Inovação na USP – inovação?

Por Ronaldo de Breyne Salvagni, professor da Escola Politécnica da USP

 23/05/2022 - Publicado há 1 mês
Ronaldo Salvagni – Foto: Divulgação CEA/Poli/USP

 

Uma excelente iniciativa da USP foi a recente ênfase na Inovação, com a criação de uma Pró-Reitoria adjunta focada nessa área, junto à Pró-Reitoria de Pesquisa. Esta ação mostra uma USP moderna e atuante, comprometida com o desenvolvimento da comunidade. Entretanto, isso está convivendo com uma forte contradição interna, na área do Ensino. Por um lado, na atual situação de saída da pandemia, a Pró-Reitoria de Pós-Graduação permitiu que as aulas voltassem a ser presenciais ou continuassem on-line, de acordo com o critério de cada professor, permitindo a incorporação das inovações alcançadas durante a pandemia e de forma coerente com a proposta de Inovação da USP.

Porém, por outro lado, na Graduação, a decisão foi o contrário: foi exigido o retorno imediato de todas as disciplinas ao formato presencial, sendo proibida a realização de quaisquer aulas on-line. Uma das razões mencionadas é a não aceitação de “experimentações” na Graduação. Ora, a experimentação é a base da inovação (e da ciência), sem a qual não há avanço. E essas “experimentações” já foram feitas durante o período da pandemia, de modo que agora já temos resultados concretos, aqueles positivos prontos para serem aplicados nas aulas. No entanto, isso tudo foi proibido.

Aulas presenciais não são necessariamente boas. Todos nós que fizemos curso superior na USP, ou em qualquer outra instituição, tivemos aulas presenciais e professores muito bons, e também tivemos aulas presenciais e professores muito ruins. Durante a pandemia, com as aulas on-line, nós, professores, tivemos que mudar nossas aulas, aprender muita coisa, usar novos recursos e estratégias de aprendizado, e muitos obtivemos resultados muito bons, inclusive melhores do que com aulas presenciais. Tivemos alunos de outras cidades, outros Estados e até do exterior participando das aulas, expandindo a presença da USP no cenário nacional e internacional. Entretanto, todo esse avanço está sendo agora descartado pela Pró-Reitoria de Graduação da USP.

É claro que o contato pessoal e direto entre os alunos e com seus professores é importante. Mas será razoável usar isso como pretexto para tornar o formato presencial obrigatório em todas as aulas? A Universidade pode (e deve) proporcionar esse contato pessoal de muitas outras formas, não necessariamente dentro de uma sala de aula física.

Ninguém propõe que aulas on-line voltem a ser obrigatórias (como o foram durante a pandemia), mas sim que possam ser viabilizadas e realizadas em conjunto com aulas presenciais. Essas “experimentações” não deviam ser proibidas, mas até incentivadas pela Pró-Reitoria, obviamente com o necessário acompanhamento e avaliação de resultados (o que, aliás, também valeria para aulas presenciais).

O formato presencial de aulas é muito antigo, vem de antes dos gregos, passou pela Idade Média e chegou aos dias de hoje, até porque não havia outra opção. Atualmente, com os modernos aplicativos de videoconferência, amplamente acessíveis e que oferecem ampla gama de novas possibilidades, há outras e melhores opções.

Todos sabemos que para inovar, para avançar, é necessário sair da zona de conforto. É muito cômodo e agradável continuar fazendo as coisas do mesmo modo que nossos antepassados faziam, e que fizemos até agora. Porém, desse jeito, ficaremos sempre estagnados no mesmo lugar.


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