Da destruição dos livros ou o Brasil que anda para trás

Marisa Midori Deaecto é professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=201008
  • 346
  •  
  •  
  •  
  •  

.

“Quem destrói um livro mata a própria Razão.”

John Milton, Areopagitica, 1644

Marisa Midori Deaecto – Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Há algo de extraordinariamente atual na abertura de Pra Frente Brasil (1982), de Roberto Farias. O bordão do país do futebol e do milagre econômico que dá nome ao filme invade a tela em marcha a ré, enquanto o BRASIL, grafado em caixa alta, retrocede, avança e estaciona, cambaleando na tela. Cria-se, assim, uma forma de oximoro visual. É como se o termo da moda de hoje, RENOVAÇÃO, retroagisse em velocidade vertiginosa sobre a imagem de um BRASIL que teima em andar para trás.

A proposta de rever a história recente da ditatura militar nos livros didáticos e os ataques aos livros da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB) constituem provas eloquentes de um país cambaleante.

Sabemos que um fato e outro estão estreitamente relacionados, pois ambos representam a própria negação da história. Enquanto o revisionismo busca superar uma ideia, mesmo que para isso ele se sobreponha às evidências dos fatos – quantas vezes é preciso afirmar uma mentira para que ela se torne verdade? –, o ataque aos livros tem raízes mais profundas, na medida em que se apresenta como o ato físico e brutal de destruição da memória.

Em História Universal da Destruição das Bibliotecas, Fernando Báez enumera uma série de eventos nos quais o ataque aos livros ocorre de forma calculada. É o que vemos na noite da queima dos livros promovida por Goebbels, em 1933, logo após a ascensão do nazismo. Em Sarajevo, o bombardeio certeiro e prolongado à Biblioteca Nacional, em 1992, não teve outro propósito senão o de estender ao livro a mesma prática de genocídio que se cometia contra toda uma população. Os livros remanescentes da luminosa Alexandria, conta Luciano Canfora, alimentaram as caldeiras dos banhos públicos, por ordem do califa Omar, em 642. Ele justificara a sua ordem com um argumento irrefutável: “se seu conteúdo está de acordo com o livro de Alá, podemos dispensá-los, visto que, nesse caso, o livro de Alá é mais do que suficiente. Se, pelo contrário, contêm algo que não está de acordo com o livro de Alá, não há nenhuma necessidade de conservá-los. Prossegue e os destrói”.

Moral da história: quando são destruídos os livros, os homens se calam; perecem; morrem. E a história pode então ser contada de um único ponto de vista.

A proposta de rever a história recente da ditatura militar nos livros didáticos e os ataques aos livros da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB) constituem provas eloquentes de um país cambaleante

Dentre os títulos destruídos na Biblioteca Central da UnB, salta aos olhos o volume Direitos Humanos, Imagens do Brasil, organizado por Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC. Outras edições desta mesma seara não passaram incólumes da ação voraz e destrutiva desse biblioclasta incontido. Mas sabemos bem que a destruição dos livros visa à aniquilação da humanidade, naquilo que lhe é mais caro, a saber, sua memória. Parece, nesse sentido, bastante sintomático que os volumes de direitos humanos, justamente estes, tenham sido os primeiros a periclitar. Como perdoar todos os esforços despendidos pelo Ministério dos Direitos Humanos, por suas secretarias e pelas Comissões da Verdade, setoriais e nacionais, que nos últimos anos tentaram resgatar a memória e a história de homens e mulheres vitimados pela violência da ditadura militar? Resgatar, enfim, um tempo soterrado sob a marca da “cordialidade” brasileira, mal disfarçada pela cortina da anistia.

Das páginas esquartejadas, arrancadas e esganadas de alguns volumes, que podem se converter em muitos outros volumes, em milhares ou milhões deles, como naquela noite terrível, em que os livros arderam em chamas, em que a humanidade ardeu em chamas, vitimada pela loucura nazista, o que sobrará para ser narrado às novas gerações? A história de um país que se renova caminhando para trás? A história de um povo que se encerrou em um solilóquio profundo, como aqueles personagens tristes, retratados por Ray Bradbury, em Fahrenheit 451?

O momento é delicado. Ele demanda muita atenção e inteligência, sob pena de se colocar o joio e o trigo num mesmo saco. É preciso compreender um gesto isolado, como este, da destruição dos livros no interior de uma biblioteca universitária, como a extensão de confrontos cotidianos, travados com a força das palavras e das armas. Pois não nos enganemos: a destruição dos livros é a marca da intolerância, no passado, no presente e no futuro. Mas qual futuro? Um futuro que se apoia em um estado de violência permanente, que se nutre do desespero ou do ódio? Nesse futuro, certamente os livros e os homens perecerão.

O futuro dos livros e da humanidade é o do diálogo, do debate, do uso da razão. É bem verdade que a difusão daquela imagem pungente de um volume esquartejado, tal como foi divulgada pela grande mídia, provocando reações várias, em diferentes segmentos da sociedade, nos faz acreditar que ainda resta uma esperança. A de que o livro e a ideia possam ainda superar essa onda de intolerância e de miséria que paira sobre nós. A ideia de que é preciso caminhar para frente. E que, para começar, basta dar um primeiro passo.

.

  • 346
  •  
  •  
  •  
  •  

Textos relacionados