Frans Krajcberg e a arte-denúncia a favor da conservação do bioma Amazônia

Por Luciana Benassi Perroti, doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte (PGEHA-USP) e Edson Leite, professor titular do Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP) e do PGEHA-USP

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Luciana Benassi Perroti – Foto: Reprodução
Edson Leite – Foto: Reprodução
A diminuição da população indígena e o desmatamento desde o período colonial ocasionaram uma mudança muito acentuada na paisagem do Brasil. Nas primeiras décadas do século XVI, os estudiosos e artistas viajantes já expunham essa questão. Frans Post (1612-1680), por exemplo, pintou cenas do desmatamento brasileiro ocorrido no século XVIII; Félix Emile Taunay (1795-1881), com suas pinturas, instigou o receptor ao debate sobre o destino das florestas; Thomas Ender (1893-1875) produziu cerca de 780 aquarelas que dão testemunho de paisagens naturais alteradas pelo desmatamento e urbanização; no século XX e XXI é marcante o trabalho do artista e ambientalista Frans Krajcberg (Kozienice – Polônia, 1921 – Rio de Janeiro – Brasil, 2017), que, depois de uma trajetória de vida pontuada por perseguições, guerra e sofrimentos, trabalhou de forma surpreendente como artista plástico na denúncia da devastação da floresta amazônica e da Mata Atlântica.

De acordo com os dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Amazônia Legal corresponde à área da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), que abrange os estados de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Mato Grosso e a parte oeste do Estado do Maranhão situada ao oeste do Meridiano 44º, possuindo uma superfície total de aproximadamente 5.015.067,749 km², o que corresponde a cerca de 58,9% do território brasileiro. O monitoramento dessa grande área vem sendo feito pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes). O mapeamento utiliza imagens do satélite Landsat, ou similares, para registrar e quantificar as áreas desmatadas. O Prodes considera como desmatamento a remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso.

Com o aquecimento global, mudanças climáticas provocaram grandes queimadas em 2019 até mesmo no Alaska, Sibéria, Rússia, na savana da África Central, Europa e nos EUA, além da Austrália e do Brasil, sendo que, nos dois últimos casos, trata-se de florestas tropicais com grandes diferenças. Enquanto na Austrália a floresta tropical é seca e a grande maioria dos incêndios ocorre de forma natural, na Amazônia Legal a floresta tropical é úmida e os desmatamentos e incêndios são provocados em sua grande maioria pela ação direta do homem, que desmata e coloca fogo nas árvores derrubadas.

De acordo com informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgadas no dia 18 de novembro de 2019, os anos entre 1995 e 2004 foram os anos de maior ocorrência de desmatamentos por corte raso na Amazônia Legal, de 1988 a 2019, atingindo em 1995 o valor de 29.059 km² e em 2004 o valor de 27.772 km², em comparação com o ano de 2019 quando o valor atingiu 10.129 km² como podemos ver no gráfico a seguir.

Taxa anual de desmatamento de 1988 a 2019 na Amazônia Legal – INPE – Foto: Reprodução

Frans Krajcberg chegou ao Brasil pelo porto do Rio de Janeiro em 1949, e a partir de 1951 passou a participar das Bienais de São Paulo, recebendo o prêmio de melhor pintor nacional na IV Bienal de São Paulo, em 1957. Na década de 1970 a Amazônia passou a ser o centro das atenções do artista quando, com o amigo Sepp Baendereck, comprou um antigo contratorpedeiro da II Guerra Mundial, o Juruena, e o transformou em iate para dar início à subida do Rio Amazonas, Rio Negro e Solimões. Em 1978, a dupla levou o amigo e crítico de arte Pierre Restany, o que resultou no Manifesto do Rio Negro, ou Manifesto do Naturalismo Integral. Em 1980, o artista retornou sozinho a Belém para realizar trabalhos com cipó-titica. Mais tarde, Frans Krajcberg foi apresentado a João Meirelles Filho, com quem realizou quatro viagens ao município de Juruena. No diário de João Meirelles Filho de 1985 ficou registrado que Krajcberg só estava preocupado com a natureza, não queria ver boi, pasto, plantação, queria ver plantas novas, fotografar, encontrar material para trabalhar e ficar em lugares quietos e isolados onde pudesse desenvolver sua criação. Com essa sensibilidade, Krajcberg descartou o interesse em realizar obras para agradar aos comerciantes da arte e se dedicou a produzir uma arte-denúncia a favor da conservação do bioma Amazônia.

Queimada – Foto: Frans Krajcberg

Na 32ª Bienal de São Paulo, intitulada Incertezas Vivas, Frans Krajcberg expôs três conjuntos de obras no espaço expositivo do pavilhão modernista com suas fortes características criativas; resquícios de madeira calcinada, troncos, cipós e raízes com pintura feita de pigmentos naturais nas cores vermelha e preta. Essa foi a última participação em vida de Frans Krajcberg em uma Bienal, o que nos permite concluir ter sido uma verdadeira coroação, para quem dedicou sessenta anos em defesa da natureza. Antes de sua morte o artista doou ao governo do Estado da Bahia o Sítio Natura, propriedade onde ele residia em Nova Viçosa, Bahia, com todo o seu acervo. A propriedade foi transformada no Museu do Ambiente, também chamado de Museu Frans Krajcberg.

Esculturas com troncos queimados – Foto: Frans Krajcberg

No Brasil, raros foram os artistas e intelectuais que, num gesto de desprendimento, legaram ao bem público o resultado material arduamente recolhido, cuidado, armazenado ao longo de uma vida, incluindo parte importante de sua obra e bens, como fez Frans Krajcberg. Com olhar perspicaz, ele conseguiu ver o que ninguém via, valorizando a plasticidade da matéria-prima bruta de árvores queimadas. Mudou várias vezes, saindo de um território a outro não só geográfico, mas também na maneira de pensar, demonstrando resiliência. Resistiu ao comodismo da sociedade e gritou ao mundo com palavras e ações contra a ação depredadora e a favor da preservação da vida.

Residência de Frans Krajcberg – Foto: OLIVEIRA, U. T. (2015)

 

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