Exposição “Hiatus” e a violência ditatorial na América Latina

Márcio Seligmann-Silva é curador da mostra “Hiatos” e pesquisador do Instituto de Ensinos Avançados (IEA) da USP

Por - Editorias: Artigos
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Márcio Seligmann-Silva – Foto: Arquivo pessoal.

Hiato” é uma palavra derivada do latim hiatus, que remete às noções de falta, lacuna, interrupção, abismo. Ao propor uma exposição no Memorial da Resistência de São Paulo voltada para a memória das ditaduras na América Latina, calcada nesse universo semântico, enfatizamos tanto o fato de que essas ditaduras representaram rupturas históricas, como também que elas constituem uma “falta”, um vazio dificilmente simbolizável. É verdade que países como Argentina, Chile, Uruguai e Brasil enfrentam os seus passados ditatoriais de diferentes modos, sendo o Brasil o que menos se dispôs a encarar até agora a tarefa de elaborar aquela época, seja de forma jurídica, política ou artística, em que pese o número de filmes sobre aquele período.

Se, durante o período ditatorial, alguns artistas brasileiros resistiram com muitas obras importantes (Claudio Tozzi, Cildo Meireles, Antonio Manuel, Artur Barrio, Evandro Teixeira, Nelson Leirner, Claudia Andujar, entre outros), no tempo pós-ditadura eles, com raras exceções, voltaram-se mais para poéticas formalistas ou com outras agendas temáticas. No entanto, desde 2013-2014 essa paisagem tem se modificado. Uma nova linhagem de produção (pós-relatório da Comissão Nacional da Verdade) tem abraçado o desafio de inscrever o passado ditatorial hoje. Pois a memória é ato, ação que se dá no presente e se articula às políticas do agora. Essas obras se dão no “tempo de agora” de que Walter Benjamin falava e visam também a um “escovar a história a contrapelo”. Essa nova arte da memória elegeu lutar contra uma política do esquecimento que faz parte de modo intrínseco de nossa tradição de apagamento da memória da violência, em especial das violências de classe, racial e de gênero.

Esses artistas da memória, que têm aparecido em algumas exposições nos últimos anos, têm promovido uma outra autoimagem do Brasil: na qual os protagonistas passam a ser os que lutam na resistência contra a violência estatal e das elites. Ao invés de objetos da representação, os excluídos se tornam agentes. O “hiato” ditatorial passa também a ser visto como um momento capaz de revelar o abismo que sempre existiu em nossa sociedade, que insiste em reafirmar e em reproduzir sua mentalidade colonial. O “estado de exceção” revela-se regra.

Existem muitos equívocos na leitura atual que se faz da ditadura brasileira de 1964-1985. Um dos mais graves é o que apaga o fato de que se tratou de uma ditadura no contexto da Guerra Fria, ou seja, ela foi articulada pelas elites latino-americanas em conjunto com elites dos Estados Unidos. As ditaduras foram respostas autoritárias aos movimentos sociais, nasceram para sufocar as reformas operárias e trabalhistas. O discurso “salvacionista” que compõe até hoje a ladainha daqueles que defendem o golpe de 1964 é uma farsa sem cabimento. Os golpistas não salvaram o Brasil de nada, mas apenas criaram um estado de exceção feito para sequestrar os direitos dos cidadãos e impor um modelo selvagem de capitalismo industrial.

Na exposição destacamos esse aspecto sobretudo em duas obras. Uma, a da Clara Ianni, Detalhes Observados, apresenta ao lado de uma fotografia de propaganda da Volkswagen dos anos 1960, um documento que a artista encontrou nos ex-arquivos do Deops, que consiste nada mais nada menos em relatório de um segurança da empresa que espionava os seus próprios funcionários para passar as informações para o aparato de segurança da ditadura. A cooperação entre as empresas, os empresários e o regime violento de exceção era total. As prisões e os maus-tratos aos operários se davam muitas vezes ainda dentro das fábricas. Isso aparece também na obra de Marcelo Brodsky, Terra Brasilis, que elenca 50 casos de cooperação assídua de empresas brasileiras com o regime ditatorial.

Além disso, as obras da Fúlvia Molina, Memória do Esquecimento: As 434 Vítimas, destacam o caráter aterrador das práticas de tortura, de assassinato e desaparecimento da época. Rodrigo Yanes, com seu trabalho Posso não estar presente/ Mas por mais que me ausente/ Sempre estarei aqui, apresenta as ditaduras como um estado de suspensão do tempo: a violência ditatorial repercutindo na intimidade do lar, desertificando a vida. É fundamental recordar isso em um momento em que se fala de modo público e escancarado de “volta dos militares”, edulcorando-se aquela época. O trabalho de Horst Hoheisel, Pega Varetas, um original antimonumento com “varetas” de ferro contorcidas (“torturadas”) que homenageia os desaparecidos e assassinados da ditadura brasileira, também traz a lembrança do caso Volkswagen e recorda que inclusive um ex-dirigente de dois campos de extermínio nazistas (de Treblinka e de Sobibor), Franz Stangl, foi funcionário da filial brasileira nos anos 1960. Nesse sentido, permite-se estabelecer uma diálogo e uma continuidade entre o nazi-fascismo e nossa ditadura civil-militar.

Mas tampouco trata-se de acreditar que a violência brasileira ou latino-americana se dá apenas nos hiatos das ditaduras, vide o caso recente do assassinato político de Santiago Maldonato na Argentina e no Brasil temos nosso Amarildo, uma das milhares de vítimas da política de terrorismo de Estado e de genocídio dos negros. A obra de Jaime Lauriano, Justiça e Barbárie, vai totalmente nesse sentido de refletir sobre a continuidade do genocídio de afrodescendentes no Brasil. O trabalho de Leila Danziger, Perigosos, subversivos, sediciosos [Cadernos do povo brasileiro], também vai nesse sentido, de um modo muito delicado, articulando a violência e a censura da ditadura com o nosso presente.

Existem muitos equívocos na leitura atual que se faz da ditadura brasileira de 1964-1985. Um dos mais graves é o que apaga o fato de que se tratou de uma ditadura no contexto da Guerra Fria, ou seja, ela foi articulada pelas elites latino-americanas em conjunto com elites dos Estados Unidos.

Essa exposição não tem um caráter de arranjo curatorial de obras já existentes ou de comissionamento de obras específicas aos artistas. Antes, partimos de um tema para discutir como o mesmo poderia se desdobrar e ser “resolvido esteticamente” por cada artista a seu modo. Cada artista teve total liberdade ao formular e realizar as suas obras. Vemos agora uma exposição feita de diferentes leituras do que seria processar mnemonicamente e artisticamente hoje aquele passado. Um trabalho como o de Andreas Knitz chama a atenção pela sua total originalidade.

Ele propõe com sua obra Fazer/ Fusão um aquário gigante onde as três mil páginas do relatório da CNV ficam como que em “suspensão”. Esse caldo clínico-político é levado por um tubo, do tipo que se usa para receber medicamentos em hospitais, até a parte de fora do museu. Devemos lembrar que o Memorial da Resistência fica no antigo prédio do Deops. A obra de Knitz propõe romper com o “cubo branco” artificial que foi construído nesse prédio e que apagou as marcas do seu passado. Algo sintomático e crônico em nosso modo de lidar com o passado violento: apagando-o.

Na mostra apenas duas séries do Brodsky são trabalhos preexistentes e que não foram feitos para a exposição: o famoso Buena Memória e as quatro fotografias com intervenção da série 1968: O Fogo das Ideias. A primeira dessas obras é icônica quando se trata de pensar a relação entre arte e memória das ditaduras na América Latina. Já a série sobre 1968 é essencial para se recuperar o furor revolucionário da época. Trata-se não só de se recuperar a violência e os crimes de Estado, mas também os sonhos e utopias que alimentaram a luta então. Gostaríamos com essa exposição de apresentar uma imagem “empoderadora” daqueles que resistem ao terror de Estado. Eles não são apenas vítimas, mas, antes de mais nada, protagonistas da história.

Ao colocarmos, lado a lado, nesta exposição, artistas do Brasil, do Chile, da Alemanha e da Argentina, já com vastos currículos de obras dedicadas à memória do “mal”, nossa intenção é a de iluminar essa poderosa arte. Uma arte que vai muito além de “memorializar” a barbárie: ela faz-nos pensar nas políticas de inscrição e de apagamento da violência. Ao focar nos traumas sociais, a arte permite também uma visada crítica, multifacetada e empoderadora, que ressignifica tanto o campo político como o artístico. Se Borges dizia que Sólo una cosa no hay, el olvido (“Só uma coisa não existe, o esquecimento”), devemos pensar que as memórias são construídas de diferentes formas: elas podem ser encobridoras da violência e das injustiças, ou podem ser reveladoras delas e se transformar em um ímpeto para mudanças e para uma outra cultura ética.

 

A exposição Hiatus: a Memória da Violência Ditatorial na América Latina está no Memorial da Resistência de São Paulo, no Largo General Osório, 66, Luz, de quarta a segunda-feira, das 10 às 18 horas, com entrada franca, até 13 de março de 2018.

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