Lições das medidas de redução de contágio em Araraquara e São Carlos

Por Hamilton Varela, professor titular do Instituto de Química de São Carlos da USP

 01/04/2021 - Publicado há 8 meses
Hamilton Varela – Foto: Henrique Fontes/IQSC

 

O surgimento da cepa P.1, também conhecida com variante de Manaus, mudou a dinâmica da pandemia no Brasil. Notadamente mais transmissível, essa variante vem transformando em tsunami a segunda onda de propagação do novo coronavírus com aumento descontrolado nos números de óbitos e de novos casos a partir de meados de fevereiro de 2021.

A alta demanda mundial por vacinas e a consequente baixa disponibilidade dos imunizantes estão retardando o avanço da vacinação no Brasil e em alguns outros países. Além das medidas de higienização, utilização de máscaras e distanciamento social, não parece haver solução de curto prazo. O avanço da pandemia por aqui está aumentando a pressão sobre o sistema de saúde e o recrudescimento em diferentes graus das medidas de redução de contágio tem sido a única opção para diminuir a transmissibilidade, o número de casos e óbitos.

Entre a conhecida ordem de permanência “fique em casa” e o restrito bloqueio ou lockdown, estão incluídas medidas como toques de recolher, quarentenas e bolhas sanitárias. Há uma gradação entre as medidas restritivas e o termo lockdown tem sido reservado a situações em que se proíbe a circulação de pessoas e o funcionamento de serviços considerados não essenciais.

No Estado de São Paulo foi decretada uma fase emergencial, mais restritiva que a fase vermelha do Plano São Paulo, a partir do dia 15 de março e estendida recentemente até 11 de abril. As restrições dessa fase foram consideradas insuficientes por algumas cidades que optaram por medidas ainda mais limitativas e em diferentes níveis. Como exemplos, Ribeirão Preto optou por um curto lockdown entre 17 e 21 de março e em São José do Rio Preto o lockdown foi feito entre 17 e 31 de março. Ainda é cedo para avaliar os efeitos dessas medidas.

Em Araraquara, o lockdown foi adotado em fevereiro e os resultados da medida já são mensuráveis. Em 21 de fevereiro, a ocupação dos leitos (enfermaria e UTI) na cidade chegou a 100%, e o lockdown foi decretado por 10 dias entre 21 de fevereiro e 2 de março. A média móvel de novos casos atingiu um máximo de 138 em 27 de fevereiro (sete dias portanto após o início das medidas de restrição). A partir de então, a média começou a cair e encontra-se aparentemente estacionada em torno de 70 novos casos diários há mais de duas semanas. A situação ainda está longe da ideal, claro, mas a contínua queda no número de novos casos já está refletindo na diminuição na ocupação de leitos hospitalares e no número de óbitos, cuja média móvel atingiu um máximo em 17 de março e começou a cair. A diminuição da taxa de ocupação de leitos e no número de óbitos são considerados parâmetros tardios e que podem ser previstos a partir da queda no número de novos casos, como observado claramente nesse caso de Araraquara.

A comparação da dinâmica da pandemia nas cidades de São Carlos e Araraquara parece bastante oportuna pela similaridade de características importantes como a população total (em torno de 245 mil habitantes) e densidade demográfica, índice de desenvolvimento humano (IDH) e pirâmides etárias.

Em São Carlos não houve lockdown mas os efeito das restrições da fase emergencial do estado também já são notadas. Dados oficiais consultados em 31 de março revelam uma diminuição de 9% no número de novos casos na última semana. Colocada em perspectiva, essa queda contrasta com a tendência de aceleração da pandemia no país, e com os recordes nos números de casos e de óbitos registrados nesse período.

A média móvel dos novos casos diários em São Carlos subiu até 158 em 22 de março, oito dias portanto após o início da fase emergencial. Desde então, essa média vem caindo lentamente e chegou a 123 novos casos em 31 de março. A melhoria na situação do sistema de saúde e na ocupação hospitalar deve começar a ocorrer apenas quando esse número cair, de forma consistente, à cerca de metade desse valor, como em Araraquara. Chama a atenção o fato de que o início da queda na média móvel de novos casos ocorreu a partir do nono dia após o início da fase mais restritiva; como dito, em Araraquara, essa diminuição começou aos oito dias do lockdown. Além do mais, o número máximo de óbitos em um único dia é o mesmo em ambas as cidades, 14, e ocorreu em março. Essas semelhanças reforçam a validade da comparação da dinâmica da pandemia nas duas cidades. Extrapolando essa comparação para o número de vítimas fatais, pode-se estimar que a média móvel do número de óbitos em São Carlos continuará crescendo até a segunda semana de abril, caso medidas adicionais não sejam tomadas.

A análise das taxas de isolamento indica que as restrições da fase emergencial do Plano São Paulo foram suficientes para que São Carlos atingisse níveis comparáveis ao observado durante o lockdown em Araraquara, entre 41/42 e 54%.

A situação atual da pandemia, as imagens dos hospitais lotados, faltas de insumos, etc. pressionam as autoridades e aguçam o sentimento de urgência, de que é preciso fazer alguma coisa. Como dito, além da vacinação em massa, parece restar apenas a adoção de medidas mais rígidas de redução de contágio. As decisões envolvidas no recrudescimento das medidas de isolamento social são geralmente complexas pois envolvem muitas variáveis.

A ocupação de cerca de 90% dos leitos hospitalares sinaliza claramente e necessidade de adoção de medidas mais rígidas. O planejamento da extensão dessas é essencial: o que pode e o que não pode; o que abre e o que fecha e em que o horário. A própria definição do que é ou não essencial tem sido motivo de muito debate. A antecedência do anúncio das restrições e o planejamento do período entre o anúncio e o início do lockdown também têm se mostrado importantes e aglomerações foram observadas em supermercados de muitas cidades durante esse intervalo. A duração das medidas é um parâmetro crítico.

A recomendação do Observatório Covid-19 da Fiocruz é de que a restrição de circulação e a suspensão das atividades não-essenciais durem cerca de 14 dias. Nesse sentido, melhorias apenas modestas são esperadas para bloqueios curtos como o de cinco dias adotado em Ribeirão Preto. Ainda segundo o Boletim recente da Fiocruz, recomenda-se que as medidas de restrição sejam adotadas não de forma isolada, mas que tenham uma perspectiva regional. O ideal seria a adoção de ações coordenadas envolvendo os níveis municipal, estadual e federal da administração pública, mas essa coordenação parece esbarrar no problema da falta generalizada de lideranças que viabilizem a articulação. Estratégias envolvendo ampla testagem e isolamento dos casos são bastante efetivas, menos danosas à economia e têm sido relativamente pouco utilizadas por aqui. Finalmente, a fiscalização das medidas adotadas e o acompanhamento contínuo dos resultados são fundamentais.

As melhores decisões são as assentadas em dados, em experiências prévias. Atualmente já há uma quantidade considerável de trabalhos publicados sobre os impactos do lockdown na contenção da pandemia pelo mundo. A efetividade das medidas depende de vários fatores. No Brasil, a situação econômica e a politização da pandemia dificultam ainda mais o gerenciamento da crise e as decisões sobre medidas de restrição de contágio. Os dados por aqui ainda são relativamente escassos e as experiências de Araraquara e São Carlos devem ser consideradas.


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