Jayme Cavalcanti – um nome esquecido

Isaias Raw é presidente da Fundação Butantan e membro da Academia Brasileira de Ciências

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Isaias Raw – Foto: Francisco Emolo / Arquivo Jornal da USP

Em 1944 entrei para a Faculdade de Medicina da USP decidido a me tornar pesquisador. A FMUSP, atendendo ao relatório Flexner e à exigência da Fundação Rockefeller que, por sua vez, financiou a construção do seu prédio e dava auxílios aos investigadores, valorizava a pesquisa como fundamental para um ensino de alto nível.

Ainda calouro, fiquei impressionado com a figura de Cavalcanti, professor de Chymica Physiológica, que me atraiu imediatamente abrindo a porta dos laboratórios para jovens estudantes. Apesar de não manter atividades de pesquisa, Cavalcanti e Veiga Salles, seu assistente, modificaram radicalmente as aulas práticas, dando a elas  um cunho médico baseado numa medicina científica que o professor Ulhoa Cintra trouxe de Boston, onde a análise de laboratório era fundamental, o que contribuiu para motivar os alunos do curso médico, que passavam metade do curso dissecando cadáveres e estudando anatomia de séculos passados. O departamento passou a realizar ensaios clínicos e atraiu Leser e Germek, que instalou o laboratório central no Hospital das Clínicas. Leser e outros criaram o Laboratório Fleury, onde o médicos realizavam os ensaios estabelecendo um novo padrão de qualidade e introduzindo novos exames.

Por regulamento, as aulas teóricas eram privativas do professor, dono do seu anfiteatro ligado a uma sala onde, isolado, preparava suas aulas, repetidas todos os anos! Outra figura importante foi André Dreyfus, médico que abandonou a FM e foi para a FFCL para criar o Departamento de Genética, lugar onde, ainda no ginásio, me tornei frequentador podendo levar os livros da biblioteca para estudar. A FM nem mesmo se preocupou quando Genética foi eliminada do seu currículo. Cavalcanti me abriu as portas para pesquisar respiração celular com um aparelho de Warburg. Já no segundo ano do curso me atrevi a pedir ao professor Cavalcanti para dar uma aula no curso, explicando as consequências da bomba atômica no Japão, para os que sobreviveram às radiações. Anos depois, com apoio de Cavalcanti, reintroduzimos a Genética no curso médico, como um anexo do Departamento de Chymica Physiológica e rompemos um tabu, pois na época apenas médicos poderiam ser contratados como assistentes.

Ao me formar, Cavalcanti me nomeou assistente (o ponto máximo da carreira para um jovem que não pertencia à elite dominante).

Ainda calouro, fiquei impressionado com a figura de Cavalcanti, professor de Chymica Physiológica, que me atraiu imediatamente abrindo a porta dos laboratórios para jovens estudantes.

Jamais Cavalcanti reinvidicou seus méritos. Cavalcanti tornou-se diretor da FM e, ainda estudante, me entregou as chaves para entrar no laboratório até aos domingos. O então todo-poderoso secretário da FM me flagrou entrando e vociferou que era proibido trabalhar de graça, caçando as chaves.  Fiquei preocupado por ter criado um problema sério para Cavalcanti e me apresentei na segunda-feira, mas ele me acalmou e mandou fazer novas chaves! A Chymica Physiologica, com auxílios da Rockefeller, se transformou em Enzimologia, investigando e isolando enzimas do metabolismo.

Cavalcanti transformou o 4o andar num núcleo para estimular a pesquisa.  Achar revistas dispersas na Universidade era impossível e criou um arquivo central. Reuniu professores de várias faculdades para desenvolver no Brasil as atividades da Unesco, órgão das Nações Unidas para educação e ciência. Estimulou-me a fazer uma exposição sobre o átomo na Galeria Prestes Maia, que foi vista por milhares de estudantes e que, se imaginava então, seria o futuro Museu da Ciência da cidade, com exposições temporais. Surgiram as feiras de ciências, onde jovens estudantes mostravam suas experiências e que levavam alunos e professores premiados à reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Era preciso chegar aos jovens o interesse pela pesquisa e passamos a produzir equipamentos para os laboratórios das escolas secundárias e permitir aos estudantes fazer experiências em casa. Para sua fabricação usamos a ala deserta, que foi ocupada pelo ensino pré-universitário para preparar estudantes que nunca tiveram acesso aos laboratórios dos então ginásios públicos e privados, fechados a sete chaves, considerados, como os de Galileu e Lavoisier, focos hereges. Cavalcanti criou o então Ibecc-SP (Instituto Brasileiro de Ensino em Cursos Empresariais), que, apoiado pela Rockefeller, passou a produzir kits que deram origem com a Abril aos 50 kits Os cientistas. Dois milhões de kits foram vendidos nas bancas de jornal e ainda hoje encontro pesquisadores que agradecem ao Ibecc (transformado em Funbec, uma fundação) iniciarem sua carreira fazendo experiências com os kits, buscando explicação para, por sua vez, explicar seus resultados e que levaram os kits para as escolas, para questionar os professores. Assim, revolucionaram o ensino das ciências, com os novos livros de ciência que deram origem à Edusp e à Editora da UNb.

Entre 1939 e 1941, Cavalcanti dirigiu o Instituto Butantan. Ele estimulou a pesquisa, criando o Fundo de Pesquisas da USP, que foi a semente para a criação da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)

Entre 1939 e 1941, Cavalcanti dirigiu o Instituto Butantan. Ele estimulou a pesquisa criando o Fundo de Pesquisas da USP, que foi a semente para a criação da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), preparando, com apoio do Ulhoa Cintra, Paulo Vanzolini (médico que se tornou um importante zoólogo), Alberto Carvalho da Silva e outros, que convenceram o governador Carvalho Pinto, o documento Ciência e Pesquisa, em 1947, para incluir na Constituição do Estado a Fapesp, outorgando à mesma 1% de todos os impostos arrecadados. Cavalcanti foi o primeiro diretor-presidente (1961-1969) daquela instituição, que desde o seu início obrigou os candidatos, para obter auxílio, a submeter um projeto detalhado de sua pesquisa e que seria analisado pelos “pares”  anônimos, tornando os recursos disponíveis diretamente para os líderes  de  projetos objetivos e originais, eliminando a velha tradição de distribuir recursos equitativamente entre institutos e departamentos.

Aprendi com Cavalcanti que não se formam cientistas em cursos, mas estimulando os jovens que aproveitam a oportunidade pesquisando para ultrapassar o seu ”chefe”, alcançando com inteligência e dedicação o nível que os distingue dos alunos “normais”, acostumados a “devolver” em exames as informações, que um estudante passava do quadro-negro para as apostilas, que vendiam para se sustentar num curso de horário integral durante  seis anos. A maioria dos professores não acompanhava os rápidos avanços da ciência. Cavalcanti estimulava a independência para seus assistentes e seus alunos. Com contribuições científicas veiculadas nas publicações internacionais (e acabando com a revista da faculdade, que dividia as páginas para artigos de seus professores, sem aprovação por referees idôneos), os artigos citados por outros pesquisadores eram o maior prêmio que o seu mentor pôde ambicionar como herança de seus ”filhos” intelectuais. Em 1952 “presenteei” Cavalcanti com o primeiro artigo do departamento publicado no Science e nos anos seguintes com dois outros, publicados com os meus assistentes, no Nature.

Em 1964 tornei-me professor catedrático, substituindo Cavalcanti. Em 1969 fui compulsoriamente aposentado pela ditadura e por uma década trabalhei no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Harvard School of Public Health e New York City College. Voltei em 1985 e ingressei (como Cavalcanti)  no Instituto Butantan, onde me tornei diretor e presidente da Fundação Butantan.

 

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