Dispersão dos preços e os impactos sobre os consumidores

Por Fábio Augusto Reis Gomes, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP

 27/10/2021 - Publicado há 1 mês
Fábio Augusto Reis Gomes – Foto: Divulgação/FEA-RP

 

 

Durante o período de elevada inflação costumávamos correr para o supermercado para realizar as compras o quanto antes, pois os preços aumentavam diariamente. Com a estabilização da nossa moeda, esse hábito ficou no passado. No entanto, outra característica dos preços com alto potencial para influenciar nosso comportamento é a dispersão deles. Essa dispersão ocorre quando o mesmo produto é vendido por preços diferentes entre os estabelecimentos. Assim, quanto maior a dispersão dos preços, maior é o incentivo para o consumidor procurar um preço melhor.

No entanto, essa procura por melhores preços envolve custos e riscos. O primeiro custo a mencionar é o tempo: você precisa procurar pelo preço melhor, visitando vários estabelecimentos ou mesmo navegando por vários sites. Além disso, ir a vários supermercados aumenta o custo do deslocamento, que não é pequeno, uma vez que os preços dos combustíveis estão bastante elevados. Finalmente, há o risco de não ser bem-sucedido. Você gasta tempo, circula e não encontra um preço melhor.

Na prática, os consumidores se comportarão de diferentes formas. Alguns ainda manterão sua rotina de compras, sem investir mais energia na procura por preços melhores, pois consideram que ainda não é o caso de incorrer nos custos e riscos dessa procura. Outros farão o oposto, procurando os melhores preços. Quanto maior a proporção desse segundo tipo de consumidor, menor tende a ser a dispersão dos preços, pois aqueles estabelecimentos com preços mais elevados terão maior dificuldade de vender tais produtos.

Obviamente, isso não significa que o próprio consumidor é culpado por vivenciar essa elevada dispersão dos preços. Ela se deve a aumentos diferenciados de preços entre os estabelecimentos e quem toma a decisão de reajustar o preço é o vendedor. Vários fatores têm afetado o aumento dos preços: a desvalorização da nossa moeda aumenta o custo de todas as matérias-primas importadas e das commodities, além das próprias incertezas sobre a economia. Caso os vendedores tenham expectativas diferentes sobre a inflação futura, é natural que eles pratiquem aumentos de preços diferentes. No entanto, essas perspectivas diferentes sinalizam que o Banco Central não tem sido eficaz no seu papel de ancorar as expectativas de inflação. Ora, dado que a inflação medida pelo IPCA nos últimos 12 meses atingiu 10,25%, esse diagnóstico é bastante plausível. De fato, se considerarmos apenas a inflação acumulada de janeiro a setembro de 2021, o IPCA já atinge 6,90%, percentual acima do teto da meta de inflação para 2021 (5,25%).

Quais são as perspectivas futuras? O fator positivo é o arrefecimento da pandemia, que permite uma organização melhor das cadeias produtivas. Apenas esse, pois o próprio governo tem se limitado a constatar o óbvio, que os preços dos alimentos e energia subiram muito. Não retornamos aos patamares de inflação anteriores ao Plano Real, mas a dispersão dos preços tem crescido e intensificado o (velho) incentivo para os consumidores procurarem os melhores preços.


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