pesquisadores e cidadãos comuns, conserva programas no ar para manter a população informada, corre riscos. Nossa profissão é naturalmente arriscada, e talvez resida aí seu fascínio. Mas o maior risco, na verdade, é lutar por bem informar, mesmo quando muitos acreditam que estamos “tumultuando”. Nada mais falso, nada mais hipócrita. Nosso papel é levar a mensagem verdadeira a todos, por mais desagradável que ela seja. Mas, ainda assim, necessária. Então, não ataquem o mensageiro. Ele não tem culpa de o mundo ser como é.

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