Fapesp, um patrimônio da população paulista

Por Marco Antonio Zago, ex-reitor da USP e presidente da Fapesp

 30/07/2021 - Publicado há 3 meses
Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A comemoração dos 60 anos da Fapesp é uma oportunidade para examinar criticamente o passado e planejar o futuro. Vivemos um tempo de transformações; as mudanças globais foram bruscamente aceleradas pela pandemia que tomou o mundo. Transformações, nem sempre positivas, comprimiram um decênio em alguns meses. O mundo mudou e não voltará atrás.

E a Fapesp, também mudou? Certamente, sim! Mudanças fazem parte da vida das instituições vigorosas porque aquelas que não evoluem morrem ou tornam-se obsoletas.

Em seis décadas, a agência expandiu seu espectro de atuação, modificou e ampliou programas afinados com as transformações da sociedade e com o avanço da ciência e da tecnologia. A realidade é, pois, muito distante do estereótipo de uma organização voltada apenas à ciência acadêmica, sem preocupação com o mundo real e com os temas urgentes da sociedade.

No seu primeiro decênio, predominaram a atenção com a ciência básica e com a infraestrutura de pesquisa, ainda muito incipiente nas universidades e nos institutos, e um esforço para atualizar o conhecimento e a pesquisa no Estado, favorecendo o contato com o exterior, a vinda de pesquisadores reconhecidos e a organização de reuniões científicas.

Desde seus primórdios, as bolsas para a formação de recursos humanos representaram um claro diferencial em relação ao restante do País, fortalecendo a renovação de uma elite de especialistas que garantem a qualidade da ciência, da educação e da gestão do Estado. Contamos com uma comunidade de 74 mil pesquisadores em instituições acadêmicas, governo e empresas inovadoras. Foram os pesquisadores jovens apoiados por bolsas e auxílios da Fapesp que lideraram a mudança significativa da ciência paulista a partir da metade dos anos 1990.

A década de 90 e o início dos anos 2000 sinalizaram uma grande ampliação de seu espectro de ação. São marcas daquele período: o Programa dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), os programas Genoma da Xylella e Genoma do Câncer e o fortalecimento dos projetos temáticos, do Pipe e do Pite. Ganharam peso, assim, os projetos maiores, mais estruturados, mais longos e com participação de equipes de pesquisadores, incluindo aqueles voltados para aplicações práticas da ciência e tecnologia. Ao lado dos projetos individuais, de iniciativa do pesquisador, adicionou-se uma agenda de programas induzidos e de inovação. Marco relevante desse período: em outubro de 1989 a nova Constituição Paulista elevou a renda da Fapesp de 0,5% para 1% da receita tributária do Estado. Nos anos mais recentes, assistimos a uma evolução dessas políticas: fortalecimento dos projetos de maior duração e com equipes articuladas, do programa Jovem Pesquisador, para atrair e reter talentos científicos, e de apoio ao pós-doutorado. As formas de incentivo à inovação também foram expandidas, com a criação dos Centros de Pesquisa em Engenharia, hoje um vigoroso programa de colaboração entre empresas e academia.

A partir de 2015, a fundação passou a dialogar de maneira mais consistente com setores da sociedade para implementar projetos de políticas públicas ou voltados para vencer gargalos ao desenvolvimento social e econômico do Estado, classificados como “pesquisa orientada à missão”: Modernização dos Institutos de Pesquisa do Estado, Ciência para o Desenvolvimento, Editais de Centros de Inteligência Artificial e de Apoio à Educação Básica. Recentemente, atuamos com força e rapidez na resposta à pandemia: 48 horas após o primeiro diagnóstico no Estado o vírus foi sequenciado, graças às redes de laboratórios e equipes apoiadas pela Fapesp para a pesquisa de vírus como dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Apoiamos projetos de pesquisa básica, de inovação e clínica, como o teste de vacina.

A ciência brasileira seria muito menor sem a Fapesp. Algumas ações, ao longo dos 60 anos, ilustram seu impacto. Por exemplo, a internet no Brasil surgiu dentro da Fapesp e no LNCC, no final da década de 80. A genômica e a bioinformática brasileira foram originalmente criadas pela Fapesp: o sequenciamento do genoma da Xylella, completado em menos de dois anos, foi um feito notável à época; dele derivou toda a pesquisa genômica de câncer, de patógenos e de plantas. São emblemáticos nossos programas estratégicos de bioenergia e energias renováveis (Bioen), biodiversidade (Biota), mudanças climáticas globais e pesquisa na Amazônia.

A Fapesp ajudou a abrir a porta dos mares para os pesquisadores paulistas, com o navio oceanográfico Alphacrucis, e descerrar as janelas para o universo, participando da construção de telescópios como SOAR, Javalambre e Giant Magellan Telescope e do observatório para estudo de raios cósmicos Pierre Auger, na Argentina.

Mas, como todas as grandes ideias, esta história exemplar teve atores: um grupo de acadêmicos, intelectuais, empresários e políticos, que acreditava que conhecimento gera desenvolvimento. São paulistas do mesmo calibre daqueles que criaram e consolidaram as universidades públicas, os grandes institutos de pesquisa, trouxeram as universidades federais para o Estado e criaram empresas inovadoras de base tecnológica. A Fapesp terá vida longa porque esses pioneiros deixaram seguidores.

(Artigo publicado originalmente no primeiro fascículo digital do livro Fapesp 60 anos: Ciência, Cultura e Desenvolvimento)


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