Ensino-aprendizagem na Faculdade de Saúde Pública da USP durante a pandemia: presente!

Por Marco Akerman, presidente da Comissão de Extensão da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, e outros autores*

Marco Akerman – Foto: Divulgação / IEA-USP

* Tatiana Toporcov, presidente da Comissão de Graduação da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, Marcelo Rogero, vice-presidente da Comissão de Graduação da FSP-USP, Marília Louvison, coordenadora do curso de Graduação em Saúde Pública da FSP-USP, Wolney Lisboa Conde, vice-coordenador do curso de Graduação em Nutrição da FSP-USP, Dirce Zanetta, presidente da Comissão de Pós-Graduação da FSP-USP, Marly Augusto Cardoso, presidente da Comissão de Pesquisa da FSP, Isabela Serra, estudante do curso de Saúde Pública da FSP-USP, Ana Giulia Forjaz Grassi, estudante do curso de Nutrição da FSP-USP, Samuel Jorge Moyses, docente da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Paulo Capel Narvai, docente sênior do Departamento de Política, Gestão e Saúde da FSP-USP

A Universidade de São Paulo tomou uma atitude importante de não parar com suas atividades docentes durante a pandemia, e a Faculdade de Saúde Pública se engajou fortemente no que vem sendo denominado “ensino remoto emergencial” para seguir seu cronograma de aulas no primeiro e segundo semestres.

O tema é de suma importância e precisa ser discutido de forma ampliada, organizada e deliberada com a comunidade uspiana para prepararmos 2021 e anos vindouros. A resposta que tem sido dada com o “ensino remoto emergencial” é digna de louvor aos docentes, funcionários e estudantes pela disponibilidade e criatividade com que nos embrenhamos no mundo digital, mas, também, com muita angústia e desgaste.

Uma canção que teve grande repercussão em redes sociais, “Professora na Pandemia”, composta por Stella Nicolau, colega docente da Unifesp Baixada Santista, e Felipe Bemol, popularizou o termo “morar dentro do computador” como EAD.

Embora ainda não seja possível ressignificar este EAD emergencial como a Educação Aberta Digital que almejamos, alea jacta est, é inegável que se abriu uma temporada frutífera de reflexão sobre metodologias de ensino-aprendizagem em ambientes virtuais.

A Faculdade de Saúde Pública realizou um webinar sobre o tema, em 12 de novembro de 2020, e outro artigo publicado no Jornal da USP traz a síntese analítica das primeiras impressões sobre nossos estranhamentos e as oportunidades que se abriram.

Mesmo com o cenário desalentador dos prédios das nossas unidades praticamente fechados, seguimos fabricando novas formas do fazer escolar. Mas não há dedicação, criatividade e talento que supram a falta da presença física em salas de aulas animadas pelas reações dos corpos e dos olhares.

Por isso, este artigo se presta a trazer o debate sobre o que é presença e como ela se coaduna com a discussão da Educação Aberta Digital.

O que é presença?

A presença, seja no ensino presencial, seja na aprendizagem virtual, implica considerações direcionadas à ressignificação desse termo, sobretudo quando as atividades são preconizadas para serem realizadas em AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem). A presença em ambientes físicos é a marca distintiva central da educação convencional. Mas, no mundo contemporâneo, processos pedagógicos desenvolvidos em AVA estão ampliando as possibilidades de estar presente. Por outro lado, o tema da presença, física ou virtual, síncrona ou assíncrona, não pode ser adequadamente equacionado sem que se leve em conta, simultaneamente, o conceito de frequência.

A presença física é insubstituível, pois nela os cinco sentidos são solicitados ininterruptamente e acionados o tempo todo. As possibilidades de interatividade entre docentes, discentes e recursos são plenas e os limites são os das possibilidades de percepção, incluindo o uso da realidade aumentada.

A presença física não esgota, por outro lado, a possibilidade de estar presente, haja vista a intensidade da presença virtual nos processos educacionais em AVA. Mas a presença virtual apenas mimetiza a presença física, com a perda de alguns sentidos (sendo o olfato um deles, para ficar em apenas um exemplo). Visão e audição adquirem importância central. As possibilidades de interatividade são muito ampliadas, potencializando-se o recurso pedagógico da repetição (vídeos, por exemplo). A presença física é compatível com recursos de realidade ampliada.

A ideia de presença remete, porém, ao seu antônimo: a ausência.

Foi posto em debate o significado da ausência de presentes físicos nos processos de ensino-aprendizagem, sendo possível considerar-se duas condições de ausentes: 1) o ausente presente; e 2) o presente ausente.

O “ausente presente” é representado por alguém que não está presente nem física nem virtualmente, mas que, atravessando a linha do tempo, influencia, por vezes decisivamente, o processo educativo. Sua interatividade é restrita, pois ocorre por meio da permanência de sua obra, incluindo-se nessa condição os grandes mestres da humanidade, como Sócrates, Darwin e Paulo Freire, dentre milhares de outros, em vários campos e áreas de conhecimento. São ausentes presentes. E não necessariamente mortos. Contemporâneos desconectados de processos educacionais específicos podem ser incluídos nesta condição. Tal é o caso de cursos autoinstrucionais em que é um “ausente presente” quem ensina.

A figura do “presente ausente”, por outro lado, é representada por presentes, físicos ou virtuais, cuja presença é ilusória, pois não se efetiva enquanto tal. A pessoa está presente (no ambiente físico ou virtual), mas ela de fato não está ali, uma vez que sua presença não é produtora de sentido epistemológico. Ela está no ambiente, mas de modo mecânico e descontextualizado. Está “voando”, “a cabeça está em outro lugar”, “no mundo da lua”, dentre outras caracterizações, pois sua percepção do que está em curso está interrompida, parcial ou totalmente. O “presente ausente” é também, em certas situações, um “presente excluído”, pois seu estar é apenas decorativo, meramente formal, ou decorrente de alguma imposição legal ou moral.

Questões relacionadas com a presença/ausência são costumeiramente abordadas colocando-se o foco nos estudantes, mas isto não deveria ocorrer, pois diz respeito também aos docentes. Não são raras as situações em que um docente “fala apenas para si” ou, conforme dizem estudantes, “dá aula para si mesmo”, dado o baixíssimo grau de sua interação com seus alunos.

Por fim, cabe reafirmar que a presença, física ou virtual, não é garantia de aprendizagem, pois vários fatores interferem no processo ensino-aprendizagem. O “presente ausente” é apenas um desses fatores com potencial para comprometer significativamente o aprendizado.

No caso específico da USP, é significativo que ênfase especial seja dada à frequência na chamada “documentação escolar”, nos documentos normativos que regem disciplinas e cursos. É assim, pois há amplo reconhecimento de que a presença deve ser avaliada com parcimônia. A experiência ensina que a presença raramente é de 100%. Por essa razão, importa mais saber se um estudante teve boa frequência. Não tanto se esteve presente o tempo todo.

“Não escolhemos como entrar nessa crise, mas a gente pode escolher como sair dela. Acredito que podemos construir uma nova escola ao ver como ela faz falta.” Essa frase, de uma matéria da Folha de S.Paulo, de 14/10/2020, dá o tom de um caminho ético-político passível de ser seguido.

“O mar da história é agitado e é mais ou menos isso que a gente tem pela frente.”

 


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