Em cemitérios de São Paulo, os vivos se divertem entre as lápides e os jazigos

Por Luiz Vicente Justino Jácomo, doutorando em Sociologia pela USP, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)

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Luiz V. J. Jácomo – Foto: Reprodução / Academia

Costuma-se dizer entre os trabalhadores dos cemitérios que o Dia de Finados, celebrado no Brasil em 2 de novembro, seria para os envolvidos no ramo funerário o equivalente em importância ao Natal. É pensando nessa data que equipes espalhadas por praticamente todas as cidades do país se apressam em dar uma caprichada no visual das necrópoles, retocar a pintura, cuidar da jardinagem etc. Ao mesmo tempo, comerciantes dos mais diversos produtos se preparam para montar suas barraquinhas, vendendo de velas e flores a capas protetoras de celular e pingentes, passando pelas comidas, bebidas, salgadinhos e sorvetes que são consumidos pelos visitantes. Toda uma estrutura e logística pensadas para receber milhões de pessoas que reservam esse dia para lembrar de seus entes falecidos, prestar sua homenagem, simbolizar através da visita que a lembrança dos mortos ainda ocupa as paredes da memória dos vivos.

Claro que a movimentação do Dia de Finados é desproporcional, já que, na apressada rotina daqueles que vivem, os mortos não costumam ser lembrados com tanta frequência. Mas uma importante mudança tem ocorrido nos espaços dos cemitérios, no que aparenta ser um fenômeno mundial: eles vêm sendo frequentados cada vez mais por pessoas interessadas em atividades de diversão, esporte e lazer, pessoas que passam a dividir e coexistir nos cemitérios com os mortos em vez de frequentá-los em função deles.

Atualmente, e principalmente nas grandes metrópoles­, os cemitérios aparecem como sugestão de destino nos mais diversos roteiros turísticos, dividindo prestígio com grandes monumentos e locais de visitação espalhados pelo mundo. O cemitério francês do Père-Lachaise, para ficar em um exemplo, recebe cerca de 2 milhões de visitantes por ano, enquanto a Torre Eiffel, um dos locais mais visitados do mundo, é vista por cerca de 6 milhões de turistas no mesmo período. Isso sem falar em tantas outras necrópoles pops, como o Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires; o Cemitério de Arlington, o Congressional Cemetery e o Hollywood Forever, nos Estados Unidos; a Abadia de Westminster, na Inglaterra; e as pirâmides de Gizé, talvez o complexo cemiterial mais famoso da história. Não por acaso, um dos sucessos editoriais de 2017 foi o livro 199 cemitérios para conhecer antes de morrer, de Loren Rhoads, ainda sem tradução para o português.

Os cemitérios brasileiros não ficaram atrás nesse processo. Dois deles se destacam: o Cemitério São João Batista, apelidado de “o cemitério das estrelas” em função da grande quantidade de artistas e políticos influentes ali sepultados, no Rio de Janeiro; e o Cemitério da Consolação, em São Paulo, o primeiro cemitério público da capital paulista. Ambos são objetos de estudos de historiadores, arquitetos, urbanistas, cientistas sociais, pesquisadores de arte, geógrafos etc., interessados nos estudos da memória acerca daqueles que ali jazem, no valor simbólico e material de suas lápides, esculturas e mausoléus, no seu potencial museológico e turístico, enfim, em toda a cultura e conhecimento que emana desses espaços. Mas é nos cemitérios públicos de São Paulo, os quais somam, contando com o Cemitério da Consolação, 22 necrópoles e um crematório, que a relação com esses espaços tem sido requalificada de forma ainda mais radical, somando à arte tumular e ao culto da memória atividades de esportes, lazer e entretenimento.

Apesar de algumas atividades pontuais já estarem acontecendo há algum tempo – caso das projeções de cinema do Cemitério da Vila Nova Cachoerinha, o Cinetério, com sessões ocorrendo desde 2007 –, foi o Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo, aprovado em 2014, que potencializou a existência de atividades artísticas e esportivas nos cemitérios da cidade. Através desse novo dispositivo legal, as necrópoles públicas e privadas passaram a fazer parte do Sistema Municipal de Áreas Protegidas, Áreas Verdes e Espaços Livres do município, o que garantiu, em termos práticos, que o mesmo estatuto e a mesma finalidade dos parques urbanos, tais como Ibirapuera, Villa-Lobos, Água Branca etc., fossem atribuídos aos espaços dos cemitérios. O lazer, portanto, passaria a ser uma dimensão tão importante como a administração dos túmulos e a logística das inumações e exumações.

Imagine assistir a projeções de cinema seguidas de debate com atores e produtores de filmes – quem sabe, ainda, poder assistir a esses mesmos filmes tendo a trilha sonora sendo executada ao vivo. Pense em frequentar montagens e peças interativas de diversas companhias teatrais, seguidas de um show de rock com um repertório voltado para os amores da Marquesa de Santos. Imagine poder retirar um livro na biblioteca depois de ter frequentado um sarau com leituras de obras clássicas, no mesmo dia em que visitou uma feira de adoção e castração de cães e aproveitou para se vacinar contra a febre amarela e o sarampo. Com foco na saúde, pense em como seria poder ter um espaço no meio da cidade de São Paulo com uma floresta enorme, com a possibilidade de fazer trilhas e pedaladas mata adentro, ou mesmo contemplar um jardim de ipês enquanto passeia com o seu animal de estimação. Imagine, agora, que é possível realizar todas essas atividades dentro dos cemitérios espalhados pela cidade.

Essa possibilidade, de que tais atividades passassem a ser oferecidas dentro dos espaços das necrópoles, foi viabilizada em grande medida graças ao novo Plano Diretor, que possibilitou que cerca de 3,5 milhões de metros quadrados – antes reservados ao repouso dos mortos – passassem a ser frequentados e aproveitados pelos vivos. Adultos, jovens e crianças agora têm novos motivos, muito mais alegres e menos fúnebres, para frequentar a cidade dos mortos. É claro que essas atividades despertaram antipatia em certos setores da sociedade, cuja concepção acerca dos cemitérios está mais voltada a encará-los como locais litúrgicos, de culto. Mas os caminhos que se abriram com a nova legislação apontam para uma interpretação mais secularizada das necrópoles, menos orientada e interpretada pela religião – ainda que permaneçam por lá as capelas, os cruzeiros para oferendas, os túmulos dos santos populares e as missas.

Ao que tudo indica, os símbolos e ritos que remetem ao sagrado vão ter que conviver cada vez mais próximos das artes, das práticas e da cultura profanas, fato incontornável num mundo que experimenta, principalmente nas grandes cidades, os sabores do pluralismo.

 

 

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