Homenagem à professora Lisete

Por Marcos Garcia Neira, professor titular da Faculdade de Educação (FE) da USP

 18/04/2022 - Publicado há 8 meses
Foto: Reprodução/Flickr

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Marcos Garcia Neira – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A educação pública perdeu no início de março uma das suas mais incansáveis defensoras. Trinta anos após ter sido seu aluno no curso de Pedagogia, tive a honra de presidir a cerimônia em que lhe foi outorgado o título de Professora Emérita concedido pela Congregação da Faculdade de Educação em reconhecimento da sua trajetória como docente, pesquisadora e gestora. Como forma de homenageá-la, reproduzo abaixo as palavras proferidas naquela tarde inesquecível de 18 de junho de 2021.

Certa vez, ouvi a professora Lisete Regina Gomes Arelaro dizer que dentre as muitas pessoas que marcam as nossas vidas, sempre há um professor ou professora. Tenho certeza de que ela é uma professora que marcou não só seus alunos e alunas, mas também as instituições por onde passou. E este é o caso da Faculdade de Educação da USP, casa que habita desde princípios dos anos 1970, quando ingressou como estudante da Pós-Graduação, e no início dos anos 1980, quando foi aprovada no primeiro processo seletivo público para docente. 

Percorreu todos os níveis da carreira, presidiu a Comissão de Cultura e Extensão, representou a Congregação no Conselho Universitário, chefiou o Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação e elegeu-se diretora. Em cinco décadas de vida acadêmica, o reconhecimento de seus pares, decorrente de sua participação proativa e perfil trabalhador, tornaram-na indicação irrefutável para diversas representações. Responsabilidade que assumiu e desempenhou de forma comprometida com sua história de luta pelo direito a uma educação pública de qualidade, diante do papel fundamental que a escolarização exerce na redução da desigualdade social. 

As marcas deixadas pela professora Lisete na Faculdade de Educação e nas pessoas que nela estão ou por ela passaram se fazem notar de muitas formas, seja pela sua liderança política, pelos orientados que se tornaram docentes, pela atuação importante na organização do Programa de Pós-Graduação em áreas, pelo esforço para consolidar a pesquisa sobre financiamento da educação, pela coordenação de projetos de envergadura nacional ou pelo empenho inconteste na construção da Biblioteca Professor Celso de Rui Beisiegel.

Enquanto intelectual orgânica, o comprometimento com a transformação do mundo que aí está é uma marca indelével na trajetória acadêmica da professora Lisete, no ensino, pesquisa, extensão ou na gestão, área que conhece como ninguém por ter assumido diversos cargos no sistema estadual e municipal de educação. A paixão pela administração pública impulsionou a preocupação científica, o que a levou a fundar associações nas quais sempre participou com olhar crítico e propositivo com vistas à construção de políticas públicas de combate ao fracasso escolar.

Alguns desses momentos pude acompanhar bem de perto, episódios que no meu modo de ver simbolizam a pessoa, a professora e a acadêmica engajada. Peço desculpas pelo tom pessoal a partir de agora, condição que reivindico porque reassumo minha condição de aluno diante da mestra.

Dos meus tempos de estudante da pós-graduação, recordo com clareza o papel determinante que Lisete desempenhou nas discussões que levaram à reorganização do curso de Pedagogia, com o estabelecimento das habilitações integradas e a ampliação do número de vagas. Até meados da década de 1990, ingressavam 60 estudantes no período vespertino e 60 no período noturno. Opondo-se às propostas que sugeriam a redistribuição das vagas sem alteração do montante, ela defendeu com muita veemência a duplicação da quantidade de ingressantes no período noturno, argumentando em todos os fóruns que não se tratava de mera questão quantitativa, mas sim de viabilizar o acesso de um público que só poderia frequentar as aulas à noite. Como sabemos, essa conquista permanece até hoje.

Um segundo episódio, quando ela era a diretora da Faculdade de Educação e eu, jovem docente, era membro da Comissão Coordenadora do Curso de Pedagogia. Diretrizes emanadas do sistema estadual colocavam em risco o Programa de Formação de Professores da USP, em especial, o currículo da Pedagogia. Diante da gravidade da situação, a professora Lisete convocou as coordenações da Pedagogia e da licenciatura a assumirem o protagonismo na resistência ao desmonte que se anunciava. O seu apoio político foi importante para viabilizar a união de todos os cursos de licenciatura da USP. Os embates, que não foram poucos, terminaram dois anos depois com a publicação de um novo documento legal. Lisete parabenizou as comissões pela conquista sem saber que as suas orientações foram decisivas para a obtenção daquele resultado.

Para finalizar, gostaria de relatar mais duas passagens que no meu entender retratam com perfeição a professora Lisete. Afinal, somos o que fazemos. Voltando aos tempos da graduação, Lisete foi nossa professora de Estrutura e Funcionamento do Ensino de Primeiro e Segundo Graus. O prédio em que ficam as salas de aula passava por reformas e, sobretudo no período noturno, as turmas tinham que ser alocadas em diferentes espaços. O curso de Estrutura e Funcionamento, por exemplo, era ministrado no auditório da Escola de Aplicação, anexo à Faculdade de Educação. Lisete ficava em pé no palco das 19h30 às 23h, segurando o microfone à frente do rosto, problematizava com euforia os argumentos dos autores de referência: Carlos Roberto Jamil Cury, Luiz Antonio Cunha, José Carlos Melchior, José Mário Pires Azanha, Luiz Pereira e Moysés Brejon eram convidados a dialogar com a experiência de quem conhecia as entranhas da administração pública estadual e municipal.

Certa noite, por volta das 22h10, 22h15, horário em que a quantidade de ônibus diminuía, os estudantes começaram a se levantar e sair. Eu estava sentado na frente, perto do palco, e não percebi a movimentação. Quando dei por mim, estava sozinho. Não tinha como escapar. Lisete não se fez de rogada nem perdeu a pose, desenvolveu seu raciocínio até o fim, concluindo a aula no horário padrão. Apagamos as luzes do auditório, encostamos a porta e saímos num alegre bate-papo. Para mim foi o máximo, aluno do primeiro ano, conversando com uma professora animada e cheia de boas histórias para contar.

Outra passagem que bem ilustra a personalidade da nossa querida professora Lisete deu-se no ano retrasado, antes da pandemia, no dia em que ela foi chamada à sala da direção para ser oficialmente informada que havia sido agraciada com o título de Professora Emérita. A situação requer alguma formalidade, um ritual do qual participam a assistência acadêmica, a chefia de departamento, a direção e a outorgada. Qual não foi a sua surpresa ao receber a notícia que a Congregação da faculdade aprovara a indicação do departamento por unanimidade. Surpreendentemente, ela questionou essa votação, justificando que nunca fora unanimidade em nada. Quase entra com recurso ou pede a recontagem de votos.

Pois bem, para nós, a Lisete é tudo isso. Uma representante aguerrida que defende o direito à educação com todas as forças; uma diretora com visão ampla que apoia e incentiva o engajamento das comissões nas disputas que envolvem os cursos de licenciatura; uma professora dedicada que não se abstém da função docente nem que seja para um só aluno, e uma membra da nossa comunidade que ela bem sabe que é plural, por isso mesmo não se furta ao diálogo e à valorização das diferenças.

Professora Lisete, em nome da Congregação, receba o título de Professora Emérita como forma de reconhecimento pela relevância do trabalho que realiza na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.


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