Cruzamos o Muro de Berlim antes que batesse a meia-noite ou ficaríamos retidos

Por Luiz Roberto Serrano, superintendente de Comunicação Social da USP

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Luiz Roberto Serrano -Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Escrevi este texto assistindo à cerimônia de comemoração dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, há uma década. Falavam as lideranças dos vários países envolvidos na divisão da Alemanha ao fim da II Guerra Mundial. Gorbachev era o único líder presente da época da queda do Muro. Hillary Clinton representava Obama. Dominós que representavam o Muro estavam lá, à espera de serem derrubados, no que seria a apoteose da cerimônia. Recordar é viver.

Eu tinha 13 anos quando o Muro foi erguido. Sofria de uma certa precocidade e acompanhava, pelo Estadão e pelo Jornal da Tarde, o que acontecia ao redor do mundo. Era uma época em que estavam no comando dos países europeus os líderes ainda oriundos do imediato pós-guerra. Konrad Adenauer, na Alemanha Ocidental. Charles De Gaulle, na França. Winston Churchill na Inglaterra – que, mesmo fora do poder, mantinha sua autoridade moral. Nikita Kruschev, na URSS. Mas John Kennedy já substituíra Eisenhower nos EUA.

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A Guerra Fria estava mais quente do que nunca, com a União Soviética e os Estados Unidos brigando pela conquista do espaço. Kruschev tentava provar que a URSS poderia produzir bens de consumo de qualidade melhor do que os EUA. Uma rebelião húngara havia sido massacrada pelos tanques russos em 1956. Cuba, a 90 milhas de Miami, aderia cada vez mais ao comunismo. A corrida armamentista multiplicava foguetes intercontinentais com ogivas nucleares. E multidões de alemães orientais fugiam para o lado ocidental, insatisfeitos com a vida cinzenta que levavam na zona de ocupação soviética.

No Brasil, foi o ano da renúncia de Jânio Quadros e a luta pela posse de João Goulart, que a direita tentou barrar e engoliu um parlamentarismo com Jango na presidência e Tancredo Neves como primeiro ministro. Nos três anos seguintes , a Guerra Fria esquentou a política brasileira, embora o governo Jango não passasse de reformista, mas naquele tempo tudo que sugeria mudanças era comunista. E veio o golpe de 64.

Um anel irregular

Quando o Muro subiu, a Cortina de Ferro, expressão criada por Churchill para a separação entre a Europa Ocidental e a Oriental, ganhou feição definitiva, transformando-se em obstáculo concreto também em Berlim, o único espaço, dentro da Alemanha Oriental, no qual havia a presença de forças inglesas, americanas e francesas. O Muro de Berlim, na verdade, era um anel irregular que rodeava Berlim Ocidental, isolando-a da parte oriental da cidade e fechando seus subúrbios, que se conectavam com o resto do país. Só visualizei esse desenho quando o avião da Pan American, que me levava de Frankfurt para lá, sobrevoou a cidade.

Isso foi em 1978. Eu estava com um grupo de jornalistas brasileiros, que visitava os meios de comunicação da Alemanha Ocidental, a convite da Fundação Konrad Adenauer, do Partido Democrata Cristão. Fomos a Berlim para conhecer a Axel Springer, a maior editora de jornais da Alemanha, hoje um dos maiores conglomerados de mídia da Europa, com atuação em vários países. A empresa foi fundada em 1946 pelo jornalista Axel Springer e seu principal título é o diário popular, na verdade popularesco, Bild, jornal de maior circulação da Europa.

Chegamos a Berlim num sábado à tarde e um frenesi tomou conta do grupo. Todos queriam ir ao lado oriental, pois no domingo teríamos um programa pesado. Pegamos vários táxis e disparamos para o Check Point Charlie, por onde os turistas cruzavam o muro. Mas alguns receios nos acompanhavam. Estávamos em plena ditadura no Brasil e não sabíamos como seríamos recebidos na volta com um carimbo de país comunista no passaporte, embora nos tivessem assegurado que não havia esse tipo de registro.

Chegando ao Check Point descobrimos que o muro era mais do que uma parede de concreto. Era uma faixa de uns cem metros, cheia de obstáculos, com caminhos em zigue-zague e metralhadoras por todo o lado. Passamos o primeiro portão e entramos em uma sala, onde nos pediram os passaportes e os fizeram sumir por uma fresta, sabe-se lá para onde. Ali ficamos tensos e excitados, esperando a volta dos passaportes e trocando marcos ocidentais ao par por moeda oriental. Os passaportes voltaram, ufa!, sem carimbos. E lá fomos nós enfrentar o zigue-zague, topando em cada zigue e cada zague com um soldado alemão, com um cão pastor alemão, que pedia os nossos papéis.

Nas proximidades do Muro, do lado oriental, os prédios ainda estavam em ruínas pelos bombardeios da II Guerra. Não haviam sido recuperados para não serem habitados. Fomos até uma praça e pegamos o metrô até a famosa Alexanderplatz. Era um trem amarelo de madeira, em que funcionários abriam e fechavam as portas nas estações, bem diferentes do modernos modelos que conhecemos na Alemanha Ocidental. O pagamento da passagem era voluntário.

Em Alexanderplatz batia um vento danado de frio, apesar de estarmos na primavera europeia. Resolvemos subir na altíssima torre de TV que marca o horizonte de Berlim. Lá chegando, notamos que havia uma enorme e demorada fila no elevador para descer. Já eram 21 horas e tínhamos que cruzar o Muro de volta para o Ocidente antes da meia-noite ou ficaríamos retidos do lado oriental. Deu frio na espinha. Demos uma rápida olhada na paisagem e entramos na fila de descida. Saímos de Berlim Oriental antes da meia-noite. Foi um tanto frustrante.

O muro via o Reichstag

No dia seguinte, domingo, almoçamos na editora, na verdade um evento de doutrinação contra o Muro e os comunistas, pois a sede da empresa ficava, na época, colada nele. Nos levaram a várias janelas, de onde relataram assassinatos de orientais que tentaram fugir. À tarde, fomos visitar o Reichstag, que os nazistas incendiaram, na década de 30, acusando os comunistas pelo crime e aproveitando para endurecer o regime. Berlim Ocidental era uma cidade totalmente subsidiada para não perecer. As indústrias alemãs recebiam incentivos para manter unidades produtivas na cidade e os jovens que lá cursassem a universidade eram dispensados do serviço militar. Dentro dessa mesma linha, os partidos políticos da Alemanha Ocidental reuniam-se uma vez por ano no Reichstag em nome da tradição e da reafirmação de Berlim como a capital do país – na época, a capital oficial da Alemanha Ocidental era Bonn.

Pois bem, no Reichstag nos levaram a visitar as salas onde cada um dos partidos promovia sua reunião anual. Em cada uma delas, nos levavam às grandes janelas e nos contavam a história de alemães orientais que haviam sido assassinados tentando cruzar o muro nas cercanias da antiga sede do parlamento. Foi um tour de horrores, que não acabou ali. Ainda fizemos uma excursão pelo muro, parando em palanques especiais de onde se podia olhar o lado comunista da cidade. E tome histórias… Saí de Berlim com a noção do que representava a ameaça do bafo do urso soviético na nuca dos alemães ocidentais e de todas as populações que moravam no lado de cá da cortina de ferro. E comecei a entender melhor a Europa.

Na volta ao Brasil, confirmamos a informação de que Paulo Maluf havia derrotado Laudo Natel nas prévias da Arena, o partido da ditadura, para a eleição indireta ao governo de São Paulo. Ainda iríamos aguentar a figura até 1984, quando Tancredo Neves derrotou-o em eleição indireta para a Presidência da República e a democracia reinstalou-se no Brasil. O Muro caiu cinco anos depois, marcando o início do fim do império soviético e da Guerra Fria.

Hoje, 20 anos depois, o mundo e os alemães comemoram e ainda têm muito a caminhar para nivelar as duas Alemanhas que ainda subsistem no país reunificado. Nós, no Brasil, também temos o que comemorar e temos o desafio de nivelar as condições de vida de nossas populações.

Foi lindo ver os dominós caindo.

PS: Na cerimônia dos 20 anos, o ex-presidente e ex-líder sindical polonês, Lech Walesa, derrubou a representação do muro composta como se fosse um dominó. Quanto ao Brasil, ainda temos o desafio de nivelar as condições de vida de nossas populações. Mas hoje acho que não temos o que comemorar.

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