Epigramas de Marcial: língua ferina e erotismo

Carlos Zeron é professor titular de História e diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP

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Carlos Alberto Zeron – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

Não são poucos os estudantes de latim que aprenderam a traduzir a partir das epigramas de Marcial. Pudera, são extremamente inventivas e divertidas! (Marco Valério Marcial. Epigramas. Tradução, notas e posfácio de Rodrigo Garcia Lopes. Cotia, Ateliê Editorial, 2017.)

As epigramas remetem a um gênero mal determinado até Marcial, que o define e consagra. Rodrigo Garcia Lopes, que traduz, anota e apresenta essa edição, compara a forma condensada característica da epigrama aos 140 caracteres do Twitter e ao WhatsApp; entretanto, Marcial tem uma verve que dificilmente encontramos nas redes sociais. Na Grécia, a epigrama era uma curta inscrição destinada a fixar a lembrança de um grande homem ou de um fato memorável sobre um monumento público ou privado, mas, em seguida, passou a recobrir também a elegia, a sátira, o cinismo e outras tantas formas de expressão do sentimento humano. Afinal, o que distinguiu e particularizou a epigrama foi a “ponta” (aculeus, ou acumen): uma construção cuja chave interpretativa e graça são preparadas de tal forma que só se revelam no último verso. Por exemplo: Marcial era muito crítico com médicos (assim como com advogados, prostitutas e outros personagens venais); nessa curta epigrama, vemos bem como funciona o princípio da “ponta”:

“Diaulo, o coveiro, até ontem era doutor:
o que fazia antes, agora faz melhor.”

Ou esta outra, onde desdenha de homens poderosos e fátuos:

“Solta um barro, Basso, num vaso de ouro,
mas bebe num de vidro: cagar lhe é mais caro.”

As epigramas de Marcial foram escritas entre 80 e 102 d.C. A edição princeps foi publicada em 1470, mas, no seu tempo, circulavam como “livrinhos” (libelli) que ele levava aos livreiros conforme juntava um certo número.

Nas epigramas de Marcial há, frequentemente, servilismo: ele dedicou várias delas aos poderosos, especialmente o odiado tirano Domiciano, embora também tenha celebrado o heroísmo de alguns grandes personagens da Roma republicana. De fato, apesar de talentoso, Marcial não optou pela autonomia (desconsiderando assim os conselhos, entre outros, de Quintiliano), mas por ser um minoris amici, um servidor doméstico, ainda que de posição mais alta e distinta. Foi com o favor desses senhores que Marcial se sustentou, teve um secretário, escravos e animais, além de uma pequena propriedade rural.

Contudo, na presente edição, encontramos, sobretudo, uma seleção das suas epigramas mais picantes, que remetem à crônica escandalosa de Roma (apesar de que ele tenha tido o cuidado de preservar os nomes dos seus contemporâneos vivos, trocando-os por nomes fictícios); crônica tão mais escandalosa que a sociedade romana aceitava comportamentos que estão longe de serem tolerados pela moral cristã e burguesa. Ao contrário de edições estrangeiras referenciais como as da Oxford (W. M. Lindsay, 1902) e da Belles Lettres (H.-J. Izaac, 1930), Rodrigo Garcia Lopes não se furta a usar as palavras obscenas que o próprio Marcial empregara.

“Seu nariz é tão grande quanto seu caralho.
Quando ele fica duro, Papílo, pode cheirá-lo.”

Ou:

“Gala topa foder por duas moedas
e dar o cu, se a gente der mais duas.

Por que paga dez por ela, Ésquilo?
Gala chupa por menos. Sei: pelo silêncio.”

A edição, bilíngue, é também generosa em notas explicativas, que explicitam e contextualizam os valores da época. O tradutor assina, por fim, um posfácio com informações e comentários sobre o autor e o contexto em que escreveu, sobre a relação de Marcial com seus protetores, sobre a recepção de sua obra, incluindo aspectos salientes como a sua moralidade e a sua vaidade. De fato, Marcial era orgulhoso de sua obra:

“Você já leu, pediu, aqui está ele:
Marcial, famoso em todo o mundo
por seus argutos livrinhos de epigramas:
Leitor fã, você lhe deu em vida
a glória que a uns poetas é concedida
apenas quando viram cinzas.”

Isso não o impedia de fazer uma apreciação mais ponderada da sua arte:

“Uns bons, uns mais ou menos, outros um lixo:
Assim se faz um livro de poemas, Avito.”

Mas, ele não tolerava e sentia profundo desgosto quando via seus versos serem apropriados por autores de menor quilate; como nessa epigrama onde ele brinca inclusive com o nome do seu plagiador:

“O povo anda dizendo que você, Fidentino,
recita meus livrinhos como se fossem seus.
Se for falar que são meus, te envio grátis.
Se seus, compre, pra que meus não sejam mais.”

Ou este outro:

“Tão mal recita, ô Fidentino, meus versos,
Que eles começam a parecer os seus.”

Marcial recomendava que seus epigramas fossem “lidos ou declamados de noite, com bons vinhos, comida e na companhia de amigos”. A edição da Ateliê Editorial não traz o livro costurado, mas apresenta-o em doze livrinhos soltos, que podem bem servir a este propósito desejado pelo seu autor.

 

 

 

 

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