Crise e oportunidade no coronavírus

Por Angelo Segrillo, professor associado do Departamento de História da FFLCH/USP

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Angelo Segrillo –  Foto: Cecília Bastos/USP Imagem
O coronavírus nos trouxe uma crise pandêmica de proporções inéditas neste século. As tristes consequências estão rondando praticamente todos os indivíduos.

Como toda crise, esta também nos traz oportunidades de aprendizado. Na esfera do ensino, isso se reflete em que a impossibilidade de aulas presenciais fez com que muitos de nós, docentes pouco versados nas novas tecnologias, nos familiarizássemos com essas novas formas de ensino e interação on-line. Mesmo sabendo que nada vai substituir o “olho no olho” e o contato pessoal da aula presencial bem feita, pudemos notar, por exemplo, que uma aula pelo sistema de videoconferência multilateral Google Meet da USP (que permite que professor e alunos debatam quase como se estivessem numa aula teórica comum a partir de um celular ou computador) chega muito perto disso no contexto de uma emergência como a que estamos passando. Isso é uma conquista e um alívio frente à perspectiva que temos de que tão cedo não poderemos, com segurança, retornar às aulas presenciais tradicionais.

É uma questão não apenas pedagógica, mas de saúde (principalmente para os professores e alunos acima de 60 anos de idade), que esse tipo de tecnologia esteja disponível com qualidade em nossa universidade. Quanto mais atividades didáticas on-line fizermos nesse período de contágio, menos riscos as pessoas correrão presencialmente.

Uma das principais dificuldades estruturais para se alcançar esse objetivo está no fato de que há alunos que não têm (boa) conexão de internet. Nesse sentido, eu queria lançar aqui uma sugestão ao reitor da USP, ao governador de São Paulo e ao presidente do Brasil. Que cada um aproveite essa crise para implantar, em suas respectivas áreas de jurisdição, o que já existe em Cingapura: internet banda larga para todos!

Aqui na USP temos wi-fi, mas ele é gerado por cada prédio individualmente e, em muitos deles, o wi-fi só funciona bem nas horas que não são de pico. Quando chega os horários das aulas, em que há um número máximo de alunos usando o sistema, o wi-fi cai de qualidade e fica praticamente inutilizável para tarefas mais sofisticadas. Seria ótimo se a Reitoria conseguisse coordenar um esforço juntamente com os dirigentes das diversas faculdades para que instalássemos o que já existe nas grandes universidades do mundo. Um sistema de wi-fi padronizado, de alta qualidade, que funcione mesmo nas horas de pico e, literalmente, para todos que se encontrem no campus universitário (na USP somente os alunos, professores e funcionários podem usar o wi-fi do campus: visitantes e pesquisadores de fora não podem). Inclusive, eu me pergunto se não sairia mais barato e melhor, em vez de ter sistemas de wi-fi separados em cada prédio, ter um sistema único, de alta qualidade, para o campus inteiro. Talvez as economias de escala superassem os custos de cada prédio em separado.

Banda larga de alta qualidade pela USP inteira pode ser, como eu disse acima, não apenas uma questão pedagógica, mas de saúde. Há médicos que dizem que essa pandemia talvez possa ser como a da chamada gripe espanhola, que veio em ondas, em anos diferentes. Se esse se revelar o caso com a covid-19, a premência por aulas remotas poderá ser esticada para diversos semestres. Assim, deveremos aproveitar hoje para criar uma base duradoura para enfrentar esta e futuras pandemias.

Fora da USP, seria desejável que o governo do Estado e o governo brasileiro se empenhassem em projetos semelhantes de “Banda larga para todos!”, em São Paulo e no Brasil.

Alguém pode replicar que, em um país em que não há saneamento básico para todos, como poderemos chegar a ter “banda larga para todos”? Isso não seria um erro de prioridades?

A dúvida acima se baseia numa concepção errônea de desenvolvimento como um jogo de soma zero: colocar recursos em uma área seria tirar de outra. Na verdade, o desenvolvimento é sinérgico. No dia em que tivermos banda larga para todos, ceteris paribus, os problemas de saneamento básico serão resolvidos mais rapidamente, pois estaremos utilizando processos mais eficientes, a partir de canais de informação e comunicação melhores. Os fluxos se processarão com maior rapidez.

“Banda larga para todos!” deve ser, no século XXI, o que o lema “Educação primária para todos!” foi em séculos passados.

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