E la nave và

Por Marisa Midori Deaecto, professora do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP

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Adeus Marcello Bittencourt! Adeus Geraldinho! Adeus…

 

Marisa Midori Deaecto – Foto: Arquivo pessoal
A rotina na Cidade Universitária tinha desses momentos raros e inesperados em que um encontro, uma saudação, ou um breve apertar de mãos poderiam se tornar o pretexto para uma longa conversa. O tempo escorria e estes gestos tão triviais, hoje impensáveis e – vejam só a que ponto chegamos! – proibidos, não raro substituíam nossa participação em uma reunião de trabalho ou o adiamento de uma leitura programada. Naquele momento, era a escola da vida que estava em jogo.

Marcello Bittencourt, jornalista, radialista e escritor, era dessas prosas raras que vez ou outra dava o ar da graça nos espaços abertos do campus do Butantã. Digo, vez ou outra, porque ele não parecia ser dado aos passeios. Gostava mesmo era da Rádio USP. Ali eu o encontrei algumas vezes, entre uma e outra gravação da coluna Bibliomania. Falava rápido, tinha sempre a notícia de um livro e parecia totalmente disponível para discutir uma ideia.

Suas entrevistas eram um capítulo à parte. Trazia na mão um gravador, sentava-se ao nosso lado e, num dado momento, destrinchava todo o livro. Questionava, apresentava ideias novas, criticava, quando era necessário, mas, acima de tudo, sabia ouvir. Era muito curioso. Um radialista que soube, com êxito, conjugar duas mídias aparentemente irreconciliáveis: o rádio com sua imagem popular e o livro com a sua presumida vocação erudita. Como se essas mídias não transitassem frequentemente entre os dois polos. Mas Marcello era inteligente e soube encontrar o justo equilíbrio em sua Biblioteca Sonora.

E la nave o levou, aos 68 anos, vítima da covid-19.

Mas a nave não se contentou com um só talento. Ela conduziu uma outra figura rara de nossa universidade – esta, sim, bastante frequente nos espaços públicos do campus. Refiro-me ao Geraldinho, servidor aposentado e ex-diretor de base do Sindicato dos Trabalhadores da USP. Aprendi apenas hoje seu nome completo: Geraldo José da Cunha. Para mim, ele era o Geraldinho, militante do PT, figura ativa dos movimentos sociais do Butantã e do Jaguaré.

E la nave o levou, aos 67 anos, vítima da covid-19.

Lembro-me de Geraldinho em uma sala, cheia de amigos – eu acabara de o conhecer, sentia-me uma estranha no ninho. Então, ele me olhou e disse: “O céu, logo nós teremos o céu bem aqui embaixo”. Não entendi e fui até a janela para ver do que se tratava. Vi um terreno baldio com escavadeiras e tratores e, então, entendi que naquele local seria construída uma unidade do CEU, um projeto revolucionário de escola pública primária, onde os alunos poderiam ficar em tempo integral e ter acesso a esporte e cultura, além do ensino formal. A escola previa, ainda, atividades abertas para a comunidade. Ele me informava com brilho nos olhos sobre esse projeto implementado durante a gestão da prefeita Marta Suplicy (2001-2005), na periferia de São Paulo. E, com ar matreiro, insistia no paradoxo: o céu está lá embaixo!

Marcello e Geraldinho, essas figuras tão carismáticas que transitaram pelos mesmos espaços, sabiam compartilhar, de forma indistinta e sem barreiras, as experiências vividas e construídas em outros mundos. Pergunto se eles se conheceram. No fundo, isso não importa. Terão agora tempo de entabular alegres palestras, nessa estranha nave que, lenta e implacável, parte com os nossos. Se eu pudesse, diria: “O céu não está lá embaixo, não, Geraldinho. A nave há de lhe mostrar o bom caminho”.

Fora da nave a insensatez nos desatina a todos. Mas, quando eu começo a acreditar que o melhor é ficar por aqui mesmo, sem o perigo da vida social, penso naquelas duas figuras que flanavam pelo campus da USP. E, claro, nos momentos preciosos em que dividi alegrias, tristezas e esperanças, sem nem mesmo suspeitar que a triste époque ainda estava por vir.

Uma única pergunta o coração não consegue calar: a quantos mais acenaremos nosso adeus?

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