Geografias Femininas: papel do gênero na geografia brasileira

Patricia Aranha é pós-doutoranda do Departamento de História-USP, com financiamento Fapesp

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=193208
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Patricia Aranha – Foto: Arquivo pessoal via Depto. de História

Eu fui chamada para a expedição para cozinhar. Para ser escolhida, disse que sabia cozinhar e aplicar injeções.”

Miridan Falci, sobre o processo de seleção para a segunda expedição ao território do Rio Branco como estudante de graduação em História e Geografia na Universidade do Brasil na década de 1950
Esta apresentação oferece uma reflexão preliminar acerca das trajetórias das mulheres geógrafas pioneiras com base em entrevistas realizadas nos últimos três anos. As questões que nortearam este trabalho permeiam o âmbito nacional e internacional, privado e público: o que significou ser uma mulher cientista no início do século XX, para a sociedade, para as famílias, para a academia? E como foi lidar com o “duplo estigma”: ser geógrafa brasileira e mulher? O objetivo desta pesquisa é contribuir na construção de uma história da ciência destacando a importância dessas mulheres no desenvolvimento da geografia brasileira.

A silenciosa ciência feminina

Repetindo: aquelas mulheres que foram “apagadas” da historiografia da geografia, o que de fato se deu, e não por não terem realizado importantes trabalhos. Este é o caso de Miridan Falci, selecionada para uma expedição por mentir sobre “cozinhar e aplicar injeções”. Ela tomou extensivas notas de campo que posteriormente resultaram em um livro, Expedições geomorfológicas no território do Rio Branco, cuja autoria foi creditada apenas ao seu professor, Francis Ruellan, ilustrando a exclusão das pesquisas das mulheres de narrativas hegemônicas.

Geografia humana. O lugar das mulheres?

 “… Eu me lembro de que nos ônibus de expedição a geomorfologia sentava na frente, e a geografia humana, na parte de trás. Em uma dessas ocasiões não havia cavalos suficientes; os geomorfólogos os pegaram e foram em frente, cavalgando, e as mulheres, isto é, a geografia humana, tiveram que subir a montanha a pé e ficaram furiosas.”

Pedro Geiger, aluno de graduação em Geografia da Universidade do Distrito Federal, Rio de Janeiro, de 1940 a 1942

A confusão metonímica do geógrafo Pedro Geiger entre a geografia humana e as mulheres é um exemplo claro do papel substancial que o gênero teve nas escolhas profissionais das mulheres geógrafas, bem como na maneira como seus colegas do sexo masculino as viam. As mulheres entrevistadas eram fascinadas por geomorfologia e estudos de campo, mas acabaram por trabalhar na área de geografia humana. Por quê? Esta é a principal questão sobre essa “escolha de gênero”.

Autoria em revistas de geografia

A análise do gênero na autoria de artigos em revistas mostra a discrepância entre homens e mulheres no estabelecimento da geografia como profissão no Brasil. Na principal revista brasileira de geografia, a Revista Brasileira de Geografia, foram necessários 12 anos para que uma mulher assinasse um artigo. Podemos ver também que a contribuição feminina não obedeceu a um padrão estável de crescimento ou maior proeminência ao longo do tempo. Ele oscila entre uma presença tímida e uma ausência notável. É interessante notar que isso não se deve à “falta” de mulheres formadas em Geografia: entre 1934 e 1955 as mulheres eram quase 60% dos graduados.
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Autorrepresentações femininas

As memórias pessoais constituem fontes privilegiadas pelas quais as entrevistadas nos dizem não apenas sobre si mesmas, mas sobre a história de seu campo e sua dinâmica durante o processo de institucionalização. As entrevistadas também se inscrevem em uma “tradição geográfica” e, portanto, dão significado não apenas à sua própria história, mas também à história da geografia.

Professoras em escolas ou universidades

 Nas entrevistas com essas mulheres geógrafas é recorrente o objetivo de ensinar na educação primária: “Quando escolhi Geografia e História, queria ser professora; na época era muito dignificante para a mulher”, disse Miridan Falci. As expectativas das mulheres foram, portanto, limitadas desde o início, e o curso de Geografia permaneceu sem professoras desde a sua criação, em 1934, até 1955.

A proporção de professores do sexo masculino e feminino na universidade era a seguinte:


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Desafios para o futuro

As mulheres são historicamente a maioria dos alunos de graduação em Geografia. Elas também são maioria em mestrados e metade das candidatas a doutorado. Apesar disso, a proporção de professoras em cursos de pós-graduação em geografia no Brasil é significativamente menor que a metade:
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Uma redução progressiva da presença feminina torna-se evidente quando visualizamos o sistema educacional como uma pirâmide com alunos de graduação na base e professores universitários no topo. Da mesma forma, isso se aplica à participação e liderança de grupos de pesquisa, bem como citações e índices de impacto de trabalhos. Este problema não é exclusivo da geografia, também em outras áreas as mulheres abandonam os círculos de produção de conhecimento de alto nível.

Finalizando, a construção de uma abordagem alternativa à história hegemônica da constituição da geografia como ciência, valorizando as geógrafas “esquecidas”, poderia muito bem auxiliar a academia a deixar de ser um lugar de “homens brancos” e tornar-se um espaço de produção de conhecimento mais fértil e plural.

 

 

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